Por Fernando Martins, head of security, Natech
O tema da segurança, quando focado numa empresa de canábis medicinal, traz uma camada extra de complexidade e atualidade ao tema. Trata-se de um setor altamente inovador, mas ainda sensível, envolto em forte regulação, perceções públicas díspares, e desafios de legitimação.
A canábis medicinal está a transformar o panorama terapêutico em Portugal e no mundo. A sua eficácia no tratamento de patologias como dor crónica, epilepsia refratária, ansiedade ou efeitos secundários da quimioterapia é cada vez mais reconhecida. No entanto, para as empresas que operam neste setor, o desafio vai além da inovação terapêutica — é preciso inovar para proteger a boa evolução deste setor.
Num ambiente marcado por forte regulamentação, escrutínio mediático e estigma social ainda presente, a segurança passa a ser uma estratégia de proteção jurídica, reputacional e operacional. E nesse cenário, a inovação assume um papel vital.
Um Setor em Construção: Muito Para Provar, Muito a Perder
Ao contrário de setores farmacêuticos mais estabelecidos, as empresas de canábis medicinal ainda operam num território em construção — legal, técnico e social. Isso significa que qualquer falha de segurança, por menor que seja, pode comprometer não só a empresa, mas toda a credibilidade do setor.
Segurança desde a Semente: Rastreabilidade e Qualidade
A rastreabilidade do produto — desde a genética da planta até ao consumidor final — é um dos principais pilares da confiança neste setor. Aqui, a inovação em sistemas de rastreio pode fazer a diferença entre uma empresa confiável e uma empresa em risco.
Implementar tecnologia de rastreabilidade robusta garante não só o cumprimento das exigências do INFARMED e da legislação europeia, como também protege a marca contra contaminações, desvios, falsificações e incoerências nos processos de cultivo e produção.
Segurança Sistémica: A Nova Fronteira da Proteção
As empresas de canábis medicinal lidam com dados sensíveis — clínicos, genéticos, financeiros. Por outro lado, têm de produzir dados científicos para comprovar a evidência real da eficácia dos seus produtos.
Sem uma Política de Segurança Sistémica, que considera os impactos cruzados entre tecnologia, processos e pessoas, o risco de existirem perdas é elevado. O perímetro de proteção pode ser comprometido a partir do acesso à propriedade, informação ou pessoas.
Neste campo, a inovação não é opcional, e há que usar alguns instrumentos:
• plataformas seguras de última geração,
• classificação e encriptação da informação,
• novos algoritmos para deteção de anomalias físicas e ambientais,
• enquadramento rigoroso com regulamentação e as melhores práticas –
o RGPD (Regulamento Geral de Proteção de Dados),
o NIS/SRI 2 (Segurança das Redes e da Informação)
o ISO27001+27002 (inclui de acesso físico, vigilância, segurança física e ambiental)
Do lado da segurança física, muito baseada em serviços de segurança privada e sistemas eletrónicos de segurança, o desafio é o mesmo ou maior, dado que as tecnologias e as normas aqui têm um tempo de evolução diferente, mas por outro lado é um setor já bem regulamentado e habituado a trabalhar com procedimentos rigorosos:
• Israel
o IMS-GSP: Boas práticas de segurança para a indústria da canábis
• (EUA)
o ASIS CAN-2024: normas de segurança para a indústria da canábis
• Canadá (com participação portuguesa)
o ISO IWA 37-1: Safety na indústria da canábis
o ISO IWA 37-2: Security na indústria da canábis
O próprio contexto geopolítico atual é um grande desafio para as empresas e seus investidores. Os desafios securitários aumentam com a incerteza que existe sobre as dinâmicas da economia mundial, pois é um setor com uma considerável variedade de países envolvidos, desde a construção de uma fábrica à colocação de produto final no mercado. O transporte de mercadoria ainda precisa de inovar quanto ao enquadramento entre segurança privada e segurança pública, tendo em consideração que normalmente implicam trajetos internacionais, nomeadamente terrestres e aéreos.
Ética: Um pilar fundamental em qualquer actividade
A convergência do que é a prática no setor agrícola com a prática do setor farmacêutico só por si já provoca uma transformação grande na dinâmica de uma empresa, comparativamente a olhar para essas duas áreas em empresas distintas.
Sendo produtos de origem vegetal com perfis farmacológicos complexos, os derivados de canábis requerem sistemas de farmacovigilância adaptados, dinâmicos e transparentes.
A recolha e análise contínua de dados sobre efeitos benéficos e adversos é crucial, em primeiro lugar para proteger os utentes, mas também para proteger a empresa.
Junta-se a isto a importância da comunicação ética e responsável, sobretudo num setor onde as fronteiras entre terapêutico e recreativo ainda levantam dúvidas.
Afinal, onde está a linha que separa tomar algo para me sentir melhor ser terapêutico ou recreativo?Posso beber um copo de vinho tinto a uma refeição, porque gosto e porque faz bem ao coração, sabendo que o aumento da quantidade e proporcional ao mau estar vai causar, tanto em termos recreativos como terapêuticos.
A clareza na informação técnica incluída no marketing, a formação de profissionais de saúde e o envolvimento dos doentes são medidas que contribuem para a reputação da empresa e reduzem riscos de interpretações e usos abusivos.
Preparar o Presente com Olhos no Futuro
A canábis medicinal é um dos setores mais promissores da saúde, mas também um dos mais frágeis em termos de perceção pública e regulação. Alinhar, inovar e transformar este mercado é fundamental, desde a legislação que permite que ele exista, à sua chegada à farmácia com a comparticipação do Estado no custo para o utente.
As empresas que investirem em tecnologia, em processos auditáveis, em cultura de rigor e em diálogo com as autoridades e a sociedade civil estarão mais bem preparadas para o futuro e mais protegidas no presente. Num setor tão jovem, exposto e politicamente sensível como o da canábis medicinal, a segurança deve ser encarada não como uma obrigação regulatória, mas como uma estratégia de sustentabilidade e diferenciação, colocando no centro dessa estratégia toda a temática da Segurança.









