A fábrica da EDA (Estofagem de Assentos), uma unidade de produção e subsidiária da multinacional FORVIA localizada em Nelas, está a testar uma tecnologia pioneira de realidade aumentada industrial que promete transformar o chão de fábrica. A iniciativa surge integrada na Agenda Drivolution, um consórcio focado em modernizar a indústria automóvel nacional através do desenvolvimento de novos produtos, processos e serviços. O projecto em teste combina a tecnologia de software desenvolvida pela SkillAugment, através da solução KIT-AR, com a validação científica e investigação do INESC TEC.
O grande objectivo desta inovação é responder a um desafio real e crítico na cadeia de produção: os defeitos de qualidade que escapam à inspecção visual e acabam por chegar ao cliente final. De acordo com Roberto Pinheiro, engenheiro de processo na Fábrica de Nelas, estas falhas aconteciam porque, muitas vezes, o operador não realizou o controlo de forma adequada, dada a complexidade e exigência da tarefa. Sendo a FORVIA uma especialista em bancos de automóveis que prima pela digitalização, a integração neste projecto foi vista como um passo natural. Rui Sousa, director de produção da unidade de Nelas, sublinha que a meta é trazer benefícios directos aos operadores, facilitando o controlo destes pontos críticos, elevando a qualidade final dos assentos e eliminando por completo as reclamações dos clientes.
Na prática, a solução funciona através da utilização de óculos de realidade aumentada por parte dos operadores durante o controlo final do encosto e do assento. Segundo Manuel Oliveira, CEO da SkillAugment, a grande inovação do software reside na criação dinâmica e contextualizada das instruções de trabalho. Dependendo do produto que dá entrada na estação, o sistema gera automaticamente no campo de visão do operador as indicações exactas do que precisa de fazer, quais as ferramentas a utilizar e para que ponto específico deve olhar. O trabalhador consegue ver o desenho técnico de referência sobreposto ao banco real e efectuar “checks” digitais para confirmar a conclusão de cada tarefa. No final, todo o processo fica registado de forma automática, eliminando a perda de tempo com documentação em papel ou deslocações a terminais informáticos, servindo como uma ferramenta digital de suporte à filosofia “lean”.
Para garantir que a tecnologia serve as pessoas e não o oposto, uma equipa de investigação do INESC TEC, constituída por Ana Simões e Filipa Ramalho, tem estado a acompanhar o piloto directamente no terreno em Nelas. O trabalho do instituto passa por avaliar a adopção da tecnologia sob uma perspectiva centrada no ser humano, identificando barreiras e analisando o impacto antes e depois da implementação. Através de observação de campo e entrevistas aos operadores, as investigadoras estudam o ajustamento físico aos óculos, a ergonomia e a carga cognitiva associada à operação. O objectivo deste acompanhamento minucioso é recolher dados que permitam afinar progressivamente a solução, garantindo não só o aumento da eficiência e competitividade da fábrica, mas também uma melhoria real na qualidade de vida e no bem-estar dos operadores nos seus postos de trabalho.









