A segurança no trabalho e a resposta a emergências são pilares fundamentais da actividade das Infraestruturas de Portugal, reflectindo um compromisso permanente com a protecção de pessoas e bens. Nesta entrevista à Security Magazine, Rui Silva, head of safety da empresa, dá a conhecer o percurso, a visão e os desafios de quem lidera diariamente estas áreas estratégicas na IP. Uma conversa centrada na importância da cultura de segurança, no trabalho das equipas no terreno e na responsabilidade partilhada por todos. Um testemunho que revela como a segurança é vivida como uma verdadeira missão ao serviço da sociedade.
Como surgiu o seu interesse pela área da segurança no trabalho e emergência?
Há alguns anos, ainda na REFER – a empresa que se fundiu com as Estradas de Portugal, dando origem às Infraestruturas de Portugal (IP) -, surgiu, numa fase de reestruturação da empresa, o convite para integrar a equipa da Direcção de Segurança. A organização entendeu que deveria evoluir para uma relação de maior proximidade com as estruturas operacionais e, por essa razão, o meu perfil foi identificado como adequado para essa missão.
Na altura não tinha formação na área, mas rapidamente frequentei uma pós-graduação em Segurança no Trabalho, onde adquiri os conhecimentos necessários para o desempenho da nova função.
Ao longo de toda a minha actividade profissional, as pessoas sempre foram a minha prioridade. O contacto com esta área e com os colegas que já trabalhavam estes temas despertou rapidamente em mim a vontade de aplicar as minhas competências para contribuir para a criação de ambientes de trabalho seguros.
A partir desse momento, a segurança passou a ser uma missão. O compromisso que assumi deixou de ser apenas com a empresa. Sinto que a minha missão, assim como a das minhas equipas, é um compromisso com cada trabalhador, com cada utilizador das infra-estruturas que a IP gere, com as famílias dos nossos colegas e com todas as entidades que colaboram em situações de emergência.
Quando se percebe o impacto que a nossa actividade diária pode ter na vida de tantas pessoas, é impossível não sentir orgulho no trabalho que se faz e, sobretudo, um enorme orgulho nas pessoas que todos os dias trabalham ao nosso lado, com empenho, resiliência e um nível de conhecimento que acredito ser difícil encontrar noutra estrutura.
Quais são actualmente as suas funções principais na IP?
Actualmente sou responsável pela gestão de três equipas: a de Segurança no Trabalho, a de Emergência e a equipa de Coordenadores de Segurança. Estas três equipas desenvolvem a sua actividade em todo o território nacional, com excepção das ilhas. São equipas muito empenhadas e competentes, o que naturalmente facilita o meu trabalho.
Como a IP integra a segurança no trabalho e a gestão de emergências na sua estrutura global?
Formalmente, estas equipas estão na dependência da Direcção de Segurança, que por sua vez responde ao Conselho de Administração da IP. No entanto, na nossa actividade diária sentimos que fazemos parte de todas as estruturas da empresa. Trabalhamos em estreita proximidade com todos, e todas as opiniões e contributos são bem-vindos.
Só acompanhando diariamente o trabalho dos nossos colegas e prestadores de serviços é possível compreender as suas dificuldades, os riscos que enfrentam e a melhor forma de os eliminar. Acreditamos que todos “somos a nossa segurança” – esta é a mensagem que transmitimos diariamente. Na IP, todos contribuem para a segurança e todos são responsáveis pela segurança dos seus colegas. Desta forma, todas as estruturas são promotoras de segurança.
Que papel assume a cultura de segurança interna na prevenção de acidentes de trabalho?
As regras são fundamentais, mas acreditamos que, mais do que uma segurança apenas escrita, a IP tem interiorizados os comportamentos seguros. Tradicionalmente, a segurança é uma das principais preocupações da empresa – não só a segurança dos nossos colegas, mas também a dos prestadores de serviços e dos utilizadores das nossas infra-estruturas.
A IP, enquanto maior gestor nacional de infra-estruturas rodoviárias e ferroviárias, tem também a obrigação de garantir que todos os que as utilizam ou nelas trabalham o fazem em segurança. A cultura de segurança está profundamente enraizada e é levada muito a sério. Todos sentem que o seu trabalho, seja ele onde for, tem impacto na segurança colectiva.
Para garantir que este caminho é seguido diariamente, investimos fortemente em campanhas de envolvimento e em programas de promoção da segurança e de comportamentos seguros. Sempre que verificamos que estes comportamentos estão interiorizados e que nenhum outro valor se sobrepõe à segurança, percebemos que estamos a seguir na direcção certa.
Como está estruturada a equipa/departamento responsável pela segurança no trabalho e qual a relação com as outras áreas da organização?
A Segurança no Trabalho depende do Departamento de Safety e é constituída por uma equipa muito experiente, que desenvolve a sua actividade de norte a sul do país, acompanhando diariamente as equipas internas no terreno. Trabalhamos com grande proximidade com essas equipas e temos sempre presente que só alcançamos bons resultados se a segurança for encarada como uma missão de todos.
O mais importante na nossa actividade é o reconhecimento, por parte da organização, de que somos parceiros que ajudam a fazer melhor e de forma mais segura, e que a nossa principal preocupação são as pessoas, não as estatísticas.
