A I edição da Hands On – Conferência sobre Segurança na Indústria, organizada pela Security Magazine em Aveiro, mostrou um retracto claro da transformação que atravessa hoje a indústria portuguesa: a segurança deixou definitivamente de ser um “exercício para inglês ver”, limitado à conformidade regulatória e às auditorias, para assumir um lugar central na gestão estratégica das organizações e nas decisões do board.
O cenário global de segurança industrial atravessa uma transformação profunda, onde a estabilidade da globalização contínua e o modelo just-in-time deram lugar a um contexto de volatilidade geopolítica. Conflitos como a guerra na Ucrânia, a tensão comercial entre os EUA e a China, e bloqueios logísticos em canais estratégicos demonstraram que a eficiência de custos já não é o único pilar, sendo agora prioritária a segurança do supply chain e a autonomia estratégica. As empresas estão a transitar para uma lógica de just-in-case, onde a resiliência e a existência de planos de continuidade (Planos B, C e D) são fundamentais para a sobrevivência operacional perante imprevistos como crises energéticas ou roturas de fornecimento.
No domínio da cibersegurança, o grande desafio reside na convergência entre o IT (Tecnologia de Informação) e o OT (Tecnologia Operacional). Enquanto no IT a prioridade é a confidencialidade, no ambiente industrial o foco absoluto é a disponibilidade, pois as paragens de linha têm impactos financeiros e reputacionais imediatos. Durante o evento alertou-se para a higiene básica em cibersegurança (segmentação de redes, gestão de acessos e palavras-passe), a qual é mais crítica do que a adoção precipitada de Inteligência Artificial. Além disso, a directiva NIS 2 introduz uma nova camada de responsabilidade directa para os conselhos de administração, exigindo que a segurança seja integrada desde o caderno de encargos na compra de novos equipamentos.
A resiliência operacional é agora vista como um multiplicador de valor e um investimento estratégico, e não apenas um custo. Casos práticos demonstraram que a implementação de centros de monitorização inteligentes (SOC) e plataformas unificadas permite retornos de investimento (ROI) rápidos, por vezes em apenas 9 meses, através da redução de perdas, prevenção de incêndios com câmaras térmicas e otimização da vigilância humana. Eventos como o apagão ocorrido em Portugal serviram de lição sobre as interdependências críticas e a necessidade de sistemas de energia socorrida e planos de resposta testados regularmente.
Na área do safety defende-se uma “Cultura de Cuidado” (Culture of Care), onde a segurança das pessoas e a proteção dos ativos (security) se fundem numa estratégia única. A retenção de talento e o onboarding robusto de novos colaboradores são desafios centrais, dada a elevada rotatividade e a falta de experiência industrial de quem entra agora no mercado. A segurança também se estende à comunidade, com projectos que utilizam tecnologia como QR Codes para facilitar a intervenção de bombeiros e sensores automáticos para proteger perímetros industriais contra incêndios florestais.
Quanto aos avanços tecnológicos, a visão para 2030 aponta para a massificação do Metaverso Industrial e da Realidade Aumentada, permitindo aos operadores terem “visão raio-X” sobre as máquinas e monitorizarem dados térmicos e operacionais em tempo real através de lentes transparentes. A IA Física e o aparecimento de robôs humanoides (como o “Bob”) prometem revolucionar o chão de fábrica, executando tarefas repectitivas e perigosas de forma autónoma e flexível, reagindo ao ambiente através de linguagem natural. Estas tecnologias, aliadas a sistemas de vídeo analítico para controlo de inventário e fluxos logísticos, permitem que a segurança se torne um motor de eficiência e competitividade global.
A conferência contou com a participação de vários especialistas e responsáveis de referência da indústria, segurança e tecnologia. A sessão de abertura ficou a cargo de Luís Nunes, COO da PRIO Supply, que abordou o tema “Da Geopolítica à Operação: Segurança, Resiliência e Liderança em Cadeias de Valor Críticas”.
Na área da videovigilância aplicada à indústria, Jordi Gallego, director comercial da Lanaccess, apresentou um caso de sucesso focado na proteção de pessoas, activos e operações.
O painel dedicado à indústria conectada e segura reuniu Bruno Coutinho, OT Cyber Resilience Specialist da GALP, Luis Faustino, Head of IT do Grupo Simoldes Plastics Division, e Pedro Costa, OT e IT Manager da Bosch Security Systems, numa discussão centrada nos desafios da convergência IT/OT e da ciber-resiliência industrial.
A RTE apresentou igualmente o seu caso de sucesso através de Marlene Saxe, Security and Safety Manager da empresa, numa sessão dedicada às práticas integradas de safety e security.
Já Ana Repas, Security and Safety Manager da Philip Morris, conduziu a sessão “Security 360: Proteger Pessoas, Produto e Instalações”, centrada numa abordagem holística à segurança industrial.
Na modernização dos sistemas de segurança da LIPOR participaram Nuno Correia, Regional Sales da Hikvision, e Miguel Lopes, responsável de Segurança Electrónica da LIPOR.
O painel “Quando Tudo Está em Jogo – Resiliência Operacional e Tomada de Decisão em Crises” juntou José Eduardo Carvalho, COO, Sérgio Dias, Security Manager da Bosch Braga, Carla Neiva, Supply Chain Director da Horse, e Sandra Garrido, responsável de Corporate Crisis Management, Business Continuity and Security da EDP.
A inovação em segurança industrial e o modelo de monitorização da Corticeira Amorim foram apresentados por André Cavadas, Health and Safety Manager da Corticeira Amorim, e Jhoneshaver Merçon, Project Manager da Scudo.
Durante a tarde, José Gândara, Corporate Safety Manager da Corticeira Amorim, Rui Martins, Group Head of HSESQ e Executive Director da Voltalia, e Ângela Ribeiro, coordenadora da área de Segurança e Saúde no Trabalho e Prevenção de Incêndios da Altri, participaram numa sessão dedicada à prevenção, cultura e operação na segurança industrial.
O tema do retorno do investimento em segurança industrial foi apresentado por Jorge Mendes, CEO da Nomad Orange, através da sessão “O Novo ROI da Segurança Industrial: menos incidentes, mais eficiência”.
Na vertente de proteção civil e segurança comunitária, João Oliveira, coordenador municipal da Protecção Civil de Albergaria-a-Velha, abordou o tema “Indústrias Seguras – Comunidade Segura”.
A componente de cibersegurança OT esteve em destaque na apresentação do caso de sucesso da Bondalti, com a participação de Jorge Ribeiro, coordenador de Segurança da Informação da Bondalti, Luis Martins, director-geral da Prosegur Cybersecurity Portugal, e Nuno Ferreira, director comercial da Prosegur Security Portugal.
O encerramento ficou a cargo de Daniel Pina, Technical Project Coordinator no INEGI | Industrial Digitalization, que apresentou uma visão sobre as tecnologias disruptivas na segurança para a indústria e os desafios previstos para 2030.
A Hands On – conferência sobre segurança na indústria foi patrocinada por: Hikvision, Origami Hub, Lanaccess, Prosegur, Scudo, Kidde, Masterlux, Contera, Fox Solutions, Tranemo, ABB e Farprotec.
Leia o próximo número especial da Security Magazine com a reportagem completa.









