Gostaria de agradecer a todos os mais de 40.000 profissionais deste setor que ajudam, todos os dias, a zelar pela segurança de pessoas e bens na nossa sociedade. O seu papel é fulcral, enquanto complementar do das forças e corpos de segurança do estado, para construirmos uma sociedade mais segura, mais próspera e, por isso, mais sustentável.
Vivemos num tempo em que a transformação acontece a um ritmo acelerado e, por isso, o nosso setor e os nossos profissionais temos de conseguir acompanhar essas mudanças. A transformação tecnológica acontece já desde há algum tempo, mas a sua velocidade tem sido acelerada a cada ano que passa.
Conceitos como inteligência artificial, machine learning e análise preditiva entraram no nosso vocabulário diário, muitas vezes acompanhados de receios de que a tecnologia viesse a substituir o trabalho humano. No setor da segurança, essa ideia chegou a ganhar força, mas não resiste à realidade: a tecnologia não elimina o papel do vigilante, antes o reforça. O modelo que se tem consolidado é o da segurança híbrida, onde sistemas inteligentes e profissionais trabalham em conjunto, cada um trazendo o que tem de melhor.
É inegável que a tecnologia trouxe ganhos notáveis. Hoje dispomos de videovigilância inteligente, soluções biométricas de controlo de acessos, sistemas de deteção antecipada de ameaças e plataformas que analisam padrões para prever riscos. Estes recursos, quando bem aplicados, aumentam a eficiência e permitem respostas mais rápidas e eficazes. Mas de nada serve a sofisticação tecnológica se não houver pessoas preparadas para interpretar informação, tomar decisões e agir com discernimento. Um sistema é apenas tão forte quanto a preparação de quem o opera.
Aqui entra a evolução do papel do vigilante. O profissional de hoje já não pode ser visto apenas como presença dissuasora. É um agente qualificado, que precisa de competências técnicas e humanas diversificadas: literacia digital, noções de cibersegurança, conhecimento do RGPD, ética no uso de dados, comunicação eficaz, capacidade de trabalhar em equipa e gestão de stress em contextos de elevada pressão. Sem esta combinação de habilidades, o setor arrisca-se a não acompanhar a complexidade dos novos desafios.
É por isso que defendo que a formação contínua não é apenas desejável, mas absolutamente essencial para o futuro da segurança privada. Não se trata de uma opção ou de um benefício adicional: é um requisito básico. Sem formação constante, corre-se o risco de entregar tecnologia de ponta a profissionais sem preparação suficiente, o que compromete a eficácia das operações e fragiliza o próprio setor. Não investir em formação é condenar a segurança a viver no improviso.
Quando existe um compromisso real com a atualização permanente, os resultados são claros: menos incidentes, tempos de resposta mais curtos, redução de falsos alarmes, maior satisfação dos clientes e menor rotatividade dos profissionais. Estes ganhos não beneficiam apenas empresas ou organizações, mas a sociedade como um todo, que passa a estar mais bem protegida.
Há, no entanto, outro ponto crucial: a formação contínua também é um instrumento de transformação social. O setor da segurança privada enfrenta o desafio da renovação geracional e da atração de mais mulheres para um contexto historicamente masculinizado. Neste aspeto, a formação pode ser decisiva. Criar percursos de progressão claros, oferecer bolsas de certificação, garantir processos de avaliação transparentes e disponibilizar horários compatíveis com estudo são formas concretas de abrir portas, derrubar barreiras e atrair novos perfis.
A diversidade de género e de gerações não deve ser encarada como tendência, mas como uma necessidade estratégica. O setor precisa de profissionais com diferentes perspetivas, experiências e competências para responder de forma eficaz a problemas cada vez mais complexos. Se queremos vigilantes preparados para os desafios atuais e futuros, precisamos de investir em diversidade e qualificação em simultâneo.
O futuro da segurança privada não se esgota na adoção de novas tecnologias. Passa, sobretudo, por conseguir atrair jovens talentos e incorporar mais mulheres num ambiente que ainda carrega estereótipos. E isto só será possível se existir uma aposta séria em formação e desenvolvimento profissional contínuo. A segurança do amanhã vai exigir vigilantes mais bem preparados, com maior consciência ética, mais literacia digital e capacidade de adaptação constante.
Cabe, por isso, às empresas, às entidades reguladoras e às administrações públicas colocar a formação contínua no topo das suas prioridades. O setor não pode ficar refém de modelos ultrapassados de treino ou de processos desajustados à realidade atual. É urgente acelerar a adaptação a modelos mais ágeis, interligados e orientados para a prevenção.
A tecnologia sem formação é apenas potencial por cumprir. Com formação contínua, os vigilantes tornam-se mais preparados, a segurança híbrida ganha eficácia e todos saímos a ganhar: profissionais mais valorizados, organizações mais protegidas e uma sociedade mais segura.
Formação não é custo, é investimento. E, no caso da segurança privada, é o investimento que separa um setor estagnado de um setor capaz de antecipar riscos e responder com inteligência aos desafios de um mundo em constante mudança.
Por Gonçalo Morgado, Diretor-geral da Prosegur Security









