A segurança logística está a deixar de estar centrada apenas no cumprimento de regras e procedimentos para assumir um papel cada vez mais integrado na própria concepção das operações. Tecnologia, automatização, inteligência artificial, ergonomia e análise de dados estão a transformar a forma como os riscos são identificados e prevenidos, mas a proximidade às equipas e a construção de uma verdadeira cultura de segurança continuam a ser determinantes. Sandra Mourão, coordenadora nacional de Segurança e Saúde no Trabalho do Grupo Mosqueteiros, avança à Security Magazine os principais desafios da segurança nas operações logísticas, o papel das chefias intermédias, a evolução tecnológica e a necessidade de conciliar produtividade e segurança, sem perder de vista aquilo que deve estar no centro de qualquer operação: as pessoas.
Security Magazine – Como está actualmente organizada a função de segurança logística dentro do Grupo Mosqueteiros?
Sandra Mourão – Todos os nossos entrepostos dispõem de responsáveis locais de segurança, apoiados por uma coordenação nacional que assegura o alinhamento estratégico, a uniformização de práticas e procedimentos e a partilha de conhecimento.
A área de Segurança reporta à Direcção de Logística e Administração, o que garante a sua integração nas decisões estratégicas e operacionais da organização.
Quais são as suas principais funções dentro do Grupo?
Na área da segurança, as minhas principais funções incluem a definição da estratégia, a garantia do cumprimento dos requisitos legais e internos, a uniformização de procedimentos, a coordenação da equipa de Processos e Segurança e a monitorização dos respectivos indicadores.
Sou igualmente responsável pela gestão do departamento de apoio ao cliente e pela definição, desenho e uniformização dos processos dos vários departamentos que suportam a cadeia logística, validados pela direcção. Estes requisitos operacionais, de segurança e de actuação em emergência são aplicáveis igualmente para os nossos fornecedores e prestadores de serviços que desenvolvem actividades nas nossas instalações. Esta visão integrada permite acompanhar os resultados, identificar desvios e estabelecer prioridades de actuação orientadas para a prevenção, a eficiência e a melhoria contínua.
A observar a realidade do grupo, quais são hoje os principais desafios de segurança nas operações logísticas do Grupo Mosqueteiros?
Um dos principais desafios é manter o foco e assegurar uma comunicação eficaz. Embora existam cada vez mais meios de comunicação, o excesso de informação dificulta o impacto das mensagens de segurança. Por isso, é essencial comunicar de forma clara e próxima das pessoas no terreno, através de acções de informação e sensibilização que expliquem não apenas as regras, mas também a razão pela qual existem.
Uma regra tem maior probabilidade de ser respeitada quando cada pessoa compreende que o seu objectivo não é apenas proteger a empresa, mas, sobretudo, salvaguardar a sua integridade e o seu bem-estar.
Outro desafio decorre do aumento da mobilidade profissional: as pessoas mudam de função e de organização com maior frequência. Esta realidade torna mais exigente a construção de uma cultura de segurança assente no envolvimento, no sentido de responsabilidade, na identificação com o trabalho realizado, no sentimento de pertença e na interiorização dos valores da organização.
Neste contexto, o desafio é garantir que cada pessoa compreende o seu propósito, assume a segurança como parte da sua responsabilidade profissional e reconhece o impacto das suas acções na sua própria segurança e na dos outros.
Existe uma preocupação crescente em antecipar o risco. Que situações ou comportamentos conseguem hoje identificar antes de resultarem num acidente?
Entre os comportamentos mais facilmente identificáveis destacam-se os associados à distracção, bem como os riscos decorrentes da introdução de novos equipamentos. Antes da introdução de um novo equipamento, procedemos à avaliação prévia dos riscos associados à sua utilização, analisamos a sua interacção com as pessoas e verificamos se estão reunidas todas as condições necessárias para uma utilização segura. O mesmo princípio é aplicado sempre que se altera um processo ou a configuração de uma área. A avaliação de riscos constitui, assim, um processo dinâmico e permanente no contexto de um armazém logístico.
O conhecimento aprofundado da operação permite reconhecer sinais de alteração ao funcionamento habitual, como o congestionamento anormal de uma zona, mudanças nos circuitos de circulação, tarefas que passam a exigir maior esforço ou a adoçam de atalhos pelos operadores para cumprir os objectivos. Embora possam parecer pouco relevantes quando considerados isoladamente, estes sinais podem indicar o surgimento de uma situação de risco.
