• Início
  • Notícias
  • Espanha desmantela rede de contrabando no Mediterrâneo Ocidental e detém 78 suspeitos
Notícias

Espanha desmantela rede de contrabando no Mediterrâneo Ocidental e detém 78 suspeitos

340

Organização criminosa funcionava como uma verdadeira empresa de logística, assegurando o transporte marítimo de droga, armas e migrantes entre a Europa e a Argélia

Uma das principais redes criminosas envolvidas no tráfico de droga, armas e migrantes no Mediterrâneo Ocidental foi desmantelada numa operação liderada pelas autoridades espanholas, com o apoio da Europol. A operação resultou na detenção de 78 suspeitos em Espanha e na Argélia, incluindo três alvos considerados de elevado valor.

A investigação revelou uma organização com uma estrutura profissionalizada, que funcionava como um verdadeiro prestador de serviços logísticos para diferentes grupos criminosos, assegurando armazenamento, transporte, abastecimento de combustível, transferências marítimas, manutenção de embarcações e contra-vigilância.

A operação contou com a participação da Polícia Nacional francesa, da Polícia Nacional espanhola e da Guardia Civil, bem como com o apoio da Polícia Judiciária portuguesa e da Guarda de Fronteiras polaca.

Rede controlava frota de embarcações de alta velocidade

Durante a operação foram realizadas 17 buscas em Alicante, Almería, Cartagena e Múrcia. As autoridades apreenderam 18 embarcações de alta velocidade, avaliadas em mais de cinco milhões de euros.

Entre as embarcações encontravam-se barcos com cerca de 14 metros de comprimento equipados com três ou quatro motores, incluindo as chamadas “ghost speedboats”, embarcações de elevada potência utilizadas por organizações criminosas para transportar mercadorias ilícitas e concebidas para dificultar a sua identificação e detecção.

A rede utilizava estas embarcações para realizar entregas e transferências no mar, em águas internacionais próximas da costa espanhola. Desta forma, conseguia separar as operações marítimas das actividades realizadas em terra, dificultando a intervenção das autoridades.

Foram ainda apreendidos um revólver de calibre .38, uma arma simulada, munições, mais de 25 mil euros em dinheiro, bens relacionados com branqueamento de capitais e registos associados ao sistema financeiro informal hawala.

No âmbito da operação foram igualmente apreendidas 15 mil pastilhas de MDMA, correspondentes a cerca de sete quilogramas, 61 quilogramas de haxixe e 500 gramas de cocaína.

As autoridades encontraram ainda telefones por satélite, dispositivos GPS, ferramentas de comunicação encriptada e antenas parabólicas.

Drogas e armas numa direção, migrantes na outra

A investigação revelou que a organização tinha desenvolvido um modelo de negócio baseado em fluxos criminosos nos dois sentidos do Mediterrâneo.

Nas rotas de Espanha e Portugal para a Argélia eram transportadas sobretudo drogas sintéticas, como MDMA, armas e explosivos. No sentido inverso, da Argélia para Espanha, a organização dedicava-se ao transporte de migrantes e de outros produtos ilícitos.

Segundo a Europol, os traficantes cobravam até 12 mil euros por pessoa, podendo transportar mais de 50 migrantes numa única viagem. Os lucros provenientes exclusivamente do tráfico de migrantes são estimados em mais de 24 milhões de euros.

A rede prestava ainda serviços a outras organizações criminosas, facilitando a movimentação de pessoas e mercadorias ilícitas entre a Europa e a Argélia.

Ligações a vários países europeus

Os suspeitos, na sua maioria de origem argelina, mantinham ligações com grupos criminosos em França, Bélgica, Portugal, Itália e Polónia.

A investigação identificou ainda ligações a organizações criminosas de maior dimensão, incluindo a denominada Mocro Mafia e o Marseille Milieu.

A estrutura apresentava uma hierarquia estável e estava dividida em diferentes subestruturas, permitindo à organização continuar a operar mesmo quando alguns dos seus elementos eram detidos.

As bases operacionais estavam distribuídas por várias regiões de Espanha, incluindo Almería, Múrcia, Cartagena, Alicante e Ibiza, mas também por Marselha, França, Bélgica, Portugal, Itália e Polónia. A liderança encontrava-se sobretudo em França e na Bélgica.

Dentro da organização existiam funções distintas, desde pilotos das embarcações e responsáveis logísticos a fornecedores de combustível, elementos de segurança, recrutadores e operadores financeiros.

Violência e condições desumanas para os migrantes

A organização recorria a violência extrema para manter o controlo sobre os seus membros e sobre os migrantes. A investigação aponta para a utilização de armas de fogo, ameaças e alegados homicídios por encomenda.

Os elementos da rede também utilizavam manobras evasivas a alta velocidade e resistência armada durante operações policiais, tendo sido identificadas ameaças dirigidas às forças de segurança.

Os migrantes eram frequentemente transportados em embarcações sobrelotadas, sem iluminação e sem coletes salva-vidas, muitas vezes em condições meteorológicas adversas.

Os investigadores identificaram ainda alegações de agressões físicas e sexuais, bem como a colocação de migrantes em condições consideradas desumanas em alojamentos improvisados.

Europol mobilizou equipas especializadas

A Europol apoiou a investigação através da partilha de informação, coordenação operacional e análise de dados relacionados com o tráfico de migrantes e o branqueamento de capitais.

Durante o dia de ação, realizado a 16 de junho de 2026, dois especialistas do Centro Europeu contra o Contrabando de Migrantes da Europol e um especialista do Centro Europeu de Cibercrime foram destacados para Espanha.

As equipas realizaram verificações em tempo real dos dados operacionais através das bases de dados da Europol, prestaram apoio técnico e forense e contribuíram para identificar novas linhas de investigação.

A operação decorreu no âmbito de uma nova Taskforce da Europol, criada no contexto do Centro Europeu contra o Contrabando de Migrantes (ECAMS).

Novo centro europeu reforça combate ao tráfico de migrantes

O tráfico de migrantes continua a ser considerado uma das principais ameaças criminais para a União Europeia, envolvendo uma cadeia que pode incluir recrutamento, transporte, documentos fraudulentos e movimentação de fundos.

O reforço da resposta europeia ganhou uma nova dimensão com a criação, em março de 2026, do European Centre Against Migrant Smuggling (ECAMS), na sequência da adoção do Regulamento (UE) 2025/2611, em dezembro de 2025.

O novo centro pretende reforçar a troca sistemática de informação e a coordenação entre os diferentes países e entidades envolvidas, incluindo através do recurso a OSINT, investigação financeira e cooperação operacional.

A operação agora divulgada demonstra, segundo a Europol, a importância desta abordagem coordenada para atingir não apenas os responsáveis pelo transporte de migrantes, mas toda a estrutura logística, financeira e operacional que sustenta as redes criminosas transnacionais.

Notícias relacionadas