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“O compromisso organizacional, desde a gestão de topo até ao chão de fábrica, é fundamental para a construção da cultura de segurança”

20 de Agosto, 202516 Mins Read
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A segurança no ambiente industrial é um desafio constante, que exige planeamento rigoroso, formação contínua e uma cultura organizacional sólida. Pedro Barreirinha, coordenador local de Segurança e Saúde no Trabalho da The Navigator Company na Figueira da Foz, traz consigo uma vasta experiência, combinando anos de serviço como bombeiro voluntário com uma carreira sólida na área da segurança no trabalho. Ao longo do seu percurso, tem vindo a implementar práticas inovadoras, promovendo a prevenção de acidentes e a protecção dos colaboradores. Nesta entrevista à Security Magazine, partilha os desafios enfrentados, as estratégias adoptadas para criar uma cultura de segurança e as tendências tecnológicas que estão a transformar o sector. Um testemunho que ilustra como segurança e operação podem caminhar lado a lado, garantindo a protecção de todos.

Security Magazine – Pode contar-nos um pouco sobre o seu percurso profissional até chegar ao cargo de responsável de segurança e emergência na Navigator da Figueira da Foz?
Pedro Barreirinha – Sempre tive duas actividades que se complementam. Por um lado, a segurança no trabalho, por outro, os bombeiros.

Nos bombeiros voluntários, onde permaneci entre 2000 a 2024, desempenhei diversas actividades e funções, nomeadamente, a de formador da Escola Nacional de Bombeiros em incêndios urbanos e industriais. Além disso, participei em diversos teatros de operações, efectuei uma comissão de cinco anos como adjunto de comando e uma comissão de cinco anos como comandante.

Como técnico de segurança, comecei a minha carreira em 2005 com um estágio na Portucel Soporcel Cacia (agora Navigator Aveiro). Posteriormente, passei pela construção civil numa empresa de instalação de torres de telecomunicações onde efectuava os PSS, compilação técnica e acompanhamento das obras. De seguida, regressei à indústria, desta vez para uma empresa de cerâmica, Porcelanas da Costa Verde, onde a segurança estava sobre a alçada da responsável de laboratório e ambiente. Embora estivesse sobre a alçada deste responsável, a segurança era gerida mais directamente por mim. No tempo em que estive na empresa, foram desenvolvidas diversas actividades, nomeadamente, a certificação da empresa pela segurança (NP4397), gestão diária da segurança, criação das brigadas de incêndio, avaliação de risco, instruções de trabalho, acompanhamento da obra de ampliação das instalações, entre outras.

Em 2009, optei por aceitar um novo desafio. Não deixando a segurança no trabalho de lado esta passou para segundo plano visto que aceitei o desafio de criar e chefiar uma equipa de intervenção permanente nos Bombeiros voluntários de Ílhavo. Em 2012, voltei para a indústria, para a empresa de construção de pás eólicas, Riablades, onde me foi lançado o desafio de organizar os serviços de Saúde e Segurança no trabalho. Foram alguns anos onde certificámos a empresa pela segurança, desenvolvemos políticas de promoção da segurança e redução de acidentes e doenças profissionais, criámos as medidas de autoprotecção e reformulação da emergência, entre tantas outras actividades.

Por fim, em 2019, a Navigator Company lançou-me o desafio de vir até à Figueira da Foz para ser coordenador local de segurança e ser responsável pela segurança, saúde e emergência.

O que o motivou a seguir uma carreira na área da segurança?
Sempre gostei da interacção com as pessoas e preocupo-me com o seu bem-estar. No início da minha carreira como bombeiro, estive presente em diversos acidentes de trabalho, incêndios, etc. Esta experiência fez com que cada vez mais me interessasse pela área da segurança de forma a tentar evitar os acidentes e mitigar os danos.

Quais foram os maiores desafios que enfrentou ao longo da sua carreira nesta área?
Quando comecei a trabalhar, a profissão de técnico de segurança era vista como uma profissão “assessória”. Não havia reconhecimento da profissão. Outro desafio são as “pessoas”. Trabalhar com as pessoas e fazê-las ver a importância da segurança, puxá-las para dentro da segurança para torná-las agentes de mudança é extremamente desafiante.

