O português João Nunes, técnico superior do INEM, assumiu pelo segundo ano consecutivo um papel-chave na operação médica do festival SoundStorm, que reúne entre 450.000 e 700.000 participantes ao longo de três dias. À frente de equipas no terreno e na formação de profissionais em triagem multivítimas e emergência clínica, o responsável destacou-se pela liderança, adaptação a contextos multiculturais e integração tecnológica, garantindo a segurança e eficácia clínica num dos maiores eventos do Médio Oriente. Entre a equipa destaque também para a participação de Júlio Braga, referência pelo trabalho desenvolvido na Protecção Civil do município de Santo Tirso.
Security Magazine – Qual foi o seu papel na equipa do SoundStorm?
João Nunes – Pelo segundo ano, colaborei na gestão médica e operacional do dispositivo de saúde, liderando uma equipa no terreno e participando na formação dos profissionais de saúde em competências de emergência médica e triagem multivítimas, uniformizando abordagens, mas respeitando práticas clínicas e protocolos locais. Um trabalho essencial num contexto multicultural e multilingue, onde as barreiras linguísticas e culturais podem influenciar tanto o comportamento das multidões quanto a actuação clínica.
Existiam outros portugueses na equipa?
Sim, o Júlio Braga, uma referência pelo trabalho notável que tem desenvolvido na Protecção Civil do município de Santo Tirso, que assumiu um papel semelhante, mas de maior complexidade. É importante notar que a presença portuguesa transcende a nossa equipa directa. O mediatismo positivo de figuras como o Cristiano Ronaldo cria uma afinidade imediata entre os festivaleiros, transformando-nos em pontes culturais e linguísticas de tal ordem que houve quem nos abraçasse só por sermos portugueses! Esta percepção externa valoriza a nossa agilidade na adaptação a necessidades emergentes e a flexibilidade nas decisões, características que foram cruciais.

Como surgiu essa oportunidade para integrar esse projecto?
Através de um convite realizado pela initi8, uma empresa internacional reconhecida pela sua inovação, excelência operacional e capacidade de entregar experiências de qualidade em eventos de grande escala em todo o mundo. A init8 tem sido responsável há vários anos pela coordenação do dispositivo médico e tem vindo a seleccionar uma equipa de profissionais de todo o mundo com base numa combinação de experiência em gestão de grandes eventos, liderança de equipas técnicas, formação de profissionais e capacidade de implementar soluções inovadoras em contexto real.
Qual foi a dimensão da operação de emergência do evento em termos de equipas e recursos?
A operação foi de enorme dimensão, alinhada com o facto de se tratar de um dos maiores festivais do Médio Oriente, com um espectro de público que varia entre 450.000 e mais de 700.000 participantes ao longo de três dias e com mais de 250 artistas distribuídos por cerca de 14 palcos num espaço que se torna literalmente numa cidade temporária.
O dispositivo médico incluiu múltiplas unidades de atendimento no terreno, centenas de profissionais, cinco hospitais temporários totalmente equipados e distribuídos estrategicamente, equipas especializadas em trauma e mass casualty incident, viaturas de transporte e evacuação, e uma rede de comunicação integrada. A robustez da operacionalização é assegurada por recursos locados totalmente ajustados às necessidades, onde o planeamento vai muito além do essencial para garantir respostas alternativas e adaptadas a qualquer cenário.
Quais os principais riscos identificados num evento desta dimensão?
Os riscos são múltiplos e inter-relacionados, desde as ocorrências expectáveis (doenças súbitas, trauma, desidratação ou consumo abusivo de substâncias) até à imprevisibilidade de um cenário de excepção multivítimas. A gestão destes riscos começou com a estratificação dos níveis de resposta, passando por formação adequada através de workshops de técnicas lifesaving, pela implementação de uma inovadora solução de realidade virtual em contexto de treino em protocolos de actuação em cenários mass casualty (Simul8) e terminou num simulacro LiveX. Além disso, a interacção entre factores ambientais, mistura cultural e barreiras linguísticas impõe um desafio extra à gestão clínica. A organização demonstrou uma capacidade notável de identificar e corrigir imediatamente oportunidades de melhoria reportadas antes e durante o próprio evento, o que reforça a segurança e a adaptabilidade do sistema. É de facto importante conhecer hábitos e comportamentos locais para mitigar situações potencialmente desconfortáveis.
