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Segurança e Saúde no Trabalho na Era da Digitalização

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Por António Costa Tavares


Vivemos na era da transformação digital que está a reformatar e reformular o mundo laboral tal como o conhecemos durante décadas num novo paradigma ocupacional. Este é caracterizado por ritmos de trabalho mais acelerados, processos em mudança permanente, quer no campo estrutural, social e pessoal, quer no campo profissional, com consequências positivas e negativas.
Tecnologias como inteligência artificial, internet das coisas, Big Data e realidade aumentada, têm vindo a ser progressivamente incorporadas nos ambientes de trabalho com o objetivo de aumentar a produtividade e a eficiência laboral. No entanto, esta impactante revolução tecnológica, também impõe novos desafios e oportunidades para a área da Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho (SHST). Neste contexto, é essencial refletir sobre como a digitalização impacta o bem-estar físico, social, emocional e mental dos trabalhadores, e como as organizações podem adaptar-se para garantir ambientes de trabalho mais seguros, saudáveis e felizes, não obstante a felicidade ser um estado transitório e subjetivo corelacionado com outras variáveis do indivíduo.

As transformações Tecnológicas e seus Impactos na SST
A nova era digital trouxe novas ferramentas para aprimorar a gestão da SHST. Sensores inteligentes, câmaras e dispositivos vestíveis (figura nº 1), como relógios inteligentes e capacetes com sensores biométricos, que permitem a monitorização em tempo real das condições ambientais e sinais vitais dos trabalhadores. Robots que que retiram trabalhadores de zonas perigosas e em situações de perigosidade extrema, ou que executam tarefas perigosas onde anteriormente o homem estava exposto a um perigo grave ou eminente. Com isso, é possível identificar riscos de forma imediata e implementar ações preventivas antes que ocorram acidentes ou doenças ocupacionais.
Além disso, tecnologias como a realidade virtual têm sido utilizadas para ações de formação na área da segurança mais eficazes, simulando situações de risco real em ambientes controlados.
A inteligência artificial também contribui para que a SHST realize análises preditivas baseadas em dados históricos, antecipando comportamentos de risco (monitorização em tempo real: identificação imediata de riscos e comportamentos inseguros) e promovendo intervenções mais assertivas com o objetivo de reduzir comportamentos inseguros, incidentes e acidentes de trabalho, automatizando conforme a figura nº2, algumas tarefas que são consideradas perigosas ou desconfortáveis para os trabalhadores.

Figura nº 1
EPI’s inteligentes (sensores vestíveis)

Figura nº2
Tarefas em ambientes laborais perigosos para os trabalhadores

Novos Riscos na Era Digital
Porém, podemos referir que nem tudo é positivo. Claramente a digitalização acarreta o surgimento de novos riscos para a SHST.
O trabalho remoto, intensificado com o uso de tecnologias digitais, pode levar ao isolamento social, aumento da carga cognitiva e fisiológica (sedentarismo -> alterações músculo-esqueléticas), jornadas prolongadas exercendo uma pressão mental e fisiológica nos trabalhadores e dificuldades na conciliação entre vida pessoal, familiar e profissional. Esses fatores elevam os riscos psicossociais e comprometem, muitas vezes, a saúde mental dos trabalhadores, como o surgimento de estados de stress, ansiedade, desregulação emocional, alterações fisiológicas (imunodepressão), assédio, pressão cognitiva e burnout. Um estado mais vulnerável do campo da saúde psicológica poderá contribuir para um aumento da probabilidade de acidentes e doenças relacionadas com o trabalho. (figura nº3)

Alguns riscos psicossociais associados ao uso e abuso de plataformas digitais

Além disso, o uso constante de plataformas digitais e o monitoramento intensivo podem gerar sentimentos de vigilância constante, afetando a autonomia e o bem-estar dos trabalhadores, além de colidirem com possíveis conflitos éticos. Questões relacionadas à privacidade de dados também ganham relevância, exigindo políticas de proteção de informações sensíveis dos trabalhadores. A dependência tecnológica contribui para comprometer a segurança e a produtividade, pois quando se regista um “apagão energético” surge uma sensação de que o “mundo para” e ainda poucos estão preparados para enfrentarem com resiliência esse tipo de constrangimentos.

Mudanças na Legislação e Políticas de SHST
Urge que o legislador se debruce sobre estas novas matérias da digitalização na atividade laboral, nomeadamente que sejam contemplados legislativamente:
• Novos tipos de riscos digitais, avaliação e controlo em matéria de SHST;
• Protocolos para trabalho remoto (trabalho híbrido e teletrabalho);
• Regulamentação do uso de IA e dados sensíveis;
• Gestão do tempo de trabalho em plataformas digitais;
• Ética e confidencialidade no exercício das plataformas digitais
É fundamental que as organizações do setor público e produtivo, sindicatos, órgãos reguladores e estruturas representativas dos trabalhadores atuem de forma colaborativa na construção de políticas que assegurem o uso responsável da tecnologia, sem comprometer os direitos, liberdades e garantias dos trabalhadores, mas, acima de tudo, a dignidade humana.

Boas Práticas e Estratégias Preventivas
Para enfrentar os desafios e aproveitar os benefícios da era da digitalização no que diz respeito à SHST, poderão no nosso entender serem adotadas as seguintes boas práticas:
• Educação digital, formação e sensibilização sobre uso seguro de tecnologias da informação e comunicação;
• Introdução progressiva da ergonomia neste tipo de atividade, nomeadamente na ergonomia do software (mais amigável, mais intuitiva, mais integradora) e hardware (mais confortável);
• Avaliações psicossociais regulares, especialmente em regimes de trabalho remoto onde existe um desiderato comunicacional e vivencial entre o trabalhador e o ambiente laboral;
• O uso de novas tecnologias com foco na segurança, nomeadamente com a Implementação de políticas claras de privacidade e uso ético de dados;
• Uma gestão integrada entre áreas de SHST, as tecnologias da informação e comunicação, as plataformas digitais e a gestão de Recursos Humanos.

As atividades na era das plataformas digitais e afins está redefinindo a segurança, higiene e a saúde no trabalho. Para garantir ambientes mais seguros e saudáveis, é essencial adotar uma abordagem estratégica que equilibre inovação tecnológica com responsabilidade ética, legal e humana.
Mas também, a digitalização do trabalho representa uma oportunidade única para modernizar e tornar mais eficiente a gestão da segurança, higiene e saúde ocupacional.
Contudo, também releva a nós, profissionais desta área da SHST, gestores de recursos humanos e órgãos decisores, a necessidade de serem adotadas várias estratégias que visem a promoção de uma visão crítica e humanizada sobre os novos riscos emergentes.
O futuro da SHST na era digital dependerá da capacidade das organizações de equilibrar inovação tecnológica com práticas responsáveis, assegurando que o progresso seja acompanhado de proteção à integridade física e mental dos trabalhadores.
Com planeamento, ética e colaboração, é possível construir ambientes de trabalho mais inteligentes, e simultaneamente mais seguros, mais saudáveis mais sustentáveis, e porque não… mais felizes!
O futuro está claramente nas nossas mãos.

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