De Mafra para o mundo. Fundada em 1982, a portuguesa Feerica tornou-se uma referência global no sector da segurança para o transporte e protecção de valores, nomeadamente o dinheiro dos ATM. Com raízes na segurança bancária e uma forte aposta no desenvolvimento tecnológico, a empresa portuguesa evoluiu para se tornar num importante player mundial em sistemas de tintagem para ATMs e malas de transporte. Com uma exportação para mais de 50 países, a Feerica destaca a sua inovação e constante adaptação a um mercado em constante mutação. A Security Magazine falou com Rui Pereira, Chief Technology Officer, sobre os principais marcos, desafios da internacionalização, investimentos em curso e visão sobre o futuro do dinheiro físico e da segurança.
Security Magazine – Qual é o core business da Feerica e que principais marcos destacaria?
Rui Pereira – A Feerica foi fundada em 1982, com foco desde o início na segurança bancária. Desde então, actua no mercado nacional, fornecendo ao sector bancário uma ampla variedade de soluções, bem como assistência técnica especializada. Desde cedo, procuramos desenvolver uma linha de produtos própria, contando com um departamento de desenvolvimento interno, o que nos permitiu criar soluções sob medida para as necessidades da banca nacional. Embora a Feerica seja pouco conhecida pelo público em geral, a grande maioria dos portugueses já utilizou produtos nossos: cerca de 80% das agências bancárias em Portugal contam com portas e sistemas de controlo de acesso da nossa marca, e temos uma presença ampla e diversificada em todo o país.
Historicamente, a Feerica concentrou-se na produção de soluções para o sector bancário. Em 2006, introduziu em Portugal os sistemas de tintagem para caixas multibanco. Até à época do escudo, os ataques a ATMs eram praticamente inexistentes no país. No entanto, com a introdução do euro, a ausência de fronteiras na zona Schengen e a uniformidade da moeda em vários países, os ataques tornaram-se mais frequentes, exigindo novas soluções de segurança. Foi então que identificámos e introduzimos a tecnologia de tintagem em Portugal, inicialmente em parceria com um fabricante externo.
Em 2010, decidimos desenvolver a nossa própria tecnologia de tintagem, aproveitando a grande experiência acumulada na manutenção e operação destes sistemas. A decisão foi motivada pelo facto de o parceiro externo não partilhar da nossa visão de melhoria e evolução do produto. Assim, passámos a desenvolver internamente a nossa tecnologia, que lançámos no mercado nacional. Posteriormente, começámos a explorar oportunidades de exportação da tecnologia, iniciando pelo mercado francês. Hoje, as nossas soluções estão presentes em mais de 50 países, espalhados por vários continentes a Feerica é líder mundial neste segmento.
Ao longo dos anos, temos investido continuamente no desenvolvimento e na melhoria das nossas tecnologias, bem como na capacidade e industrialização inhouse do produto, no controlo de qualidade, na fiabilidade e na gestão de toda a cadeia de valor.
Tudo começou aqui em Mafra?
Sim, é em Mafra que temos a nossa sede, departamento de desenvolvimento e fábrica. Temos também delegações no Norte e Algarve para assistência técnica e suporte à operação nacional. Embora o mercado nacional continue a ser importante para a nossa actividade e a ser estratégico, o sucesso desta tecnologia de tintagem fez com que o core business da Feerica tenha passado para o fabrico e exportação destes sistemas.
Como correu o processo de internacionalização?
A Feerica procurou, ao longo da sua história, expandir-se internacionalmente através dos produtos que desenvolvia para o mercado nacional. Desde o ano 2000 realizámos várias tentativas de internacionalização, mas enfrentámos diversos desafios. Portugal, apesar de ser um país fantástico, apresenta algumas limitações para empresas que ambicionam crescer globalmente e internacionalizar-se: a localização geográfica na extremidade da Europa e a dimensão reduzida do mercado interno não são favoráveis e tornam o processo mais complexo. Além disso, internacionalizar exige elevados investimentos, e uma empresa que cresce num mercado pequeno naturalmente enfrenta restrições nesse sentido.