A mudança de mentalidade, a criação da cultura de segurança – onde todos estão no mesmo patamar de conhecimento – é um desafio constante. A segurança não pode ser da responsabilidade de uma pessoa ou departamento. A segurança é da responsabilidade de todos, ou seja, todas as pessoas de uma organização ou empresa têm de estar comprometidas com o mesmo propósito. Quando todos fazemos parte da segurança e sentimos que essa é nossa responsabilidade, quando não precisamos de “alguém” que nos diga “não faças isso que pode haver um acidente”, a segurança passa a ser uma característica intrínseca e temos cultura de segurança.

Há algum projecto ou momento profissional de que se orgulhe particularmente?
Durante o percurso há sempre alguns momentos que são especiais. Para mim, todos os dias em que conseguimos evitar acidentes e que os colegas chegam a casa no final do dia de trabalho são momentos de reconhecimento. No entanto, posso destacar as duas certificações de empresas conseguidas pela segurança NP 4397 / OHSAS 18001(Porcelanas da Costa Verde e Riablades), a transição da certificação para a nova norma NP 45001 na The Navigator Company e ainda a gestão de emergência efectuada na Riablades com a criação da brigada de incêndios, que em 2017, nos incêndios florestais que assolaram o nosso país, combateram o incêndio no perímetro não deixando que o incêndio se propagasse à empresa. Recordo que esse fim de dia e noite foi muito complicado mas com a união das equipas conseguimos alcançar o nosso objectivo que era proteger a empresa.

Como está organizado o departamento de segurança e equipa dentro do grupo Navigator?
A segurança na The Navigator Company, está estruturada numa direcção (direcção de segurança e sistemas de suporte) que se encontra sobre a alçada do administrador industrial. Depois, existe um coordenador corporativo de segurança, de forma a haver uma transversalização e uniformização dos procedimentos e acções e em cada complexo industrial existe uma equipa. Esta equipa é composta por um coordenador de segurança (responsável pela equipa operacional), posto médico e emergência.

A equipa operacional varia conforme a dimensão do complexo, ou seja, nos complexos maiores é composta por três técnicos superiores de segurança no trabalho e por um técnico de segurança mais operacional. Estas equipas são reforçadas com outros técnicos de segurança para tarefas e projectos especificos, como acompanhamento de trabalhos de manutenção, paragens, etc.

Na saúde ocupacional, temos um posto médico que funciona 24h por dia com a permanência de enfermeiro com a valência de enfermeiro do trabalho, um médico de trabalho, um médico de medicina curativa, um fisioterapeuta, e como complemento alguns serviços partilhados com o grupo (psicólogo, assistente social, nutricionista, pedologista).

Como é promovida a segurança no dia-a-dia dos colaboradores da Navigator?
A segurança é promovida diariamente por todos. Desde o momento que entramos nas instalações todos temos a obrigação e responsabilidade de adoptar posturas seguras. Esta promoção da segurança é efectuada com a sinalização existente logo na entrada, bem como nos restantes locais das instalações. As reuniões e passagens de turno iniciam-se com temas de segurança; os trabalhos não rotineiros carecem de autorização de trabalho e procedimentos que têm enfase no planeamento e na segurança; são também realizadas safety walks, acompanhamento das actividades de risco especial e planeamento das intervenções de modo a preparar devidamente os trabalhos e actuando na prevenção.

Quais são os principais riscos ocupacionais identificados na fábrica da Figueira da Foz?
No complexo industrial da Figueira temos diferentes áreas, com diferentes actividades e riscos ocupacionais. Assim, temos um pouco de tudo. Desde risco químico devido aos diversos produtos químicos utilizados e as reacções químicas resultantes do processo, riscos ergonómicos devido às tarefas manuais realizadas, riscos físicos como ruido e vibrações, riscos mecânicos., etc. Temos toda uma panóplia de perigos que carecem de controlo para a diminuir o risco para os trabalhadores.

Como envolvem os trabalhadores e as chefias na construção de uma cultura de segurança?
Tentamos envolver sempre os trabalhadores e chefias como parte da solução, ou seja, quando existe algum procedimento novo há uma parceria forte com os trabalhadores para, juntos, construirmos o procedimento.

