A ADSP organizou uma mesa redonda sobre Segurança na Cadeia de Distribuição: Riscos, Resiliência e Boas Práticas durante a Segurex 2025, em Lisboa. A discussão abordoou os riscos e ameaças à segurança no contexto geopolítico actual, com um foco particular nas indústrias de transporte e logística em Portugal.
Os oradores, incluindo representantes da Associação de Directores de Segurança de Portugal (ADSP) e gestores de segurança de empresas globais como a DHL Express, Auchan e Rangel, debateram como eventos como a guerra na Ucrânia e o ambiente geopolítico em constante mudança exacerbaram as ameaças físicas e de cibersegurança.
Foi enfatizada a importância da colaboração e partilha de conhecimento entre empresas, a necessidade de revisão e implementação de novos processos e legislação de segurança, e o desafio crescente colocado pelas ciberameaças, impulsionadas em parte pela inteligência artificial.
Os participantes destacaram que a segurança deve deixar de ser vista apenas como a gestão de vigilantes e integrar-se na cultura organizacional, alertando que muitas empresas portuguesas ainda não dão a devida atenção e empoderamento aos seus departamentos de segurança.
O debate traçou um diagnóstico de risco sistémico para a cadeia de abastecimento e lançou um aviso: The winter is coming. Confrontados com a criatividade ilimitada do crime organizado, a volatilidade geopolítica e a fusão entre ameaças físicas e digitais, a conclusão foi categórica. A sobrevivência e resiliência do sector dependem de uma mudança de paradigma, abandonando as abordagens isoladas para abraçar um modelo integrado, onde a questão colocada é se as empresas escolherão ser lobos solitários ou fazer parte de uma matilha. A resposta, defendem, reside na colaboração, inovação tecnológica e capacitação do capital humano.
A Sofisticação do Crime: De “Geeks” a Ataques Cinematográficos
Os métodos criminosos evoluíram muito para além do furto tradicional, tornando-se mais complexos, audaciosos e difíceis de detectar. Esta sofisticação exige uma reavaliação completa das estratégias de segurança, que já não podem focar-se apenas na protecção física dos activos. A criatividade e a audácia dos criminosos manifestam-se de formas cada vez mais surpreendentes, que parecem saídas de um guião de cinema.
No extremo da audácia física, a “táctica romena” (Theft from vehicle attacks), descrita por Filipe de Almeida, atinge níveis impressionantes. Grupos organizados utilizam veículos adaptados para abordar camiões em pleno andamento em auto-estradas. Com uma precisão e velocidade notáveis, cortam os fechos de segurança e transferem a carga para o seu veículo. “Basicamente eles conseguiam esvaziar um camião em 15 minutos”, notou, acrescentando que são “mais rápidos e eficientes que os próprios operadores logísticos”.
No polo oposto, a ameaça digital orquestra furtos físicos com uma sofisticação invisível. Filipe de Almeida descreveu um cenário onde um “menino, um geek atrás de um computador” penetra os sistemas de uma empresa, faz-se passar por um transportador legítimo e ganha o concurso para transportar uma carga de alto valor. Sem possuir um único camião, subcontrata um transportador de boa-fé que, com toda a documentação legal, levanta a mercadoria. A meio do percurso, o atacante, fazendo-se passar pelo cliente, indica uma nova morada de entrega, e a carga desaparece sem deixar rasto.
Paralelamente, o perfil dos alvos também se alterou. O risco já não se limita a produtos de alta tecnologia. Filipe de Almeida partilhou que, em África, por vezes, perde mais “noites de sono por causa de camiões de cerveja e desodorizantes do que por camiões de telemóveis”, pois para as populações locais, “aquilo é dinheiro vivo”. Este novo ecossistema de crime, que combina força bruta com inteligência digital, floresce num cenário de risco global cada vez mais imprevisível.
O Novo Cenário de Risco: Da Incerteza Geopolítica à Convergência de Ameaças
O terreno fértil para esta nova geração de criminalidade é um ambiente de risco radicalmente transformado. Conforme descreveu Silvestre Machado, o sector transitou de “uma conjuntura de risco controlado e analisável para uma fase de gerir o improvável e de gerir a incerteza”. Esta nova era é definida por uma confluência de ameaças que obrigam as empresas a repensar as suas estratégias.
A instabilidade global, marcada por eventos como a “guerra da Ucrânia”, introduziu ameaças complexas que afectam a segurança física e a cibersegurança, um ponto sublinhado por António Valente e reforçado por António Gonçalves. A natureza interligada da cadeia logística moderna, onde “já não há margem, já não há gorduras”, amplifica estes choques, como ilustrado pela analogia de Filipe de Almeida: “Alguém espirra na China e nós temos falta de stock na loja em Portugal.”
A esta complexidade externa soma-se uma fusão cada vez mais indistinta entre os mundos físico e digital. A velha separação entre as duas áreas tornou-se obsoleta. Filipe de Almeida foi categórico ao afirmar que “a maior parte das vulnerabilidades físicas tem a origem digital e a maior parte das vulnerabilidades digitais tem a origem física”. A crescente complexidade e engenho das ameaças torna evidente que nenhuma empresa, por si só, consegue defender-se eficazmente, sublinhando a necessidade de uma resposta coletiva.
A Defesa Colectiva: O Papel da Colaboração e dos Standards Internacionais
Face a ameaças multifacetadas e coordenadas, a resposta estratégica fundamental é a colaboração. Filipe de Almeida resumiu a escolha que as empresas enfrentam com uma poderosa metáfora:
“Ou nós somos lobos solitários ou fazemos parte de uma matilha.”