Mesmo assim, nunca deixámos de tentar, mas infelizmente não fomos bem-sucedidos em algumas delas. Conseguimos estabelecer uma operação de grande relevância em Angola, que evoluiu com sucesso até ser afectada pela instabilidade do mercado provocada pela evolução do preço do petróleo. Entre todas as iniciativas, a tecnologia de tintagem foi a que alcançou maior sucesso, tornando-se o motor do nosso crescimento internacional.
Actualmente, fabricamos todos os nossos produtos em Portugal, mas contamos com uma equipa de desenvolvimento de negócio na Holanda e delegações na África do Sul e em outros países de menor dimensão. O nosso objectivo não é replicar o modelo português, mas sim concentrarmo-nos no desenvolvimento, fabrico e exportação dos nossos produtos, contando com uma rede de parceiros em todo o mundo para a comercialização e suporte técnico.
Actualmente, exportam para quantos países?
Exportamos para 50 países. Nem todos tem operações de grande dimensão. Algumas operações são menores e outras estão em fase de teste piloto. Os nossos principais mercados e os que têm maior peso na operação são Portugal, França, Holanda e Alemanha. São os que tem maior peso na operação.
A banca é o vosso principal cliente?
Temos dois tipos de clientes finais principais – as instituições financeiras, que normalmente operam os ATM, e as empresas de transporte de valores. Trabalhamos com vários parceiros e canais de venda — por exemplo, os fabricantes de máquinas multibanco são nossos parceiros estratégicos. A venda da solução ao cliente final é feita através destes parceiros, que já possuem o conhecimento e know-how técnico necessário para suportar o produto, algo que para nós é uma preocupação central.
Para nós, não se trata apenas de vender o produto, mas de garantir que funciona com a performance esperada. Um dos motivos do nosso sucesso é a nossa reputação muito sólida, sendo reconhecidos por oferecer soluções técnicas fiáveis e um suporte técnico de excelência. Estruturamos a nossa operação de forma a proteger essa reputação e garantir que o cliente terá sempre o suporte necessário.
Há pouco falou sobre portas e sistemas de controlo. Além dos sistemas de tintagem também desenvolvem outro tipo de produtos?
Sim. Desenvolvemos e fabricamos um conjunto vasto de outros produtos especialmente desenvolvidos para o mercado nacional, tais como sistemas de controlo de acessos, sistemas de guarda e transferência de valores e outras soluções à medida dos nossos clientes. Para todos eles, desenvolvemos internamente todos os componentes dos nossos produtos — electrónica, software e mecânica — sejam eles sistemas de tintagem ou outros equipamentos. O desenvolvimento é feito de A a Z. Após esta fase, os componentes são fabricados (alguns internamente e outros em regime de outsourcing), e realizamos a assemblagem aqui.
Também comercializam outros produtos e soluções?
Sim, para além dos produtos e soluções de fabrico próprio, também representamos no mercado nacional diversas soluções de outros fabricantes, como por exemplo, equipamento de contagem de numerário, controlo de acessos diversos e chaveiros electrónicos, entre outros. O que nos distingue é a nossa capacidade de integração das diversas tecnologias para que se adeqúem ás necessidades funcionais dos nossos clientes.
Para o retalho também desenvolvem soluções?
Sim, apesar de não ter a mesma expressão na actvidade da empresa que outras áreas, por exemplo o sector bancário, também desenvolvemos soluções para o sector do retalho. Por exemplo, implementámos um projecto para uma rede de postos de abastecimento de uma grande cadeia retalhista, onde fornecemos uma solução “chave na mão”.
São áreas que requerem equipamentos para guarda de valores, portas e vidros à prova de balas, controlo de acessos, entre outros. Desenvolvemos o conceito e toda a solução de forma integrada, com um elevado nível de monitorização. Os nossos equipamentos emitem relatórios completos e contínuos — é precisamente neste tipo de solução integrada e “chave na mão” que nos especializamos.
