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Crime de Carga Movimenta Milhares de Milhões na Europa

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Conferência da TAPA e da ADSP em Oeiras reuniu forças de segurança, especialistas e líderes da logística para alertar para o impacto das redes criminosas organizadas na cadeia de abastecimento e a urgência de novas respostas tecnológicas e legislativas.

O roubo e a fraude na cadeia de abastecimento deixaram de ser incidentes isolados para se tornarem numa indústria criminosa multimilionária e altamente organizada que ameaça a estabilidade económica globa. A advertência foi lançada durante a conferência conjuntamente organizada pela TAPA EMEA (Technology Asset Protection Association) e pela ADSP (Associação dos Diretores de Segurança de Portugal), realizada em Oeiras.
O evento contou com a participação das forças de segurança (PSP, GNR e Polícia Judiciária), representantes de operadores logísticos e do Secretário de Estado da Administração Interna, Telmo Correia, que aproveitou a ocasião para sublinhar a profunda revisão do quadro legislativo da segurança privada em Portugal.
De acordo com os dados do TAPA Intelligence System (TIS), só nos últimos três anos foram registados mais de 250.000 crimes de carga na região EMEA (Europa, Médio Oriente e África). Desses incidentes, uma fatia reduzida de apenas 5,3% declarou valores financeiros, perfazendo ainda assim mais de 3.000 milhões de euros em perdas directas.
Especialistas sublinham que este valor representa apenas a “ponta do icebergue”. O custo real de um roubo para as empresas é de, no mínimo, cinco vezes o valor da mercadoria subtraída, considerando a substituição de bens, a perda de reputação de marca, paragens na produção e encargos operacionais. Além disso, os alvos dos criminosos mudaram drasticamente. Se no passado o foco incidia sobre artigos de elevado valor unitário, como telemóveis, computadores e tabaco, hoje qualquer mercadoria é um alvo primário. Bens de consumo diário de rotação rápida (FMCG), como detergentes, champô, café, azeite, fraldas e cerveja, são roubados massivamente por permitirem um escoamento imediato no mercado paralelo e conversão em dinheiro vivo.

Modus Operandi Avançado: Falsas Transportadoras e Ataques Paramilitares
As apresentações detalharam como as redes transnacionais utilizam tácticas sofisticadas e recursos avançados:
Empresas de Transporte Falsas (Fake Transport Companies): Organizações criminosas mantêm empresas “dormentes” durante anos ou adquirem firmas em falência para construir credibilidade. Após ganharem contractos de transporte, desviam cargas completas que nunca chegam ao destino.
Engenharia Social e Phishing: Infiltração em sistemas de correio electrónico empresarial ou utilização de domínios typosquatting (endereços de e-mail com ligeiras alterações) para simular instruções de alteração de motoristas ou veículos.
Bloqueios Blue Lights: Utilização de veículos caracterizados como forças policiais e com pirilampos para forçar a paragem de camiões nas auto-estradas.
Ataques Paramilitares e Roubo em Andamento: Operações com recurso a bloqueios de estrada, armas de assalto e violência como o assalto em Paris onde 4 milhões de euros em smartphones foram desviados em 30 minutos, para além de furtos em andamento através do corte de lonas.

O Panorama em Portugal: Subnotificação e o Desafio do E-Commerce
Em Portugal, a percepção estatística aponta para uma expressão aparentemente menor face a países vizinhos como Espanha (onde o sistema TIS regista mais de 1.100 incidentes contra 51 em Portugal). Contudo, autoridades da PSP e da PJ advertiram que a realidade pode estar mascarada pela dificuldade de monitorização e classificação estatística, já que muitos furtos por rasgão de lona em parques caem em categorias genéricas de furto de veículo.
Roubo de Tabaco: A Polícia Judiciária (PJ) revelou ter investigado 27 ocorrências de roubo à mão armada a veículos de transporte de tabaco entre 2024 e 2025, levadas a cabo por grupos referenciados.
Desafios nos CTT: O crescimento do comércio elevtrónico fez disparar o volume tratado pelos CTT para 200.000 a 300.000 encomendas diárias (atingindo 500.000 na época alta). O ex-responsável de segurança dos CTT revelou que as perdas foram reduzidas em 20% em 2025 através da realização de mais de 7.000 auditorias surpresa e controlo de acessos rigoroso.
Outro estrangulamento crítico identificado é a falta de parques de estacionamento seguros para veículos pesados. A União Europeia estima uma escassez de 400.000 lugares de paragem certificados, obrigando os motoristas a pernoitar em áreas de serviço desprotegidas.

Governo Anuncia Grupo de Trabalho para Rever Lei da Segurança Privada
O encerramento da conferência ficou marcado pelo anúncio do Secretário de Estado da Administração Interna, Telmo Correia. O governante sublinhou que a segurança da cadeia de abastecimento é uma questão de “segurança económica, resiliência e soberania nacional”.
Telmo Correia anunciou a criação formal de um grupo de trabalho com um prazo de 6 meses para proceder a uma profunda revisão e actualização do Regime Jurídico da Segurança Privada. As principais directrizes da nova legislação incluirão:
Facilitação do Acesso à Tecnologia: Simplificação dos processos para utilização de drones, inteligência artificial e novos sistemas digitais por empresas de segurança e operadores logísticos.
Integração de Sistemas de Videovigilância: Criação de mecanismos para articular melhor as redes de videovigilância pública e privada, reforçando a complementaridade com a PSP e a GNR
Valorização e Formação Profissional: Reforço da capacitação contínua e certificação dos profissionais e directores de segurança


Os oradores foram unânimes ao concluir que a protecção da cadeia de abastecimento não pode ser enfrentada de forma isolada. Como sintetizou a organização do evento, a resposta passa pela partilha de informação anónima entre concorrentes, cooperação entre o sector público e privado, e investimento contínuo em inteligência e prevenção.

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