Um lobo solitário, por mais forte que seja, acabará por ser apanhado, enquanto uma matilha partilha conhecimento e defende-se coletivamente. É este o princípio da TAPA (Transported Asset Protection Association). Nascida há 25 anos como Technology Asset Protection Association para combater o furto de produtos tecnológicos, a TAPA evoluiu para um ecossistema de segurança que reúne fabricantes, operadores e polícias para partilhar inteligência e definir as melhores práticas. A urgência desta colaboração é quantificada por um dado alarmante partilhado por Almeida: o custo real de um furto é cinco a sete vezes superior ao valor da mercadoria roubada, devido a custos de oportunidade, perturbações na cadeia e danos reputacionais.
A importância dos standards TAPA é visível no compromisso de gigantes como a DHL. António Gonçalves destacou que a sua empresa não só é um “membro fundador” como detém o maior número de certificações TAPA a nível mundial. Esta aposta tornou-se um diferenciador competitivo, com clientes globais a exigirem saber se os seus envios “vão passar por instalações certificadas TAPA”.
Contudo, esta abordagem colaborativa contrasta com a realidade portuguesa onde, como observou o moderador António Valente, as empresas ainda tendem a trabalhar “de costas uns para os outros”. Silvestre Machado reforçou esta visão, afirmando que, em segurança, os concorrentes devem ser vistos como “parceiros”. Esta defesa colectiva, porém, depende de uma espinha dorsal tecnológica capaz de transformar dados partilhados em inteligência accionável em tempo real.
A Revolução Tecnológica e o Futuro da Monitorização
A tecnologia está a transformar radicalmente a segurança, deixando de ser uma ferramenta de análise reativa para se tornar um motor de prevenção e intervenção em tempo real. O objectivo, como salientou Silvestre Machado, é “monitorizar todos os eventos e as actividades em tempo real”, sabendo a cada minuto onde está a mercadoria.
Um projecto piloto “revolucionário”, desenvolvido pela Auchan em colaboração com a CHEP em Portugal, exemplifica esta evolução em três fases:
Fase 1 – Prova de Entrega: Monitorização da localização de cada palete em tempo real.
Fase 2 – Qualidade e Integridade: Adição de sensores de temperatura (para a cadeia de frio) e de impacto (para detetar manuseamento incorrecto).
Fase 3 – A Vanguarda da Segurança: A introdução de um “sensor de peso”. Esta inovação permite saber, “quase à grama”, se um único item é retirado da palete. Esta capacidade de detetar a mais pequena alteração de peso possibilita uma ação imediata, representando um salto qualitativo na prevenção de furtos.
No horizonte, a Inteligência Artificial (IA) surge como uma “faca de dois gumes”. Por um lado, Silvestre Machado prevê que a IA será “um dos motores fundamentais da mudança” na segurança. Por outro, António Gonçalves alerta que os criminosos têm acesso “exactamente às mesmas potencialidades”, o que significa que a ameaça cibernética aumentará exponencialmente.
Apesar de todo o avanço tecnológico, os especialistas foram unânimes em sublinhar que a máquina, por si só, não é suficiente. O factor humano continua a ser o elo mais crítico — e decisivo — na equação da segurança.
O Fator Humano: Cultura, Competência e Consciencialização
Tecnologia e processos de pouco valem sem uma cultura de segurança robusta e pessoas capacitadas. O elemento humano é, simultaneamente, a maior vulnerabilidade e o activo de defesa mais importante.
Na DHL, a filosofia é clara: “a segurança é a responsabilidade de todas as pessoas”. Como explicou António Gonçalves, os seus 120.000 colaboradores “fazem parte da equipa de segurança”, recebendo formação contínua.
Esta mentalidade é crucial, pois, como alertou Filipe de Almeida, a maior ameaça cibernética pode estar “localizada entre o teclado e a cadeira”. Esta vulnerabilidade humana é agora explorada pela IA de formas assustadoras. O responsável relatou o caso de um desvio de 45 milhões de dólares no Japão, onde um gestor financeiro foi enganado numa videoconferência através de um deep fake que simulava perfeitamente o CEO e o director financeiro da sua empresa, que lhe deram ordem para fazer a transferência. Nenhuma ferramenta protege uma organização se os seus funcionários não forem continuamente treinados.
Para além da consciencialização, são necessárias novas competências. A Auchan, por exemplo, criou uma equipa interna de cinco analistas de informações com formação em criminologia. Segundo Silvestre Machado, esta equipa prepara casos qualificados para as autoridades, agindo como um “agente subsidiário do órgão de polícia criminal” para garantir que as denúncias chegam de forma “sistematizada” e accionável.
O futuro da segurança dependerá, em última análise, da integração sinérgica entre inovação tecnológica, processos colaborativos e, acima de tudo, um capital humano consciente, competente e preparado.
Preparar para o “Inverno” que se Aproxima
A mensagem central do debate ecoou como um aviso urgente. As ameaças estão a tornar-se mais rápidas, complexas e perigosas. A sobrevivência e a resiliência na cadeia de abastecimento moderna dependem de abandonar as abordagens isoladas e abraçar um modelo integrado. Este novo modelo assenta em três pilares interdependentes: a colaboração para partilhar inteligência, a inovação tecnológica para antecipar riscos e a capacitação contínua do capital humano como linha de defesa final. É na sinergia destes três elementos que reside a chave para navegar a “tempestade perfeita” que se avizinha.









