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“A Segurança é uma prioridade transversal a toda a operação da Nestlé”

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A diversidade de actividades e ambientes de trabalho coloca desafios específicos à gestão da segurança, exigindo uma abordagem adaptada aos riscos de cada operação, sem perder a consistência das práticas e dos princípios que orientam a organização. Na Nestlé, esta abordagem combina duas dimensões complementares: a integração da segurança na concepção dos processos, equipamentos e formas de trabalhar, e a promoção de comportamentos conscientes que permitam identificar riscos e prevenir acidentes. Em entrevista à Security Magazine, Sandra Lopes, Iberian Manufacturing Excellence and Safety Operations da Nestlé, explica o papel da liderança e da participação dos colaboradores na consolidação de uma cultura de prevenção, destacando iniciativas de formação, a utilização da realidade virtual e o contributo da automação e da robotização para reduzir a exposição a tarefas de maior risco. A análise de incidentes e quase-acidentes, a segurança rodoviária e o potencial da inteligência artificial na identificação precoce de riscos fazem também parte de uma reflexão sobre os desafios que irão marcar a evolução da área de Safety nos próximos anos.

Security Magazine – Como está organizada a área de safety na Nestlé em Portugal e quais são, concretamente, as suas principais responsabilidades enquanto responsável por esta área?
Sandra Lopes – Em Portugal, a segurança é uma prioridade transversal a toda a operação da Nestlé. Contamos com equipas especializadas que trabalham diariamente junto das diferentes áreas de negócio, fábricas, centros de distribuição e escritórios, conhecendo de perto a realidade de cada contexto e os riscos específicos de cada atividade. Esta proximidade é essencial para garantir que a segurança não é apenas um conjunto de procedimentos, mas uma dimensão integrada em todas as decisões e na forma como trabalhamos.

    A minha responsabilidade é ibérica, abrangendo Portugal e Espanha, o que nos permite promover uma abordagem consistente e alinhada com os mais elevados padrões de segurança, ao mesmo tempo que respeitamos as especificidades de cada país, equipa e operação. Enquanto responsável pela área de segurança, o meu papel passa por definir prioridades e orientar a estratégia, mas sobretudo por contribuir para uma cultura em que a segurança é vivida por todos. Na Nestlé, acreditamos que uma verdadeira cultura de segurança se constrói através das atitudes e dos comportamentos do dia a dia, quando cada pessoa é capaz de identificar riscos, tomar decisões conscientes e cuidar de si e dos outros.

    Mais do que promover o cumprimento de regras, procuramos desenvolver uma cultura de cuidado genuíno pelas pessoas, incentivando todos a parar, reflectir e agir em segurança. Porque sabemos que são as pequenas decisões quotidianas que fazem a diferença e ajudam a prevenir incidentes.

    Existe um princípio que orienta toda a nossa actuação na Nestlé: a segurança é uma responsabilidade partilhada. Não pertence apenas às equipas de segurança ou às lideranças. Cada colaborador tem um papel fundamental na construção de um ambiente de trabalho seguro, saudável e positivo para todos.

    A Nestlé tem uma actividade muito diversificada, que envolve produção, armazenagem, logística e distribuição. Quais são hoje os principais desafios de safety que a empresa enfrenta em Portugal?
    Numa empresa com a dimensão e diversidade da Nestlé, onde coexistem diferentes operações, contextos e realidades, um dos maiores desafios é garantir que a segurança é vivida por todos com a mesma importância, todos os dias. Num ambiente cada vez mais exigente, com múltiplas prioridades e estímulos a competir pela nossa atenção, manter a consciência do risco e a capacidade de parar para reflectir antes de agir torna-se essencial.

      Um dos aspectos mais relevantes e desafiantes é precisamente a percepção do risco. Muitas vezes conhecemos os riscos associados a uma determinada tarefa, mas a experiência, a rotina ou a familiaridade podem criar uma falsa sensação de segurança. É natural pensar: “já fiz isto muitas vezes, nada vai acontecer”. O nosso trabalho passa por reforçar a consciência de que o risco existe sempre e que nunca deve ser normalizado ou subestimado.

      Procuramos criar um ambiente em que cada pessoa se sinta confiante para identificar riscos, levantar preocupações e intervir sempre que necessário. Para isso, é fundamental termos uma liderança próxima, presente e atenta, que promove o diálogo, escuta as equipas e incentiva uma cultura de confiança e cuidado mútuo.

      A nossa abordagem assenta em duas dimensões complementares. Por um lado, o Safety by Choice, que procura desenvolver comportamentos seguros e decisões conscientes no dia a dia. Por outro, o Safety by Design, que integra a segurança desde a concepção dos processos, equipamentos e formas de trabalhar, contribuindo para reduzir riscos antes mesmo de estes surgirem.

      De que forma a automação, a robotização e a introdução de novas tecnologias nos processos industriais estão a alterar a forma como a Nestlé aborda a segurança dos trabalhadores?
      A inovação e a tecnologia estão a transformar a forma como gerimos a segurança e representam uma excelente oportunidade para reforçar a prevenção e o cuidado com as pessoas. No entanto, mais do que a tecnologia em si, aquilo que verdadeiramente importa é o impacto que ela pode ter na proteção dos nossos colaboradores, ajudando-nos a reduzir riscos, antecipar situações potencialmente perigosas e apoiar decisões mais seguras.

