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“O truque” é envolver toda a empresa na criação de procedimentos permanentes e matrizes de segurança

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Como se protege uma empresa de canábis medicinal em Portugal? A Natech, uma empresa em rápido crescimento no sector do Cannabis medicinal em Portugal, está a posicionar-se como uma das principais empresas líderes no desenvolvimento de novos medicamentos e tratamentos inovadores. A empresa foi distinguida com uma subvenção de desenvolvimento da União Europeia e recebeu aprovação do município de Seixal para avançar com o seu projecto de expansão, o qual arrancou há um ano. Fernando Martins, head of security da Natech, revela os bastidores da gestão de pessoas, tecnologia e conformidade regulatória. Nesta entrevista à Security Magazine explica como a segurança se transforma em valor estratégico, os desafios do sector e a colaboração com as forças de segurança, numa indústria onde cada detalhe faz a diferença.

Security Magazine – Como foi o seu percurso profissional até chegar às actuais funções?

Fernando Martins – Após sair do serviço militar obrigatório, tive um período ligado à consultoria e formação técnica na área da informática. Paralelamente, desenvolvi algum trabalho na gestão da segurança de eventos privados, assim como fui adquirindo competências na área da segurança informática, realizando vários trabalhos pro bono como beta-tester de aplicações de segurança. Na passagem do século, consegui passar a trabalhar a tempo inteiro na área da segurança, inicialmente na segurança informática e depois na segurança física, sendo a “ponte” os sistemas de controlo de acessos, que integram a segurança física e a segurança informática.
Com o início da actividade empresarial, em Portugal, do sector da canábis medicinal, tive a oportunidade de começar a trabalhar como Responsável de Segurança de uma multinacional do sector, tendo, entretanto, colaborado com várias outras empresas. Foi uma decisão fácil apostar num sector exigente, pois é aí que se encontram os maiores desafios profissionais na área da segurança.
Nesta experiência em particular, a minha colaboração começou com todo o trabalho relacionado com a criação da empresa, em conjunto com a Administração e a área Legal, tendo sido o primeiro Gerente. Posteriormente, assumi o cargo de Responsável de Segurança, acumulando temporariamente as áreas da informática, safety e apoio à expansão internacional, nomeadamente na Alemanha. Entretanto, a empresa cresceu e, de acordo com as suas necessidades, foi aumentando os seus quadros, sendo as responsabilidades adicionais que eu tinha (além do Security) entregues a responsáveis de sector.

O que mais o estimula na área da segurança enquanto profissional?
Resolver problemas. Antecipar problemas e encontrar soluções atempadamente ou, perante um problema, gerir a situação da melhor forma possível, com os meios existentes, dentro dos objectivos da empresa e do enquadramento legal e regulamentar. Não optei por uma carreira no serviço militar ou nas forças e serviços de segurança por não ser apelativa em termos financeiros, comparativamente com o sector privado. Contudo, nesta actividade e nas suas várias dimensões, sempre existiu proximidade, contacto e formação proveniente das áreas da Defesa e da Segurança Interna.

Olhando para a realidade da Natech, quais são os maiores desafios do ponto de vista da segurança que a empresa, e o sector de uma forma global, enfrenta?
Na componente operacional, o maior desafio é sempre demonstrar que a segurança não é um custo, mas um investimento. Não é uma commodity, mas um serviço de valor acrescentado, se for gerido nesse sentido, integrando as várias disciplinas deste sector.

Na componente humana, o grande desafio é encontrar pessoas com bom perfil e bom desempenho, nomeadamente vigilantes de segurança privada, especialmente na gestão de um posto de controlo ou central de segurança, onde o domínio das novas tecnologias faz uma grande diferença.

Na componente tecnológica, a oferta de soluções é cada vez maior. Infelizmente, começa a verificar-se uma evolução inversamente proporcional ao desenvolvimento e à disponibilidade, no mercado, de recursos humanos que permitam uma boa implementação das soluções tecnológicas.

Qual a importância que a segurança assume dentro da organização?

É elevada, por vários motivos, começando por factores ligados ao facto de o investidor ser estrangeiro. Um desses factores é a experiência pessoal deste investidor em ambientes complicados, pelo que valoriza muito este sector.

O “factor canábis” é óbvio, penso que não necessita de grande desenvolvimento. A minha posição pessoal sobre o tema passa por encarar esse factor como o “factor farmacêutico”, ou seja, desde a origem, a empresa deve considerar-se parte da indústria farmacêutica, numa vertente moderna em que se tenta replicar, de forma consistente e constante, um produto natural com determinadas propriedades medicinais, em vez do modo tradicional de replicar “facilmente” um produto laboratorial.

Como a empresa garante a conformidade com as normas regulatórias existentes ao nível da segurança?