A experiência da equipa de segurança e o conhecimento dos comportamentos, das rotinas e da realidade operacional são, por isso, fundamentais para antecipar potenciais situações de risco.
A gestão da segurança não pode assentar exclusivamente em relatórios, indicadores ou auditorias. Exige proximidade, observação directa, diálogo com as pessoas e uma compreensão efectiva da forma como o trabalho é executado, para além do que se encontra formalmente estabelecido nos procedimentos.

Há algum projecto de segurança implementado no Grupo Mosqueteiros que considere particularmente importante falar? O que motivou o projecto e que resultados produziu?
Encontra-se actualmente em avaliação um projecto na área da ergonomia, destinado a apoiar a movimentação de cargas através da utilização de exosqueletos. Esta solução visa reduzir o esforço físico exigido aos colaboradores e contribuir para a prevenção de lesões musculoesqueléticas. Está igualmente em curso a implementação de câmaras que recorrem a algoritmos de inteligência artificial para reforçar o controlo de acessos e outras tarefas realizadas pela vigilância.
Nos últimos anos, foram também implementados diversos projectos que contribuíram para a redução de incidentes e acidentes. Entre estes destacam-se as máquinas de movimentação equipadas com sistemas de controlo e monitorização, alertas automáticos e controlo activo de velocidade em todo o parque, colocação de protecções em policarbonato nos empilhadores, para prevenir acidentes na queda de objectos ou líquidos; os sistemas de semáforos nos cais de carga, que apenas permitem a abertura quando o veículo se encontra parado e devidamente encostado, prevenindo quedas e acidentes durante as operações de carga e descarga; a telemetria dos painéis solares, destinada à detecção de anomalias e à prevenção de riscos eléctricos e incêndios, empilhadores com sinalização visual projectada no piso e bloqueio automático em função da altura dos garfos e sistemas automáticos de transporte, como os sorters.
O retalho está hoje mais rápido, mais complexo e mais pressionado pela produtividade. Como é que esta transformação está a mudar a forma como se gere a segurança nas operações logísticas?
A crescente pressão sobre a produtividade exige operações progressivamente mais eficientes, sem que tal comprometa os níveis de segurança. Neste contexto, as equipas de segurança devem assumir um papel activo na simplificação e na melhoria dos processos, contribuindo para a eliminação de tarefas sem valor acrescentado a adoçam de soluções tecnológicas, a automatização de actividades repetitivas ou manuais, a redução de movimentações desnecessárias, a melhoria das condições ergonómicas e a diminuição da exposição a tarefas de maior risco. Esta abordagem permite, simultaneamente, libertar as equipas para actividades em que o seu conhecimento e a sua intervenção representam uma efectiva mais-valia. Neste sentido, a equipa de segurança deve evoluir de uma função predominantemente centrada no controlo, na verificação de soluções já definidas e na identificação de não conformidades para uma posição de parceria activa na transformação da operação, contribuindo para a concepção de processos mais simples, céleres, produtivos e seguros.
Uma operação verdadeiramente eficiente não é aquela que impõe às pessoas um ritmo de trabalho mais acelerado, mas a que é concebida para lhes permitir trabalhar melhor, com menor esforço, menos tarefas sem valor acrescentado e uma exposição reduzida ao risco.
Há uma diferença entre cumprir uma regra porque ela existe e compreender o risco que está por trás dessa regra. Como se passa de um comportamento de cumprimento mecânico para uma verdadeira cultura de segurança?
A passagem de um cumprimento meramente mecânico para uma verdadeira cultura de segurança depende de um trabalho contínuo de sensibilização, realizado em proximidade com as equipas e adaptado à realidade operacional. Não basta explicar como cada regra deve ser cumprida; é essencial esclarecer a razão da sua existência, o risco que pretende prevenir e a protecção que proporciona, recorrendo, sempre que possível, a exemplos concretos. Quando os colaboradores compreendem este propósito, o cumprimento deixa de ser apenas uma obrigação e passa a resultar de uma consciência efectiva do risco.
Mesmo num contexto de crescente incorporação tecnológica, a proximidade, o diálogo e o envolvimento directo com os colaboradores continuam a ser os meios mais eficazes para consolidar comportamentos seguros.
Que papel devem assumir as chefias intermédias na construção da cultura de segurança?