Indo ao encontro do tema da inovação e desenvolvimento, que investimentos têm vindo a fazer nesse âmbito?
Actualmente, contamos com cerca de 30 engenheiros dedicados ao desenvolvimento de produto, distribuídos por áreas distintas — mecânica, electrónica e IT. A maioria dos nossos produtos é operada remotamente e tem conectividade online, incluindo sistemas de tintagem e malas de transporte de valores.
Essa conectividade permite monitorização em tempo real, recepção de alertas imediatos em caso de situações anómalas, bem como a actualização remota de software e parâmetros operacionais do produto. Esta capacidade é crucial no sector em que actuamos — o combate à criminalidade —, uma área em constante evolução.
Sempre que surgem novas ameaças, a indústria responde com soluções específicas. No entanto, os criminosos adaptam rapidamente os seus métodos, o que exige da nossa parte uma resposta tecnológica igualmente ágil. Por exemplo, os ataques a caixas multibanco têm evoluído significativamente em termos de modus operandi em resposta às medidas de protecção implementadas.
A grande vantagem dos sistemas de tintagem reside na sua capacidade de inutilizar o dinheiro em caso de tentativa de roubo. Quando o sistema é suficientemente rápido e eficaz, a tentativa de ataque perde o seu propósito.
Estes sistemas têm evoluído para lidar com os mais diversos tipos de ataque. Recentemente, têm surgido novas técnicas baseadas em dupla explosão, em que a primeira serve para criar acessos ao cofre e danificar sistemas de protecção, e a segunda para tentar alcançar o dinheiro. Os nossos equipamentos já estão preparados para responder a este tipo de modus operandi.
Além disso, se surgirem novas ameaças no futuro, temos a capacidade e flexibilidade de ajustar os sistemas remotamente, de forma quase imediata. Hoje, temos mais de 300.000 contentores protegidos em operação em todo o mundo, incluindo cassetes, malas e outros dispositivos. Se for necessário adaptar a tecnologia a uma nova técnica de ataque, conseguimos fazê-lo rapidamente e sem intervenção presencial no equipamento, ou seja, é tudo feito online.
Essa realidade levanta questões de cibersegurança?
Sim, temos um processo muito controlado para realizar substituições de software.
Todas as nossas plataformas são desenvolvidas internamente pelas nossas equipas de IT. Gerimos directamente os nossos servidores e utilizamos linhas de comunicação seguras entre os equipamentos e os servidores. Esta é uma área crítica para nós, especialmente porque existem regulamentos muito rigorosos — como o DORA — que exigem um elevado nível de protecções e capacidade de resposta para estas situações.
Falar de IA é hoje incontornável. Têm introduzido IA nos vossos produtos?
Sim, mas não da forma que a maioria das pessoas imagina. A capacidade de processamento de alguns dos nossos produtos não permite correr aplicações complexas de IA directamente neles. No entanto, estamos a explorar esta área para processar a enorme quantidade de dados que recolhemos nas nossas bases de dados.
Grande parte dos nossos produtos está online e a reportar dados ao nosso servidor, criando assim uma base de dados muito relevante sobre a sua performance. Estamos a desenvolver ferramentas de IA com o objectivo de realizar diagnósticos preventivos com base nessas informações. Estas ferramentas serão capazes de detectar padrões anómalos no comportamento dos produtos, permitindo-nos antecipar problemas, alertar para potenciais falhas e agir atempadamente antes que ocorram incidentes.
A IA é particularmente eficaz em analisar grandes volumes de dados brutos e identificar padrões que seriam impossíveis de detectar apenas com análise humana. É precisamente essa capacidade de processamento e detecção de desvios que queremos aproveitar.