Há sempre melhorias que podem introduzir-se tendo em vista a segurança. As pessoas que vão executar determinada tarefa são envolvidas para darem o seu contributo na elaboração, – este procedimento faz que com aquele documento seja também das pessoas e a sua implementação torna-se mais fácil.

A formação é também uma forma de envolvermos os trabalhadores e chefias. Por exemplo, formações em liderança em segurança, para a percepção do risco, formação “SafePro” desenvolvida para dar a conhecer o processo, perigos, riscos e procedimentos, específicos da Navigator, entre outras.

O compromisso organizacional, desde a gestão de topo até ao chão de fábrica, é fundamental para a construção da cultura de segurança. Neste campo, os diversos fóruns que lançamos anualmente para supervisores, as conversas de segurança – onde a direcção fala com todos os trabalhadores -, o incentivo das caminhadas de segurança, – que permitem às chefias irem ao encontro dos trabalhadores reconhecendo as boas praticas e corrigindo o que não esta a ser executado da melhor forma -, são essenciais para evitar acidentes.

Todas as reuniões ou passagens de turno iniciam com momentos de segurança, que são momentos de alta influencia e servem para falar sobre um tema mais crítico, um acidente, quase acidente ou condição insegura que tenha ocorrido, para despertar a consciencialização para a segurança.

Este envolvimento de toda a organização, ajuda na concretização do objectivo de desenvolvimento colectivo da cultura de segurança.

Foto: The Navigator Company

Quais são os maiores desafios que enfrentam em matéria de segurança e emergência?
A segurança e emergência são duas áreas complexas e que obviamente têm os seus desafios. Tanto numa área como noutra temos dois caminhos que temos de trabalhar em conjunto, – a prevenção e a protecção.

A prevenção é onde actuamos para evitar que existam ocorrências, no entanto, temos de ter também a consciência que pode haver uma falha e temos de trabalhar na protecção para mitigar os danos. Este equilíbrio entre a prevenção e a protecção, por vezes, é desafiante.

Outro dos desafios que elenco é o equilíbrio que tem de existir entre a segurança / emergência e a própria operação pois nem sempre é possível suspender a produção para se efectuar as manutenções / correcções necessárias. Nestes casos, é necessário um bom planeamento e conjugação de esforços de todos os intervenientes para a resolução da situação.

Com que frequência são feitos simulacros e que aprendizagens resultam desses exercícios?
Temos diversas realidades em cada complexo e, para isso, temos planos de execução de simulacros para abranger todos os riscos presentes nas instalações. No mínimo, efectuamos três a quatro simulacros anuais de diferentes tipologias, evacuação, riscos químicos, incêndio e derrame, riscos radiológicos, entre outros cenários. Esta actuação permite dar resposta aos diversos diplomas legais, preparar as nossas brigadas para um cenário real e testar os recursos que temos disponíveis.

As brigadas de incêndio, além dos simulacros, efectuam formação no nosso campo de treinos, o qual foi preparado para permitir aos elementos terem uma perspectiva real de incêndio, permitindo efectuar fogo real em ambiente controlado.

Nos simulacros, tentamos também fomentar as parcerias com os meios de socorro externos e, para isso, convidamos os Bombeiros Sapadores da Figueira da Foz e os Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz para participarem nos nossos simulacros. Assim, permitimos que os meios externos tenham conhecimento da nossa realidade e estejam preparados para uma situação real.

Após o simulacro existe sempre uma análise do correu menos bem com o intuito de melhoria. Daqui, saem ideias para novos investimentos no que respeita à emergência para melhorar os meios e evitar situações de excepção.

Como é garantida a resiliência e a continuidade operacional após uma emergência?
Quando existe uma emergência, a nossa estrutura adapta-se à situação. O nosso plano de emergência contempla dois patamares, – um mais operacional, que vai tratar da ocorrência em si com o auxílio das brigadas que estão no terreno, e outro a nível de gestão que suporta a parte operacional e inicia o planeamento da reposição da normalidade e continuidade operacional. Neste patamar, está a direcção e o responsável de segurança que, em conjunto, prevêem o que será necessário para a reposição da normalidade avaliando que recursos serão necessários. Quando existe um sinistro, todas as áreas actuam como uma só para a resolução do problema. Todos estão focados em recuperar as condições iniciais o mais depressa possível.