        Na Nestlé, já estamos a colocar algumas destas soluções em prática. Um exemplo é a utilização da Realidade Virtual na formação em segurança, que permite recriar cenários de risco num ambiente controlado e proporcionar experiências de aprendizagem mais imersivas e eficazes. Ao mesmo tempo, a automação e a robotização têm vindo a assumir um papel crescente na eliminação ou redução de tarefas mais repetitivas, exigentes ou com maior exposição ao risco, contribuindo também para melhorias significativas em termos ergonómicos.

        Acreditamos que estamos apenas no início desta transformação. No futuro, a tecnologia terá um papel cada vez mais integrado no nosso dia a dia, funcionando como um verdadeiro facilitador da segurança. Poderá ajudar-nos a identificar riscos que nem sempre são visíveis, disponibilizar informação relevante no momento certo, apoiar a tomada de decisão e executar tarefas em ambientes onde não queremos expor pessoas.

        Apesar de toda esta evolução, há uma convicção que se mantém: a tecnologia nunca substituirá a responsabilidade individual, a liderança ou a cultura de segurança. O seu maior valor está em complementar as capacidades humanas e ajudar-nos a criar ambientes de trabalho cada vez mais seguros.

        O comportamento humano continua a ser um dos factores críticos na prevenção de acidentes. Como trabalham a cultura de segurança e o envolvimento dos colaboradores no dia-a-dia?
        Na Nestlé, acreditamos que uma cultura de segurança forte se constrói todos os dias, através dos comportamentos, das decisões e do compromisso de cada pessoa. Por isso, investimos na proximidade às equipas, promovendo a formação, o diálogo aberto e a presença no terreno para compreender os desafios reais de cada operação.

          A feira de segurança que organizamos todos os anos é mesmo para dar resposta a isso. Este evento é organizado para reforçar a cultura de segurança, sensibilizar para os riscos, promover a aprendizagem prática, partilhar boas práticas e estimular o envolvimento e o diálogo entre equipas, para no fim, criar consciência e conhecimento, reconhecendo e valorizando os comportamentos seguros.

          Além disso, mais do que cumprir procedimentos, queremos criar um ambiente onde todos se sintam confiantes para identificar riscos, falar quando algo não está bem e contribuir activamente para soluções mais seguras. Através de uma cultura de confiança, speak up e aprendizagem contínua, reforçamos a ideia de que a segurança é uma responsabilidade partilhada.

          Na actividade logística, existem desafios específicos relacionados com circulação de equipamentos, movimentação de cargas, transporte e operações em armazém. Quais são actualmente as prioridades da Nestlé nesta área?
          Na logística, onde pessoas, veículos, equipamentos e cargas partilham o mesmo espaço, a prioridade da Nestlé é reduzir a exposição ao risco e criar ambientes de trabalho cada vez mais seguros. Para isso, procuramos melhorar continuamente os fluxos, promover a separação entre pessoas e equipamentos sempre que possível e reforçar a proteção da saúde e da ergonomia nas operações.

          A segurança rodoviária é também uma área crítica, pelo que investimos na formação, em requisitos rigorosos para os veículos e na avaliação de novas tecnologias que contribuam para uma condução mais segura. Ao mesmo tempo, vemos na automação e na inovação uma oportunidade importante para reduzir tarefas de maior risco e tornar as operações mais seguras e eficientes.

          Como é que a Nestlé utiliza dados, indicadores e análise de incidentes ou quase-acidentes para identificar riscos e antecipar situações que possam resultar em acidentes?
          Acreditamos que uma prevenção eficaz começa por ouvir e aprender. Por isso, incentivamos uma cultura em que todos se sentem à vontade para reportar situações de risco, condições inseguras ou quase-acidentes, mesmo quando não existe qualquer consequência imediata. Cada um destes alertas representa uma oportunidade para agir antes que ocorra um incidente.

          A análise desta informação permite-nos identificar tendências, reforçar medidas preventivas e direccionar os nossos esforços para as áreas de maior risco. Ao mesmo tempo, valorizamos muito a partilha de aprendizagens entre equipas e operações, porque uma experiência num local pode ajudar a prevenir situações semelhantes noutros contextos.

          Mais do que olhar para os dados de forma retrospectiva, procuramos utilizá-los para melhorar continuamente e fortalecer a nossa capacidade de prevenção. O objectivo é aprender hoje para criar ambientes de trabalho mais seguros amanhã.

          Olhando para os próximos anos, quais serão, na sua perspectiva, os principais desafios para a área de Safety na Nestlé e que mudanças considera necessárias para continuar a evoluir a cultura de prevenção?
          Nos próximos anos, um dos principais desafios será continuar a envolver as pessoas de forma relevante e eficaz. As formas de trabalhar, aprender e comunicar estão a evoluir rapidamente, o que exige novas abordagens para manter a segurança presente no dia a dia.

            Na Nestlé, acreditamos que a segurança ganha verdadeira força quando as pessoas compreendem o seu propósito e impacto. Por isso, continuaremos a apostar numa comunicação próxima e significativa, que ajude cada colaborador a reconhecer o valor das suas escolhas e comportamentos.

            Paralelamente, a tecnologia e a Inteligência Artificial irão desempenhar um papel cada vez mais importante na identificação precoce de riscos, na geração de conhecimento e no apoio à tomada de decisão.

            O futuro da segurança passará por combinar o melhor destes dois mundos: aproveitar o potencial da inovação, sem perder o foco naquilo que continuará a fazer a diferença, as pessoas. Porque a segurança é, acima de tudo, uma responsabilidade humana e um compromisso diário com o cuidado de todos.

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