Numa segunda fase, pretendemos aplicar IA ao diagnóstico. Sempre que ocorre um incidente, é necessário que um engenheiro analise os logs para compreender a sequência de eventos que o originou e, com base nisso, produza um relatório para o cliente. É um processo repetitivo, embora exija experiência técnica. O nosso objectivo é que a IA faça essa pré-análise dos logs e crie automaticamente um relatório inicial, que será posteriormente validado por um engenheiro, tornando o processo mais rápido e eficiente.
E quando será desenvolvido?
No que diz respeito à IA implementada internamente por nós, já está a ser desenvolvido e em fase de testes. No caso das ferramentas de IA aplicadas a outras áreas, como por exemplo marketing, já utilizamos. Neste momento estamos, no fundo, a desenvolver as nossas próprias ferramentas dedicadas à nossa área de negócio.
Essa tem sido a vossa aposta, ou seja, desenvolver ferramentas próprias de auxílio, nomeadamente à produção?
Sim, operamos num nicho de mercado e não é possível encontrar ferramentas específicas para a nossa actividade. Então, temos duas opções – usamos ferramentas standard que não são adequadas para a nossa actividade e com um nível de eficiência que nunca será muito bom, mesmo que se invista muito na sua personalização, ou desenvolvemos as nossas ferramentas de raiz, as quais custam muito dinheiro mas que, a longo prazo, se adequam melhor à nossa realidade. Optamos por desenvolver as nossas ferramentas. Foi o que fizemos na fábrica e o que estamos a desenvolver para as equipas de apoio.
Hoje, toda a comunicação, como por exemplo um RMA (retorno de uma mercadoria) ou um ticket de suporte técnico ou esclarecimento, é feita através de uma plataforma web própria. Se não fosse esta ferramenta, a nossa equipa de suporte técnico teria de crescer exponencialmente para acompanhar o número de produtos instalados.
Falou da diferença entre alguns mercados?
Todos os mercados são diferentes, sobretudo porque não existe uma harmonização completa em termos de regulamentos. Na área da tintagem, por exemplo, mesmo dentro da Europa — que segue as directrizes do Banco Central Europeu — não há harmonização dos requisitos e processos de homologação. O Banco de Portugal, por exemplo, tem a sua própria interpretação dessas regras e um processo de homologação específico para garantir que as soluções cumprem os requisitos.
Outros bancos centrais europeus não seguem este processo. Países como França e Bélgica criaram os seus próprios regulamentos, requisitos e certificações, e o mesmo acontece na Alemanha. Ou seja, apesar de partilharmos a mesma moeda e as mesmas regras legais de base, as exigências variam muito entre países.
Fora da Europa, as diferenças são ainda maiores: há moedas diferentes, regulamentos distintos, processos de homologação próprios, requisitos técnicos variados, diferentes tipos de tinta e características específicas dos sistemas. Trata-se de uma área de operação complexa, o que faz com que este seja um nicho de mercado com poucos fabricantes especializados.
A realidade mundial e o cenário geopolítico afectam a vossa produção? Como se adaptaram?
Do ponto de vista global, temos duas perspectivas. Por um lado, os sistemas de tintagem estão a tornar-se o padrão de protecção tanto em multibancos como em serviços de transporte de valores (CIT – Cash in Transit). Há uma forte pressão para aumentar a eficiência e reduzir custos, e os sistemas de tintagem oferecem uma protecção mais competitiva comparada com outras soluções. Em vez de instalar múltiplos sistemas para diferentes tipos de ameaças, podemos ter apenas um sistema interno na máquina, que não requer infra-estrutura externa, pode ser instalado em máquinas isoladas e protege contra diversos cenários. Isto acaba por ser mais eficiente em termos de custos de instalação e operação, o que explica a adopção crescente desta tecnologia e a regulamentação do seu uso em vários mercados.
Do ponto de vista político e económico global, enfrentamos desafios óbvios. A pandemia de Covid-19 trouxe uma grande disrupção nas cadeias de fornecimento e aumento exponencial nos custos de logística. Actualmente, o maior desafio está no contexto político global — vivemos uma guerra económica com impacto, especialmente entre EUA e China. A China tem imposto novas restrições e regras em sectores onde detém monopólio, afectando toda a indústria.