Cerca de 5% dos custos de investimento têm sido destinados à segurança. Se compararmos com a bitola mediática dos “2% para a Defesa”, considero que a empresa leva este tema muito a sério. Por outro lado, contamos com profissionais nas áreas da produção, qualidade e jurídica, com os quais, em conjunto, se constrói essa conformidade, procurando ir além do mínimo exigido, como tem vindo a acontecer.

Actualmente, que medidas implementaram no sentido de controlar o acesso a áreas de cultivo, armazenagem e laboratórios?

Existem três tipos de medidas: humanas, tecnológicas e operacionais.

É obrigatória a existência de sistemas de detecção de intrusão e videovigilância, aos quais acrescentámos um robusto sistema automático de controlo de acessos. De notar que, erradamente, pela lei o controlo de acessos pode ser feito “sem tecnologia” moderna, recorrendo apenas a vedações, portas, fechaduras mecânicas e gestão de chaveiro.

É também obrigatória a existência permanente de um vigilante a monitorizar os sinais de alarme. Isto pode ser feito apenas através dos serviços de uma Central Receptora de Alarmes de uma empresa de segurança privada. A isso acrescentámos vigilância humana permanente nas instalações, bem como uma segunda ligação a outra Central Receptora de Alarmes.

Em termos operacionais, “o truque” é envolver toda a empresa na criação de procedimentos permanentes e matrizes de segurança. Cada departamento tem as suas próprias obrigações nesta área, começando pela colaboração na criação das regras, para que não seja a Segurança a criá-las, mas apenas a aferir e garantir a sua aplicação prática, num processo de arbitragem entre partes, e não na aplicação isolada de medidas desenquadradas de uma política de segurança previamente aprovada pela Administração.

Quanto aos acessos propriamente ditos, existe uma matriz de acessos com vários níveis de segurança, conforme a classificação de segurança do espaço em questão, as actividades nele desenvolvidas e as pessoas que aí trabalham.

Como asseguram a monitorização das instalações?

Em grande medida, o que expliquei anteriormente responde a esta questão. Acrescentaria a colaboração activa com as Forças de Segurança como reforço. Existe ainda uma forte aposta em ferramentas de OSINT e nas suas novas tecnologias, assim como, na medida do possível, o enquadramento com a comunidade onde estamos inseridos.

Não existe nenhum Big Brother. Ninguém consegue monitorizar tudo e todos a toda a hora, e não serei eu a afirmar que o consigo fazer, pois estaria a faltar à verdade. A maior aposta, em termos de monitorização, está na prevenção e antecipação de problemas. Após a ocorrência de problemas, os sistemas de segurança e os vigilantes envolvidos serão fatores cruciais para a produção de prova de um incidente, acidente ou ilícito, sendo depois as forças de segurança e a Justiça a aferir os factos, com a nossa colaboração sempre que necessário.

Contam com integração entre os diferentes sistemas físicos e digitais?

Sim, desde a origem, com um painel de controlo e software integrados de detecção de intrusão e controlo de acessos. A mesma solução permite integrar a videovigilância e a análise de vídeo. Toda a infraestrutura ITED foi desenhada com a segurança física e informática integradas, de modo a responder às diferentes necessidades de IT em geral e da segurança em particular. Foi ainda adoptada uma Next-Generation Firewall, que integra prevenção e detecção de intrusão, além da filtragem normal de conteúdos e comunicações.

Que mecanismos de rastreabilidade existem para evitar desvios de produto?

Este tema é abordado tipicamente pela área da Qualidade, que é forte e presente neste tipo de empresas por obrigação regulamentar, sendo auditado pelo Infarmed. A legislação atual (ainda) não coloca na área da Polícia de Segurança Pública, através da sua Direcção Nacional e do Departamento de Segurança Privada, a inspecção da segurança da cadeia de abastecimento per se. Assim, o envolvimento da área de Segurança é, neste caso, mais colaborativo do que normativo – até agora, no futuro, talvez mude um pouco.

Como a empresa lida com a ameaça interna?

Existe um motto na intelligence militar que resume bem esta resposta: “Em Deus confiamos, todos os outros monitorizamos”. Neste caso, a monitorização não é do dia a dia, mas sim de desvios à normalidade, que é aquilo a que temos de estar atentos.

Existem ainda ferramentas que ajudam a mitigar este problema, como a solicitação de registos criminais ou de exposição ao crédito (mediante autorização), verificação de CV e utilização de fontes abertas (OSINT), onde muitas vezes se subestima o tamanho da nossa pegada digital.

Como classifica a importância da colaboração com as forças de segurança?

