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Cultivar uma Cultura de Segurança: Reflexões e Aprendizagens na Feira de Segurança da Nestlé

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Inserido no âmbito da Feira de Segurança da Nestlé, na última segunda-feira, em Linda-a-Velha, o debate dedicado ao tema “Como cultivamos juntos uma cultura salva vidas” reuniu uma mesa redonda diversificada para discutir a prevenção, o comportamento humano e a liderança nas organizações. A Security Magazine esteve presente.

Sob a moderação de Sandra Lopes, Iberian Safety & Manufacturing Excellence Manager da Nestlé, a sessão abriu com uma reflexão sobre o próprio conceito de “cultivar” a segurança. Tal como na agricultura, cultivar exige semear, cuidar, regar e manter de forma contínua, pois no momento em que se deixa de cuidar da segurança, ela acaba por desaparecer. A organização destacou que a segurança deve estar integrada nos hábitos diários e no próprio desenho dos locais de trabalho (safety by design), comparando a adopção destes comportamentos ao gesto automático de colocar o cinto de segurança ao entrar num automóvel ou de agarrar o corrimão nas escadas.

A discussão prosseguiu com a intervenção de Laura Silva, Directora Geral da APSEI, que abordou a importância de aproximar a segurança das pessoas, desmistificando a ideia de que se trata de um tema estritamente técnico ou de especialistas. Laura Silva explicou que a segurança engloba tanto a ausência objectiva de ameaças como a percepção subjectiva de um ambiente seguro. A cultura de segurança não é algo inato, mas sim um processo contínuo de construção e actualização de conhecimento. Para combater o acomodamento do “sempre fiz assim”, salientou o papel da inovação, do equipamento preventivo e de uma formação participativa e não coerciva, na qual os trabalhadores são levados a retirar as suas próprias conclusões sobre os riscos. Destacou ainda que a escuta activa dos trabalhadores no terreno é fundamental, pois são frequentemente eles quem identifica perigos que escapam à análise formal.

A Evolução Estratégica e a Melhoria das Condições de Trabalho
Partilhando a experiência de mais de duas décadas na Sonae MC, Abel Pires, Coordenador de Segurança da Área da Saúde da MC, detalhou como a organização transformou a sua abordagem à prevenção. Em 2017, a empresa decidiu deixar de gerir a segurança com base no histórico do passado e passou a definir metas estratégicas a três anos, estabelecendo indicadores preventivos e redefinindo o perfil do técnico de segurança para um verdadeiro gestor. Subsequentemente, em 2021, lançou o programa “Dias das Condições de Trabalho”, que envolveu seis meses de observação no terreno focados em três eixos: ergonomia, segurança e eficiência operacional. Esta iniciativa resultou na introdução de novas tecnologias para eliminar tarefas repetitivas, na reorganização de horários e rotações, e na criação de centros de fisioterapia. Abel Pires enfatizou que a segurança exige o trabalho em equipa, a liderança pelo exemplo e a medição regular da cultura para acompanhar a rotação das equipas.

Confiança, Liderança pelo Exemplo e Cultura Justa
Emília Telo, Coordenadora Nacional da EU-OSHA na ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho), centrou a sua reflexão na criação de um ambiente de confiança, sublinhando que esta não se impõe por decreto. A confiança constrói-se através da escuta activa, da proximidade e de uma liderança exemplificativa. Um líder deve não só demonstrar comportamentos seguros, mas também ter a humildade de admitir e explicar eventuais falhas. Defendeu uma “cultura justa” e sem culpabilização, onde os incidentes são analisados no seu contexto para identificar as causas raiz e não para apontar o dedo. Emília Telo chamou também a atenção para a necessidade de simplificar procedimentos, dar tempo aos trabalhadores para reportarem ocorrências e promover campanhas europeias dedicadas à saúde mental e à prevenção de lesões músculo-esqueléticas.

A Segurança como Alicerce Inegociável de Todas as Prioridades
Encerrou o conjunto de perspectivas a reflexão de Ana Monteiro, Professora da Escola Superior de Saúde de Lisboa, que abordou o desafio de manter a segurança num quotidiano acelerado e repleto de prioridades concorrentes. Ana Monteiro defendeu que a segurança não deve ser vista como mais uma prioridade negociável, mas sim como o alicerce sobre o qual se constroem todos os resultados organizacionais. A sua intervenção estruturou-se em quatro eixos fundamentais: a humanização da segurança, lembrando que por trás de cada procedimento estão vidas, famílias e projectos; a demonstração de que bons resultados operacionais e segurança caminham juntos, reduzindo o absentismo e aumentando a produtividade; o desenvolvimento de uma verdadeira cultura de prevenção baseada em atitudes diárias e responsabilidade partilhada; e o compromisso inequívoco da liderança. Concluiu reforçando que a escolha segura deve tornar-se um hábito intrínseco e espontâneo, praticado mesmo quando ninguém está a observar, sendo essa uma aprendizagem que deve começar na sociedade e desde a infância.

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