A instalação de uma nova unidade produtiva é sempre um momento de transformação para uma empresa, mas quando essa unidade se dedica à transformação de fibra de carbono e materiais compósitos, os desafios colocados à segurança assumem uma dimensão particular. Foi com esse enquadramento que a AOSHENG HI-TECH escolheu Valongo para instalar a sua primeira unidade produtiva fora da China, numa estratégia de expansão da empresa no mercado europeu. A nova fábrica terá operações de transformação de fibra de carbono através de processos de pultrusão, combinando automação, monitorização e intervenção humana especializada. Construir uma unidade de raiz permite, desde o início, integrar a segurança no próprio projecto das instalações e dos processos. No caso da AOSHENG HI-TECH, essa preocupação abrange desde a organização dos fluxos de pessoas e materiais e os sistemas de ventilação e extracção até à prevenção e resposta a incêndios. A avaliação dos riscos associados às poeiras de fibra de carbono, compostos orgânicos voláteis, materiais inflamáveis, movimentação de cargas e processos térmicos foi igualmente considerada antes do arranque da produção. Nesta entrevista à Security Magazine, Xin Li, director-geral da empresa, explica as opções adoptadas pela empresa para construir uma operação segura desde a sua origem, o papel que a Segurança e Saúde no Trabalho terá na preparação dos trabalhadores, a utilização crescente de automação e tecnologias de monitorização e a importância da criação de uma verdadeira cultura de segurança numa unidade industrial que está agora a dar os primeiros passos em Portugal.
Security Magazine – A AOSHENG HI-TECH escolheu Valongo para instalar uma nova unidade produtiva fora da China. O que motivou esta decisão e que importância tem Portugal para a expansão da empresa na Europa?
Xin Li -A expansão da AOSHENG HI-TECH para o mercado Europeu baseou-se, antes de tudo, no desejo de expansão da empresa para outras regiões, alavancando assim o nome da empresa. Uma das grandes motivações foi também o facto de grande parte da nossa carteira de clientes estar situada na Europa e por isso a decisão de escolher Portugal foi tida com esse ponto em conta. Portugal é um país com uma qualidade acima da média no que toca à mão de obra qualificada e dispõe de Universidades de grande relevo e prestígio. Este factor foi importante tendo em conta que o nosso core business é o processamento e transformação de fibra de carbono (indústria de alta tecnologia e inovação).
O que podemos esperar encontrar na nova unidade e que tipo de operações e processos serão aí desenvolvidos?
A nova unidade terá operações de transformação de fibras de carbono, nomeadamente através do processo de pultrusão. É um processo estável e bastante automatizado, no entanto, carece sempre de uma grande monitorização humana para garantir a qualidade do produto.
Uma nova fábrica permite incorporar a segurança desde a fase de projecto. Que preocupações de segurança foram consideradas desde o início na concepção das instalações?
Ao construir de raiz, a AOSHENG HI-TECH teve oportunidade de integrar a segurança no próprio projecto arquitectónico e de engenharia. A escolha do Panattoni Park reflecte essa mesma aposta. É claro, que uma indústria é um organismo dinâmico e existe sempre necessidades de adaptações, mas desde de cedo foram consideradas medidas para minimizar os riscos para os trabalhadores como: layout que separa fluxos de pessoas e de materiais, sistemas de ventilação e extracção adequados aos processos com resinas, vias de evacuação dimensionadas e detecção e combate a incêndio integrados desde o projecto.
Quais são, na perspectiva da AOSHENG HI-TECH, os principais riscos de segurança associados aos processos de produção de componentes em fibra de carbono e materiais compósitos? Como está a ser feita a avaliação e gestão desses riscos e que soluções técnicas e operacionais estão a ser adoptadas para os minimizar?
Os riscos mais relevantes neste tipo de produção incluem a exposição a poeiras de fibra de carbono e a compostos orgânicos voláteis, como resinas, o risco de incêndio associado a materiais inflamáveis, riscos ergonómicos na manipulação de moldes e peças, e riscos eléctricos e térmicos nos processos de cura.
A aposta na segurança foi considerada desde cedo, ainda na fase de projecto. Temos na equipa um responsável de segurança e ambiente dedicado, que está a efectuar a avaliação de risco posto a posto, de forma a identificar com precisão os perigos específicos de cada função antes do arranque da produção.
Na gestão desses riscos, seguimos sempre a mesma hierarquia de controlo: começamos por tentar eliminar o perigo na origem e, quando isso não é possível, avançamos para a substituição por alternativas mais seguras. Só depois entram os controlos de engenharia, como sistemas de ventilação local e exaustão nos postos com maior exposição a poeiras e vapores e, como última linha de defesa, o equipamento de protecção individual.
A isto junta-se um trabalho de monitorização da qualidade do ar nas áreas de produção, e procedimentos específicos e documentados para o manuseamento, armazenamento e descarte de resíduos, garantindo que os riscos são geridos de forma consistente ao longo de todo o processo e não apenas no momento em que ocorrem.