A taxa de acidentes tem vindo a melhorar? Que medidas contribuíram mais para isso?
Quem trabalha em segurança sabe que de um momento para o outro as taxas e índices podem mudar. Na Navigator da Figueira da Foz temos vindo a melhorar o índice de frequência, mas sabemos que ainda temos um longo caminho a percorrer pois o nosso objectivo é que todos os nossos trabalhadores cheguem a casa depois de um dia de trabalho.

No ano de 2024, o nosso índice de frequência foi de 0,7 e, neste momento, estamos com um índice de 0,5. Por isso, tem melhorado, sim, mas ainda é possível fazer mais. A nível corporativo têm sido desenvolvidas diversas iniciativas que têm contribuído para esta redução. Iniciativas como o programa ergonómico para melhorar os postos de trabalho; o programa de formação Safepro; a celebração do mês da segurança com jogos interactivos para despertar os trabalhadores para os temas da segurança; o programa de Safety Walks que envolve os trabalhadores no desenvolvimento de novos procedimentos e procura de novas soluções; o investimento em novos equipamentos para melhorar e evitar acidentes, programa de reconhecimento para os trabalhadores que são exemplo para os colegas a nível de segurança, conversas de segurança entre os trabalhadores e o director de fábrica; o acompanhamento dos trabalhos no terreno e acompanhamento dos trabalhadores externos. Estas e outras iniciativas fazem com que aumente a consciencialização para a segurança e exista uma diminuição de acidentes.

Há mecanismos de detecção precoce de falhas que possam comprometer a segurança?
Cada vez mais tentamos incorporar sistemas de apoio à decisão e detecção precoce nos equipamentos para antecipadamente podermos evitar acidentes. Exemplos disso são a instalação de câmaras termográficas que, suportadas por algoritmos e Inteligência Artificial, monitorizam e dão alerta precoce sobre potencias fontes de ignição, barreiras fotoeléctricas e sistemas de encravamento que desactivam os equipamentos, monitorização da vibração dos motores e equipamentos para parar em segurança, antes da ocorrência. Estas e outras soluções que foram sendo implementadas ajudam na prevenção de acidentes e mitigação de danos.

Quais são as tendências ou inovações na área da segurança industrial que considera mais promissoras?
Cada vez mais começamos a ter novas tecnologias que apoiam a segurança industrial. Penso que a Inteligência Artificial e realidade aumentada, – que começa a ser utilizada e desenvolvida para meios industriais -, serão um passo importante para o aumento da segurança. Exemplos disso serão câmaras associadas a IA que analisam as posturas corporais dos trabalhadores e dão alertas para corrigir a postura, sistemas de informação que efectuam a medição de vibrações, temperatura para prever a necessidade de mudança do equipamento para evitar um sobreaquecimento dando origem um incêndio. Destaco também a utilização da realidade virtual para dar formação aos trabalhadores, para simular em ambiente controlado ou trabalho a ser executado. Estas ferramentas podem actuar na prevenção para reduzir ou evitar incidentes tanto a nível de segurança como a nível de emergência.

O Complexo Industrial da Figueira da Foz produz anualmente cerca 570 mil toneladas de pasta branqueada de eucalipto (BEKP) e 800 mil toneladas de papéis finos de impressão e escrita não revestidos (UWF). Integra uma central de cogeração a biomassa associada à fábrica de pasta para a produção de energia a partir de fontes renováveis, para além de uma cogeração a gás natural de ciclo combinado.
Esta capacidade de produção, aliada ao seu grau de sofisticação tecnológica, torna-o uma das maiores e mais eficientes unidades industriais da Europa. Com a implementação da primeira máquina de papel em 1991, tornou-se um complexo integrado, aliando a produção de pasta à transformação em papel. Esta integração viria a aumentar com a instalação, em 2000, de uma segunda máquina de produção de papel.
O papel obtido Complexo Industrial da Figueira da Foz é transformado em folhas para a indústria gráfica (grande formato) e para escritório (A3 e A4).

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