Um exemplo claro são as baterias: usamos baterias de longa duração que não exigem manutenção, e estas vêm exclusivamente da China — não há fabricantes alternativos noutros países. Assim, quando a China impõe restrições à exportação de baterias ou de componentes baseados em terras raras, toda a indústria fica vulnerável. Para mitigar este risco, temos investido em stocks estratégicos, mas a exposição continua a existir.
Relativamente a tarifas, os EUA não são ainda um mercado com grande expressão para nós. A nossa expansão para este mercado estava prevista para este ano, mas com a instabilidade política e económica, teremos de aguardar alguma estabilização. Temos já uma forte presença na América do Sul, e estamos a expandir na América do Norte através do Canadá. Apesar de os EUA não terem impacto directo sobre nós neste momento, há impactos indirectos — especialmente nos nossos parceiros, como fabricantes de ATM, que produzem em vários países e exportam globalmente, sendo afectados por tarifas e barreiras comerciais.
Como olha para a possibilidade do fim do dinheiro físico? É algo que vos preocupa?
Preocupa toda a indústria, sem dúvida. No entanto, o dinheiro físico e o digital nunca terão as mesmas características. Cada um tem vantagens e desvantagens. É verdade que assistimos a um crescimento dos pagamentos digitais, que são convenientes. Mas o dinheiro físico tem a sua função essencial e, regra geral, a sua circulação tem vindo a aumentar de ano para ano. Pode haver períodos de estabilização, mas não se verifica uma tendência de redução significativa.
Um exemplo claro é a Suécia, que chegou a assumir o objectivo de se tornar uma sociedade cashless, mas deu uma volta de 180 graus. Hoje, o país está a regular para garantir que uma percentagem dos pagamentos seja feita em dinheiro físico e que o acesso a este continue assegurado. Porquê? Porque em situações de disrupção tecnológica ou conflitos, as infra-estruturas digitais são frágeis. Se, de repente, uma infra-estrutura tecnológica falhar, a sociedade pára. Do ponto de vista estratégico, o dinheiro físico é um pilar de resiliência e de protecção da sociedade contra ameaças externas.
Há ainda outra razão muito importante – a nossa sociedade, como um todo, não está preparada para ser forçada a usar apenas pagamentos digitais, que nos expõem constantemente a tentativas de fraude. Eu sei lidar com essas situações, mas não podemos exigir que todos tenham a mesma capacidade tecnológica e literacia para realizar pagamentos ou aceder a serviços como o homebanking. Se forçarmos estas pessoas a utilizar ferramentas que não dominam, o resultado será um aumento exponencial de fraudes, para o qual a sociedade não está preparada. Apesar dos mecanismos de combate à fraude, o número de vectores possíveis de ataque cresce de forma exponencial.
O dinheiro físico é universal, seguro e garante confidencialidade. Por muito convenientes e funcional que os pagamentos electrónicos sejam, eles não substituem o dinheiro físico. Portugal, por exemplo, tem uma das melhores redes de multibancos e ATMs do mundo, com um nível de funcionalidade e operação alto e custos praticamente nulos. Temos ainda soluções como o MB Way, extremamente eficazes. Mas o dinheiro físico mantém a sua função e a sua relevância.
Portugal é um país avançado e receptivo na adopção de tecnologia, mas há outros países que estão ainda muitos anos atrás nesta transição. Não faz sentido acreditar que o dinheiro físico vai desaparecer — não vai. É verdade que a longo prazo veremos uma redução da sua utilização no dia a dia e um crescimento dos pagamentos electrónicos, mas o dinheiro vai e deve continuar a existir.
O que aconteceu na Suécia vai acontecer noutros países – cada vez mais governos estão a regular o acesso ao dinheiro físico, garantindo que este continua disponível e utilizável pela população.