No caso de uma unidade industrial de raiz, como é que a AOSHENG HI-TECH procura equilibrar produtividade, eficiência dos processos e segurança dos trabalhadores?
A abordagem passa por não tratar a segurança como um custo à parte, mas como parte do desenho do próprio processo produtivo: processos bem definidos e padronizados tendem a ser simultaneamente mais seguros e mais eficientes, porque reduzem variabilidade e erro humano. Isto implica formação sólida, normas de trabalho claras, e um sistema de melhoria contínua que trata os incidentes e quase-acidentes como oportunidades de optimizar tanto a segurança como o processo.

Que importância terão a automação e as tecnologias de monitorização na segurança da nova unidade?
A automação de tarefas repetitivas ou de maior risco está nos planos a curto/médio prazo, e há aqui uma margem de evolução considerável. Uma vez que o processo implementado parte do modelo já existente na nossa fábrica-mãe na China, estamos desde já a trabalhar em melhorias de segurança e de processo que permitam reduzir movimentações de cargas e posturas repetitivas, por exemplo, na movimentação de peças pesadas e em determinadas fases do processo de cura, que serão progressivamente automatizadas para reduzir a exposição directa dos trabalhadores a esses riscos.
Em paralelo, estamos a apostar em sistemas de monitorização, sensores ambientais, detecção de gases e poeiras, videovigilância de zonas críticas, que permitem identificar desvios em tempo real e actuar antes de um incidente ocorrer. Esta monitorização complementa a formação e os procedimentos já existentes, dando-nos dados objectivos sobre as condições reais de trabalho e permitindo-nos afinar continuamente as medidas de segurança à medida que a operação evolui.
A segurança de uma fábrica moderna não se limita à componente física. Como está a AOSHENG HI-TECH a abordar a segurança das redes, sistemas industriais e equipamentos conectados, nomeadamente a componente OT?
A segurança informática é uma preocupação cada vez mais importante nos dias de hoje e a AOSHENG HI- TECH está a ter isso em conta. Estamos preparados com os sistemas de protecção necessários para a salvaguarda de dados e informações. A certificação da norma 27001 é algo que está em processo de estudo neste momento.
Que papel terá a Segurança e Saúde no Trabalho na preparação da operação? Está prevista uma formação específica dos trabalhadores antes do início da produção?
A Segurança e Saúde no Trabalho tem um papel central na preparação desta operação, com identificação e avaliação de riscos por função, definição de procedimentos de trabalho seguro, e um plano de formação obrigatória para todos os trabalhadores antes de iniciarem funções cobrindo desde a manipulação de materiais e equipamentos até procedimentos de emergência. Sendo uma unidade nova, com trabalhadores maioritariamente sem experiência prévia neste tipo de ambiente industrial, esta formação inicial é particularmente crítica.
O arranque gradual e planeado da operação permite-nos abordar a segurança de forma consistente e faseada. Todos os colaboradores recebem, naturalmente, a formação de acolhimento em segurança. No entanto, como o recrutamento está a decorrer em fases distintas, aproveitámos essa oportunidade para constituir e formar um primeiro grupo sólido de trabalhadores, que assumirá o papel de embaixadores de segurança junto das novas admissões, funcionando como extensão da própria equipa de segurança e como transmissores de conhecimento no terreno. Já realizámos, aliás, uma sessão de brainstorming com este grupo para discutir os principais pontos de atenção e alinhar o plano de ação de segurança para este ano.
Como pretende a AOSHENG HI-TECH criar uma verdadeira cultura de segurança entre os colaboradores, particularmente numa fase inicial em que muitos trabalhadores estarão a entrar pela primeira vez neste ambiente industrial?
A criação de uma verdadeira cultura de segurança será uma prioridade desde o primeiro dia. Embora seja mais fácil construir hábitos seguros de raiz do que alterar comportamentos já instalados, isso exige um investimento contínuo em liderança, formação e acompanhamento no terreno.
A AOSHENG HI-TECH pretende promover uma liderança visível e próxima dos colaboradores, através da realização regular de Safety Walks com a participação das chefias de topo. Estas visitas permitem reforçar a importância da segurança, identificar oportunidades de melhoria, ouvir directamente os trabalhadores e garantir uma evolução contínua das condições e práticas de trabalho.
Adicionalmente, será promovida uma comunicação aberta sobre riscos, incidentes e quase-acidentes, incentivando o envolvimento dos próprios colaboradores na identificação de perigos e na implementação de soluções. O reconhecimento de comportamentos seguros será também uma ferramenta importante para consolidar esta cultura.
Tendo em conta que muitos trabalhadores estarão a entrar pela primeira vez num ambiente industrial, a formação inicial e o acompanhamento próximo durante os primeiros meses serão determinantes para criar desde cedo hábitos de trabalho seguros e responsáveis.