Existe um dever especial de colaboração com as forças de segurança, previsto na lei, o que demonstra a importância desta relação. Neste contexto legislativo, em que uma empresa tem de estar em conformidade com várias autoridades e serviços do Estado, diria que as forças de segurança são a nossa menor preocupação, pois são as entidades que melhor compreendem as nossas necessidades e com quem existe maior proximidade e colaboração. É uma colaboração muito importante, que funciona bem e não gera preocupação.

Esta proximidade verifica-se a vários níveis e ocorre de forma natural:
a) Com a PSP, em particular, através do seu Departamento de Segurança Privada (pelos motivos óbvios);
b) Com a força territorial competente, GNR ou PSP, de acordo com a localização da empresa;
c) Com ramos específicos das forças e serviços de segurança, de forma proactiva, na sequência de ameaças concretas.

Quais os maiores desafios esperados para os próximos anos em termos de segurança ao nível deste sector?

Segurança sistémica: a segurança deve abarcar não só a protecção física, mas também a digital, de forma holística e sistemática, incluindo plataformas seguras, encriptação de dados, monitorização de anomalias ambientais e tecnológicas, e alinhamento com o NIS/SRI 2 e com a norma ISO 27001.

Infraestrutura e protecção física: a segurança deve acompanhar os avanços tecnológicos e normativos, existindo já bons exemplos internacionais a seguir, como o IMS-GSP (Israel), ASIS CAN-2024 (EUA) e ISO IWA 37 (Canadá). Ao nível do transporte internacional de produtos, o enquadramento entre segurança pública e privada pode ser melhorado.

Comunicação, ética e estigma social: continuam a existir percepções inconsistentes entre o uso terapêutico e recreativo da canábis. Como se costuma dizer, é a dose que faz o veneno.

A empresa está a avaliar a implementação de novas tecnologias para reforçar a sua segurança?

Sim. As novas tecnologias são acompanhadas de forma contínua, permitindo recorrer, a cada momento, a soluções inovadoras. Numa primeira fase, o investimento direcciona-se para o cumprimento de todo o normativo que conduz ao licenciamento da empresa. Numa segunda fase, exploram-se as funcionalidades dos sistemas para tirar o maior partido possível. Posteriormente, analisa-se a eficácia do sistema, melhorando-o com soluções inovadoras e reforço de equipamentos.

Gostaria ainda de realçar que a tecnologia, por si só, não resolve os problemas. A sua implementação com os recursos humanos adequados é, neste momento, o maior desafio. Independentemente do recurso a ferramentas tecnologicamente recentes e maduras, as pessoas vêm sempre em primeiro lugar.

A segurança é, no fundo, um sentimento — o sentimento de se estar seguro — e, por isso, é sempre algo frágil que tende a falhar primeiro na componente humana. A tecnologia ajuda, mas por si só não resolve nada.

Uma nota sobre a Inteligência Artificial (IA): também é utilizada, nomeadamente na pesquisa de dados em fontes abertas (OSINT), recorrendo já a este tipo de ferramentas em vez dos motores de busca tradicionais, sem esquecer que a tecnologia, por si só, não dá contexto aos dados e que as fontes têm de ser sempre verificáveis.

Que recomendações deixaria às empresas deste sector ao nível da sua preparação e resposta a ameaças potenciais?

Às empresas operadoras do sector, é indispensável acompanhar a evolução das ameaças internas e externas, sempre que possível em conjunto com as autoridades; analisar devidamente essa informação para retirar acções preventivas e correctivas úteis; e adaptar o sistema de segurança (tecnologia, pessoas e procedimentos) a essa realidade. É também essencial acompanhar a evolução tecnológica e normativa, bem como a evolução do próprio sector, procurando aprendizagem em casos de sucesso.

Às empresas fornecedoras do sector, nomeadamente as de segurança, importa ter sempre presente qual é o verdadeiro objecto do seu negócio. A segurança é um sentimento de se estar seguro, através da confiança que se deposita nos meios em que se investiu. Ou seja, o objecto do negócio não é, surpreendentemente, a segurança em si, mas sim a confiança: a confiança de se estar seguro.

Um projecto global: a Natech contou com a parceria entre a GAP, Hanwha Vision, R&M e Kidde Comercial para desenvolver todo o projecto de segurança das suas instalações em Portugal. Em declarações à Security Magazine, David Bica, IT & Security Partner Account, explica os principais desafios e inovações deste projecto

SM – Qual foi o envolvimento da GAP no projecto com a a Natech? O que representa este projecto para a GAP e para a Natech?
David Bica – A GAP esteve envolvida desde a fase inicial de concepção e engenharia do projecto, colaborando de forma próxima com a Natech na definição de uma solução global de segurança electrónica, alinhada com os requisitos operacionais e regulamentares do sector. A Hanwha Vision participou como parceiro tecnológico na componente de videovigilância, fornecendo a plataforma e os equipamentos de CCTV, enquanto a Kidde Commercial integrou o projecto como fabricante de referência nos sistemas de segurança contra incêndio, intrusão e controlo de acessos.
Este projecto representa, para a GAP, um marco relevante na consolidação da sua experiência em ambientes críticos e regulados.