Algumas autocracias podem vir a tornar-se 100% cashless, porque isso lhes dará controlo absoluto sobre a população. Muitas, já hoje têm níveis de monitorização gigantescos e, se eliminarem o dinheiro físico, terão um poder total sobre os cidadãos.
Temos de olhar para o dinheiro digital como algo que não é realmente nosso. É-nos permitido gastar onde, quando e como querem. O facto de hoje de aparentemente não haver grandes restrições não significa que amanhã as regras não mudem. Não podemos dar por garantida a liberdade e autonomia que temos. Há países que, no passado, foram sociedades avançadas e liberais e que hoje são regimes autoritários onde a população está refém desses mesmos regimes.
O dinheiro físico é uma ferramenta essencial para garantir a autonomia das populações, proteger-nos contra a fraude e, sobretudo, contra formas de controlo repressivo que, embora hoje não existam, podem surgir no futuro.
Já pensaram explorar outras áreas de produto, além do dinheiro, como o tabaco, por exemplo?
As tecnologias que desenvolvemos são muito específicas, mas é verdade que os nossos produtos podem ser aplicados a outros tipos de valores – por exemplo, as nossas malas de transporte são usadas para proteger o transporte de canábis medicinal, ouro, pedras preciosas ou transferências entre minas e silos de processamento. Mas, de forma global, são nichos de mercado que não têm grande expressão para nós.
E quanto a novos produtos, o que está previsto lançarem?
Estamos a desenvolver uma nova geração de produtos para o transporte de valores, uma área que tem um impacto significativo no custo de toda a cadeia do dinheiro físico. Tipicamente, este transporte é feito com viaturas blindadas, pesadas, com tripulações numerosas – tudo isto representa um custo muito elevado.
Apesar de as empresas de transporte de valores operarem com níveis de eficiência elevados, há um custo que não conseguem baixar que está relacionado com o modelo de protecção da própria operação. O nosso objectivo é viabilizar a utilização de viaturas “soft skin” (não blindadas), o que exige novas formas de protecção do dinheiro que não dependam apenas de blindagem física.
Estamos a desenvolver soluções inovadoras para suportar operações completas baseadas em viaturas soft skin, permitindo uma redução considerável nos custos de aquisição e operação das viaturas, bem como nas tripulações necessárias. Isso proporcionará uma estrutura de custos muito mais eficiente para as empresas, reflectindo-se no preço final para os clientes e no custo total do ciclo do dinheiro.
Já existem algumas operações deste tipo no mercado, mas acreditamos que as soluções actuais não são ainda ideais, e por isso queremos desenvolver a próxima geração dessas tecnologias.
Olhando para a realidade da fábrica em Mafra, que investimentos estão previstos para os próximos tempos?
Temos o “mau hábito” de querer sempre crescer – não porque somos gananciosos, mas porque ser ambicioso faz parte do ADN da Feerica. Neste momento, estamos a desenvolver novas séries de produtos que acreditamos serem necessárias para o mercado, com foco em reduzir o custo do dinheiro físico. É essencial que o dinheiro físico consiga competir com os canais digitais em termos de custo de transporte, operação e protecção.
Temos projectos para suportar esse crescimento e aumentar a eficiência da empresa. A nossa área fabril actual, com cerca de 8.000 m² de área produtiva, é suficiente para a actividade actual, mas já temos um projecto para um novo edifício em Mafra, que aumentará a área de produção pois será desenhado de forma específica para a nossa actividade, maximizando a eficiência e a utilização do espaço.
Este será um investimento prioritário para os próximos dois anos. O projecto já está concluído e prevemos iniciar a construção em breve, embora estejamos atentos à evolução do mercado e ao contexto político mundial, que pode levar a ajustes no calendário.
Em termos de equipa, continuamos constantemente a recrutar novos talentos para diversas áreas, de acordo com as nossas necessidades. Actualmente, temos pouco mais de 300 pessoas, e é natural que esse número cresça, à medida que expandimos a actividade, implementamos novas técnicas de fabrico e melhoramos a eficiência.