A experiência internacional da AOSHENG HI-TECH permite trazer para Portugal práticas e modelos de segurança já utilizados noutras unidades? E há, pelo contrário, aspectos da realidade portuguesa que exigiram uma adaptação da abordagem da empresa?
A experiência acumulada pela AOSHENG HI-TECH nas suas unidades de produção na China constitui uma base sólida para o desenvolvimento da operação em Portugal. Ao longo dos anos, a empresa consolidou processos produtivos, procedimentos técnicos e práticas de segurança, particularmente na área dos materiais compósitos de fibra de carbono. Este conhecimento permite-nos implementar em Portugal soluções já testadas e aperfeiçoadas, garantindo elevados padrões de qualidade, eficiência e segurança.
Naturalmente, a implementação de uma unidade industrial num novo país exige uma adaptação ao contexto local, nomeadamente no que diz respeito à legislação europeia e portuguesa, aos requisitos de segurança e saúde no trabalho, às normas aplicáveis aos equipamentos industriais e aos procedimentos de licenciamento.
Neste processo, valorizamos também a colaboração entre as equipas chinesas e portuguesas, promovendo a partilha de conhecimentos, experiências e boas práticas. A combinação da experiência técnica e industrial do Grupo AOSHENG HI-TECH com o conhecimento e as competências dos profissionais locais é fundamental para construir uma operação segura, eficiente e sustentável.
O nosso objectivo é aproveitar o melhor da experiência internacional da AOSHENG HI-TECH, respeitando plenamente o enquadramento legal e as práticas locais, e desenvolver em Portugal uma unidade industrial moderna, alinhada com os elevados padrões de segurança e qualidade exigidos pelo mercado europeu.
Em caso de acidente grave, incêndio ou outra situação de emergência, como está a ser preparada a capacidade de resposta da nova unidade e a articulação com os meios externos de emergência e protecção?
A AOSHENG HI-TECH já dispõe de um Plano de Emergência Interno devidamente definido, que estabelece os procedimentos de actuação em caso de emergência e garante uma resposta rápida e eficaz a diferentes cenários de risco. Como parte da preparação da organização, já foi ministrada formação específica aos colaboradores, assegurando que conhecem os procedimentos de segurança e as suas responsabilidades em situações de emergência.
Paralelamente, encontra-se em curso a constituição de equipas internas de emergência, que terão um papel fundamental na primeira intervenção e na coordenação das acções iniciais até à chegada dos meios externos, sempre que necessário.
A instalação está ainda equipada com sistemas de detecção e combate a incêndio adequados aos materiais e processos existentes, sendo realizados exercícios e simulacros periódicos para testar a eficácia dos procedimentos e reforçar a preparação das equipas. Será igualmente mantida uma articulação próxima com os bombeiros e os agentes de protecção civil locais, através da partilha de informação relevante sobre a instalação e os seus riscos, promovendo uma resposta externa rápida, coordenada e eficaz.
O que significa, para a AOSHENG HI-TECH, construir uma fábrica segura em 2026?
Para a AOSHENG HI-TECH, construir uma fábrica segura em 2026 significa colocar a segurança das pessoas no centro de todas as decisões, desde a concepção das instalações até à operação diária. Mais do que cumprir requisitos legais, o objectivo é criar um ambiente de trabalho onde cada colaborador possa desempenhar as suas funções com confiança, em condições seguras e saudáveis.
Isso passa por dispor de infraestruturas modernas, processos bem definidos, equipamentos adequados e uma forte cultura de prevenção, suportada por formação contínua, envolvimento dos trabalhadores e liderança activa. A segurança deve ser encarada como uma responsabilidade partilhada por todos os níveis da organização e integrada em todas as actividades da fábrica.
Para a AOSHENG HI-TECH, uma fábrica segura é também uma fábrica preparada para crescer de forma sustentável, promovendo o bem-estar dos colaboradores, a excelência operacional e a melhoria contínua, sempre alinhada com as melhores práticas da indústria e com os mais elevados padrões de segurança.
Que desafios considera que a AOSHENG HI-TECH terá pela frente em matéria de segurança industrial nos próximos anos e que papel pretende que a segurança desempenhe no crescimento da operação portuguesa?
Os principais desafios tendem a ser: escalar a operação (mais volume, mais turnos, mais trabalhadores) sem diluir os padrões de segurança inicialmente definidos; manter a atualização face a novos processos ou materiais à medida que a gama de produtos evoluir; e consolidar uma cultura de segurança madura numa equipa maioritariamente nova. A segurança tende a ser, neste contexto, não um travão ao crescimento mas uma condição para ele uma operação com bons indicadores de segurança tende a ser também mais estável, previsível e atrativa para reter talento e para os próprios clientes internacionais da AOSHENG HI-TECH.