Na verdade, não posso dizer que a equipa de Segurança no Trabalho seja apenas um núcleo da Direcção de Segurança: somos, na prática, mais de 3.000 pessoas que todos os dias promovem a segurança em cada posto de trabalho e em cada actividade da IP. A nossa relação com o resto da estrutura é muito próxima e contamos diariamente com o empenho de todos na promoção da segurança.
Quais são as prioridades estratégicas em segurança no trabalho e resposta a emergências para os próximos cinco anos?
A nossa prioridade é garantir que a segurança não é apenas um objectivo da Direcção, mas de todos. A estratégia será sempre de envolvimento, quer com os nossos colegas, quer com todas as entidades que colaboram diariamente nas empreitadas e acções de manutenção que realizamos.
Na área da emergência, como temos definidas as regras internas de actuação e os processos de articulação com os agentes de protecção civil, realizamos um número muito significativo de exercícios de treino operacional, envolvendo operacionais da IP e os agentes externos que possam estar envolvidos nas situações de emergência.
No âmbito desses exercícios, a IP promove acções de formação dirigidas aos agentes de protecção civil, focadas nos riscos existentes nas nossas infra-estruturas e nas formas de os eliminar ou controlar. Estas acções são muito importantes e pretendemos mantê-las e melhorar a sua qualidade e abrangência.
Em ambas as áreas, o objectivo é criar cada vez mais envolvimento, fazer sempre mais e melhor. Acreditamos que a estratégia vencedora é aquela que transforma a nossa missão na missão de todos.
Quais os principais desafios em matéria de segurança ocupacional e protecção corporativa?
A IP gere infra-estruturas muito diferentes. No nosso dia a dia lidamos com realidades bastante diferentes, quer ao nível geográfico, quer ao nível das tecnologias envolvidas. O volume de trabalhos em curso e a diversidade de intervenientes criam desafios permanentes, que só conseguimos superar graças a uma equipa empenhada e altamente competente.
Além disso, a IP gere tanto a rede ferroviária nacional como uma vasta rede rodoviária. Embora existam riscos que se assemelham, trata-se de sistemas muito diferentes na sua gestão.
Existem actividades ou locais de trabalho considerados mais críticos? Como são geridos?
Pela sua natureza, a IP desenvolve um leque muito diversificado de actividades. A gestão e manutenção de infra-estruturas ferroviárias e rodoviárias, com idades, características e envolventes muito distintas, origina diferentes riscos e tipos de intervenção.
Alguns postos de trabalho são críticos pelo impacto potencial na vida dos utilizadores; outros, pelos riscos associados. No entanto, as equipas da IP são muito experientes e detentoras de um conhecimento extremamente abrangente, difícil de encontrar noutra entidade. É esse conhecimento e essa experiência que permitem uma boa avaliação dos riscos e a implementação de medidas adequadas.
Naturalmente, algumas actividades exigem um acompanhamento mais rigoroso, mas esse acompanhamento é uma responsabilidade de todos. Por isso seguimos o princípio de que “somos a nossa segurança”.
Que tecnologias e sistemas têm sido implementados para reforçar a segurança e a resposta a incidentes?
Considero que o planeamento é a base fundamental da segurança. Nesse sentido, a IP tem feito um investimento contínuo em sistemas que ajudam as equipas a planear os seus trabalhos, garantindo uma sequência de actividades que condiciona para a implementação das medidas necessárias para que todos trabalhem em segurança.
A ferrovia dispõe de sistemas com níveis de segurança elevadíssimos e redundantes, que garantem não só o nível de serviço, mas também a segurança dos trabalhadores e dos utilizadores.
Tanto na ferrovia como na rodovia existe uma monitorização permanente da infra-estrutura e um conjunto de alarmes que permite às equipas da IP actuar com a antecedência necessária, assegurando um trabalho planeado e seguro.
A IP dispõe de sistemas para monitorizar e prever situações de risco ou emergências?
Sim. A monitorização da infra-estrutura, aliada à articulação com o IPMA, permite, por exemplo, a implementação automática de medidas restritivas à circulação, de forma a garantir a segurança mesmo durante eventos meteorológicos extremos, que têm sido cada vez mais frequentes e severos.
Com que frequência são realizados simulacros de emergência e quais os principais objectivos?
Na IP realizamos mais de 20 simulacros por ano. Na maioria dos casos, contamos com a participação dos agentes de Protecção Civil que operam na proximidade das nossas infra-estruturas. O objectivo é garantir que os planos de emergência se mantêm actualizados e funcionais e que todos os envolvidos os conhecem e se sentem seguros quando precisam de intervir.
Associadas a estes exercícios, realizamos sempre sessões de esclarecimento para que as diversas entidades conheçam os riscos das nossas infraestruturas e saibam como atuar de forma segura, evitando surpresas ou riscos desnecessários.
Na sua opinião, qual foi o maior avanço recente nesta área na IP?
O maior avanço não está relacionado com tecnologias ou equipamentos. A verdadeira evolução aconteceu quando as organizações deixaram de ver a segurança como um custo e passaram a encará-la como um dos princípios mais elementares do trabalho.
O facto de a IP assumir a segurança como uma responsabilidade de todos é, para mim, a maior garantia de segurança.
Qual considera ser o maior desafio futuro desta área?
Numa empresa da dimensão e da relevância da IP, com impacto directo em milhões de utilizadores e com milhares de trabalhadores próprios e de prestadores de serviços, o maior desafio é conseguir “contagiar” todos os envolvidos com a missão de que a segurança no trabalho é uma obrigação de todos e também um objectivo comum.