As chefias intermédias desempenham um papel decisivo, essencial na construção e consolidação da cultura de segurança, porque são os actores principais na execução das operações e além disso são os que melhor conhecem as particularidades de cada pessoa da equipa podendo detectar sinais de cansaço, desmotivação, etc. Cabe-lhes orientar as equipas, acompanhar o desempenho, dar o exemplo e garantir que a segurança é integrada nos comportamentos e taregas diárias, e não encarada apenas como um conjunto de regras a cumprir, promovendo o equilíbrio entre produtividade e prudência e valorizando e reconhecendo comportamentos seguros
Pela proximidade e experiência do terreno, são também fundamentais para identificar dificuldades, desvios e oportunidades de melhoria e articular estas ideias com as equipas de segurança, contribuindo para soluções ajustadas à realidade operacional. A forma como comunicam uma nova regra, uma alteração de processo ou uma medida preventiva influência directamente a sua compreensão, aceitação e aplicação pelas equipas.

Hoje encontramos empilhadores com limitação de velocidade, sensores de proximidade, sistemas de bloqueio, videovigilância, telemetria e alertas em tempo real. Até que ponto a tecnologia está a passar de ferramenta de apoio para uma verdadeira camada de segurança?
Já implementámos várias destas medidas, que nos permitem actuar sobre o risco de formas que nem sempre seriam possíveis apenas através de procedimentos ou formação. Por esse motivo, sempre que avaliamos novas soluções para reduzir os riscos, damos prioridade à tecnologia. Em vez de recorrer, como primeira resposta, à criação de novas regras ou procedimentos, privilegiamos soluções de controlo, alerta e bloqueio capazes de prevenir actuações inseguras. A tecnologia e a inteligência artificial permitem, assim, criar barreiras à falha humana, deixando de constituir meras ferramentas de apoio para assumirem um papel indispensável na prevenção. Esta evolução deve, contudo, ser equilibrada: a tecnologia deve reforçar a protecção sem limitar a autonomia ou a capacidade de decisão dos colaboradores. O seu papel deve, por isso, complementar a responsabilidade individual, o sentido crítico e a consciência do risco, sem os substituir.
Quais são, na sua opinião, as tecnologias que terão maior impacto na segurança logística nos próximos cinco anos?
A inteligência artificial estará, provavelmente, na base das tecnologias com maior impacto na segurança logística.
A análise integrada de dados históricos sobre acidentes, incidentes e respectivas causas, conjugada com informação relativa aos volumes operacionais, horários e períodos de maior circulação de pessoas e equipamentos, permitirá identificar padrões, antecipar situações de maior risco e reforçar a prevenção. Esta tecnologia será igualmente relevante para uma manutenção preventiva de equipamentos e sistemas mais eficiente e orientada por dados, possibilitando uma intervenção antecipada antes que uma falha origine uma situação de risco ou uma paragem operacional.
As câmaras equipadas com inteligência artificial poderão também identificar zonas de risco e emitir alertas em tempo real perante comportamentos inseguros. Entre as suas aplicações incluem-se a deteção de aproximações perigosas entre pessoas e equipamentos, a identificação da ausência de equipamentos de protecção e a sinalização antecipada de comportamentos ou condições suscetíveis de gerar risco.
Os equipamentos de condução automática poderão igualmente contribuir para a redução da interacção entre pessoas e máquinas de movimentação, nomeadamente através da sua utilização em horários previamente definidos.
A automatização das operações de picking e a robótica móvel serão também determinantes, ao permitirem reduzir o esforço físico, os movimentos repetitivos e a execução manual de determinadas operações.
Terão ainda um papel relevante os dispositivos IoT, como sensores e equipamentos conectados instalados em máquinas, equipamentos de movimentação, portas, estruturas ou zonas críticas, capazes de recolher informação em tempo real. Do mesmo modo, os dispositivos electrónicos utilizados pelos colaboradores poderão monitorizar factores como a postura, a vibração, o cansaço e o esforço físico, emitindo alertas perante situações de risco, à semelhança das soluções já existentes para acompanhar o ritmo cardíaco ou a qualidade do sono.
Por fim, as tecnologias de simulação, incluindo soluções de realidade aumentada, poderão apoiar a formação imersiva em segurança e facilitar o teste de alterações de layout, fluxos de pessoas e equipamentos ou novos processos em ambiente virtual, antes da sua implementação física.
