A Airbus vai transferir parte das suas aplicações mais críticas da Amazon Web Services (AWS) para a infraestrutura de cloud da empresa francesa Scaleway, numa decisão que reforça a estratégia de soberania digital da fabricante aeronáutica e procura proteger dados sensíveis da aplicação de legislação extraterritorial norte-americana.
A mudança abrange as aplicações consideradas essenciais para garantir a continuidade das operações da empresa, o chamado conceito de “minimum viable company”. No total, este universo engloba cerca de 900 aplicações, sendo que, nesta primeira fase, 70 aplicações actualmente alojadas na AWS serão migradas para a plataforma da Scaleway.
Entre os sistemas que irão transitar encontram-se aplicações de ERP, gestão da produção, CRM e gestão do ciclo de vida dos produtos, suportando áreas críticas como o desenvolvimento de aeronaves, engenharia, fabrico e operações empresariais.
Protecção de dados críticos
Segundo Catherine Jestin, Chief Digital Officer da Airbus, a decisão pretende garantir que os activos de dados mais sensíveis permanecem protegidos de legislação estrangeira.
“Esta configuração permite manter os nossos activos críticos de dados protegidos de leis extraterritoriais estrangeiras”, afirmou a responsável.
A Scaleway, empresa pertencente ao grupo francês iliad, venceu um concurso internacional avaliado em mais de 50 milhões de euros, com um contracto que poderá estender-se por um período máximo de dez anos.
De acordo com a Airbus, a selecção do fornecedor teve por base três critérios principais: capacidade técnica, resiliência operacional e garantias jurídicas relativamente à protecção dos dados contra legislação não europeia. A empresa refere ainda que a proposta da Scaleway apresentou um desempenho técnico competitivo, mantendo um custo comparável ao dos grandes fornecedores internacionais de cloud.
CLOUD Act continua a preocupar empresas europeias
Um dos factores que motivou esta decisão é o CLOUD Act, legislação norte-americana que permite às autoridades dos Estados Unidos solicitar acesso a dados armazenados por empresas norte-americanas, mesmo quando esses dados se encontram alojados em centros de dados localizados fora do território dos EUA.
O debate em torno da soberania digital intensificou-se nos últimos anos, levando diversos fornecedores internacionais, como AWS, Microsoft e Google, a desenvolver ofertas específicas de “cloud soberana” para responder às preocupações de governos e grandes organizações europeias.
Estratégia híbrida
Apesar da migração, a Airbus esclarece que não pretende abandonar os fornecedores tecnológicos norte-americanos.
A empresa continuará a utilizar a AWS para suportar a plataforma Skywise, dedicada à análise de dados da aviação, bem como uma ferramenta de apoio ao cliente. Permanecerão igualmente em utilização soluções da Microsoft, Google, Salesforce, Coupa e Workday.
“Não pretendemos afastar-nos de todas as soluções não europeias; equilibramos as nossas escolhas em função da criticidade dos dados”, explicou Catherine Jestin.
Para a Scaleway, o contrato representa uma das mais importantes conquistas no mercado europeu de cloud soberana e reforça a crescente aposta das organizações europeias em infraestruturas digitais desenvolvidas e geridas na Europa, reduzindo a dependência de fornecedores estrangeiros para os seus sistemas mais críticos.