Do ponto de vista mais técnico, o que foi fornecido à empresa?

Do ponto de vista técnico, foi fornecida uma solução integrada de segurança electrónica que incluiu sistemas de videovigilância IP da Hanwha Vision, com câmaras de alta resolução, analítica de vídeo avançada e gestão centralizada através de VMS.
Paralelamente, a Kidde Commercial forneceu os sistemas de SADI (Sistema Automático de Detecção de Incêndio), SACA (Sistema Automático de Controlo de Acessos) e SADEI (Sistema Automático de Detecção de Extinção/Incêndio, conforme aplicável), assegurando elevados níveis de detecção, alarme e resposta a incidentes. Toda a solução foi integrada de forma a garantir fiabilidade, redundância, rastreabilidade e conformidade com os requisitos normativos e de auditoria.

Quais foram os maiores desafios que encontraram neste projecto?
Os principais desafios estiveram relacionados com a necessidade de compatibilizar múltiplos sistemas de segurança — videovigilância, detecção de incêndio e controlo de acessos — num ambiente altamente regulado, garantindo simultaneamente continuidade operacional e conformidade legal. A coordenação entre diferentes fabricantes e a integração com infraestruturas existentes exigiram um elevado rigor ao nível da engenharia, testes funcionais e validação final do sistema. Não obstante de toda a multiplexidade de equipamentos de segurança, foi garantir toda a infraestrutura física de cablagem estruturada, cumprindo as normas regulamentares e permitir à Natech ter padrões de qualidade de comunicação elevados, usando materiais mais recentes do mercado. Toda a rede de comunicações passiva foi desenhada pela engenharia da GAP, acompanhando o desenvolvimento do projeto de segurança.

Que critérios consideram diferenciadores neste projecto?
Os critérios diferenciadores passam pela abordagem integrada à segurança, pela utilização de tecnologia de fabricantes reconhecidos, como a Hanwha Vision e a Kidde Commercial, e pela escalabilidade da solução implementada. Destaca-se ainda a capacidade de adaptação a requisitos regulamentares específicos, a elevada fiabilidade dos sistemas e a forte componente de engenharia aplicada pela GAP em todas as fases do projecto, resumindo a Natech conseguiu encontrar no seu parceiro toda a oferta desde do desenvolvimento do projecto de infraestrutura física de cablagem ao desenvolvimento da solução de segurança de diversos fabricantes, partindo para a instalação e integração da solução no terreno e respectiva continuidade com os planos, processos e manutenção dos seus sistemas, garantindo a continuidade do seu negocio de forma segura e eficaz.

Qual tem sido o vosso percurso no fornecimento e integração de soluções de segurança em ambientes regulados, como laboratórios, instalações de produção farmacêutica e o sector do canábis medicinal?
A GAP tem vindo a desenvolver um percurso consistente no fornecimento e integração de soluções de segurança eletrónica em ambientes regulados, incluindo laboratórios, unidades de produção farmacêutica e o sector do canábis medicinal. Estes contextos exigem elevados níveis de controlo, monitorização contínua, rastreabilidade de eventos e conformidade normativa, áreas onde a GAP tem acumulado know-how técnico e experiência prática relevante.
É um setor em que a exigência regulamentar é alta, e em que a integração e compatibilização de soluções para garantir a monitorização são complexas. O nosso percurso tem passado por dotar as equipas de engenharia do máximo conhecimento possível, assim como as equipas de execução no terreno. O percurso tem sido consistente, uma vez que, nos últimos anos, temos verificado um aumento significativo dos pedidos de desenvolvimento global de soluções de segurança e da respectiva infraestrutura, por parte de clientes finais e de gabinetes de engenharia que projectam este tipo de soluções. O trabalho desenvolvido em parceria tem-nos permitido atingir patamares elevados de know-how neste segmento de mercado.

Por onde passa o futuro da vossa parceria com a Natech?
O futuro da parceria com a Natech passa pela continuidade do trabalho conjunto em novos projectos, pela evolução tecnológica das soluções instaladas e pela integração de novas funcionalidades, nomeadamente ao nível da analítica avançada, da automação e do reforço da cibersegurança. A colaboração com fabricantes como a Hanwha Vision e a Kidde Commercial continuará a ser um pilar essencial para responder às exigências crescentes dos mercados regulados, garantindo que estas soluções sejam eficazes e contribuam para uma gestão mais eficiente do negócio do cliente.

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