Uma operação logística não é composta apenas por trabalhadores internos. Como garantir que prestadores de serviços e fornecedores trabalham exatamente com o mesmo padrão de segurança?
Para assegurar que fornecedores e prestadores de serviços cumprem os mesmos padrões de segurança aplicáveis às equipas internas, começamos por definir e comunicar claramente os requisitos e procedimentos que devem ser observados nas nossas instalações. Dispomos igualmente de um sistema de controlo de acesso em funcionamento 24 horas por dia e todos os profissionais externos são acompanhados por colaboradores internos. Embora este acompanhamento exija disponibilidade de recursos, constitui uma medida essencial para garantir o cumprimento das regras e assegurar uma intervenção imediata perante qualquer situação de risco.
Sempre que a intervenção externa envolve trabalhos de manutenção, reparação ou construção, é realizado um planeamento prévio que contempla o cronograma das tarefas, a avaliação dos riscos, as medidas preventivas e os meios de emergência aplicáveis. São também verificadas a formação, a experiência e as habilitações dos profissionais para a execução de actividades específicas, como a condução de máquinas ou os trabalhos em altura, bem como o cumprimento, por parte das empresas contratadas, das respectivas obrigações legais e sociais.
Ainda para trabalhos de prestadores de serviço que envolvam trabalhos de risco acrescido, como trabalhos com fogo, temos procedimentos específicos de verificação e controlo antes, durante e após os trabalhos.
Todos os profissionais que exercem actividades nas nossas instalações estão sujeitos às mesmas regras de segurança e devem beneficiar de igual nível de protecção.
Se olharmos para um centro logístico daqui a dez anos, o que acredita que será radicalmente diferente na forma como trabalhamos a segurança?
Acredito que, dentro de 10 anos, os centros logísticos integrarão um número significativamente maior de máquinas, sistemas automatizados, soluções de inteligência artificial e outras tecnologias, contando, provavelmente, com menos pessoas na execução directa das tarefas. Esta evolução transformará profundamente a forma como concebemos e gerimos a segurança.
Uma das principais questões será assegurar uma interacção equilibrada entre pessoas e máquinas. A tecnologia deverá ser concebida para se adaptar às necessidades humanas, respeitando as pessoas, e não para lhes impor uma adaptação permanente ao seu funcionamento. Por outro lado, uma utilização mais intensiva da tecnologia implicará a recolha de um volume crescente de informação. Embora esta evolução possa proporcionar benefícios significativos para a segurança, exigirá também uma definição clara dos limites a respeitar.
Será necessário garantir não apenas que as máquinas não colocam em causa a integridade física das pessoas, mas também que os sistemas tecnológicos respeitam a sua privacidade, dignidade, confiança, autonomia, liberdade e os princípios éticos.
Perante uma tecnologia capaz de identificar onde uma pessoa se encontra, como se movimenta, quanto tempo demora ou de que forma executa uma tarefa, não basta questionar se essa tecnologia torna o trabalho mais seguro; é igualmente indispensável avaliar se respeita a pessoa.
Em última análise, o verdadeiro desafio consistirá em criar centros logísticos onde a tecnologia seja suficientemente inteligente para colaborar com as pessoas e reforçar a sua protecção, mas também suficientemente responsável para respeitar os seus direitos e a sua autonomia.
O futuro da segurança deve proporcionar maior protecção sem comprometer a liberdade das pessoas.
Olhando para o caminho que o Grupo Mosqueteiros tem feito, qual foi a principal mudança na forma de pensar a segurança logística? E qual é a mudança que ainda falta fazer?
A principal transformação consistiu na consolidação da segurança como prioridade transversal a toda a organização. Embora sempre tenha constituído um dos seus pilares, a segurança encontra-se hoje plenamente integrada nas decisões estratégicas, na concepção dos processos e na gestão quotidiana das operações, assumindo uma relevância equiparável à produtividade.
“Esta evolução traduziu-se no reforço do investimento em sistemas de segurança activa e passiva, novos e melhorados máquinas e equipamentos de trabalho promovendo uma abordagem de prevenção e redução da exposição aos riscos”.
A mudança que ainda importa concretizar passa por encontrar formas mais eficazes de captar o interesse dos colaboradores, aprofundar a sua compreensão das questões de segurança e promover uma participação mais activa na prevenção dos riscos.