A gestão de multidões representa um desafio particular? Porquê?
Sim, os desafios são particulares e complexos. Começam nas barreiras linguísticas e culturais que influenciam o comportamento das massas e a percepção das instruções. Neste contexto, foi vital uma liderança forte e clara, capaz de orientar as equipas e coordenar fluxos humanos extensos. É notável o espírito de equipa que foi criado entre os vários intervenientes, para mim, completa e estruturalmente fundamental para o sucesso da missão.
Para gerir de forma eficaz esta complexidade, implementou-se um sistema de registo clínico digital (iJRNY) que assegurou a monitorização contínua de todos os casos clínicos, desde a triagem inicial até à transferência para cuidados especializados, o que facilitou muito, por exemplo, a gestão das vagas hospitalares com base no nível de criticidade do doente, maximizando a segurança e reduzindo a probabilidade de falhas na resposta e demonstrando o valor de um registo clínico simples e eficaz, que, pela sua intuitividade, promove a adesão dos profissionais e fornece dados vitais para a gestão dinâmica do evento em tempo real.
A imprevisibilidade é uma variável constante, exigindo respostas planeadas, mas altamente flexíveis. A capacidade de antecipação é a chave, suportada por uma análise em tempo real e monitorização contínua dos padrões de deslocação das massas. Esta adaptação permanente da resposta, com apoio logístico móvel, minimiza riscos e assegura intervenções proporcionais, seguras e culturalmente sensíveis.
Como foi a integração entre profissionais internacionais e equipas locais?
A integração foi notavelmente fluida e eficaz, facilitada por uma estrutura de comando e controlo que promovia a colaboração e o trabalho de equipa disciplinado. A organização investe significativamente em criar um ambiente de adaptação e alinhamento constantes. Os profissionais internacionais, como eu, actuaram como catalisadores de melhores práticas, partilhando expertise em cenários de emergência, enquanto as equipas locais trouxeram o conhecimento essencial do contexto cultural e das práticas clínicas regionais.
Quais as grandes mais-valias de ser português em ambientes com estas características?
As mais-valias de ser português nestes ambientes são multifacetadas e altamente valorizadas. Em primeiro lugar, a nossa capacidade inata de adaptação e flexibilidade é um activo inestimável em operações logísticas e clínicas de grande escala e imprevisibilidade. Em segundo lugar, a nossa competência linguística e cultural permite-nos actuar como pontes de comunicação eficazes entre as diversas nacionalidades presentes, tanto nas equipas operacionais como no contacto com o público. Por fim, o reconhecimento e o mediatismo positivo associado a Portugal, que se manifesta na simpatia e abertura dos participantes, facilita a construção da relação humana essencial para a gestão de multidões e a intervenção em situações de crise, transformando a nossa presença num factor de confiança e proximidade.

Quais as principais aprendizagens que retira desta experiência?
A principal aprendizagem reside na compreensão da escala e da sofisticação da gestão de eventos de classe mundial. Destaco desde logo a enorme estrutura de gestão, comando e controlo, com salas de apoio dedicadas a todas as vertentes da operação, que demonstra como os recursos locados permitem uma operacionalização robusta. Mas também noutros campos, como por exemplo foi notável a dedicação que dão à comunicação do evento e, em particular, a monitorização das redes sociais e do estado de espírito dos participantes (sentimento analysis), que permite uma antecipação e resposta proactiva a potenciais problemas, além do suporte administrativo e logístico extra evento, que nos assegura a tranquilidade suficiente para a manutenção da condição física e mental no decorrer das muitas horas seguidas de trabalho.
Que competências considera que mais desenvolveu durante o projecto?
Objectivamente, acredito que as competências mais desenvolvidas foram a liderança em contexto de alta pressão e multiculturalidade e a gestão de sistemas de informação em emergência. A necessidade de garantir a adaptação e alinhamento constantes das equipas a um ambiente em rápida mutação aprimorou a minha capacidade de tomada de decisão flexível em tempo útil e o trabalho com o Simul8 e o iJRNY reforçou a minha expertise em soluções tecnológicas para formação e eventos de massa.
Estaria disponível para integrar projectos semelhantes no futuro?
Absolutamente. A oportunidade de trabalhar num projecto desta magnitude, que combina a excelência operacional com a inovação tecnológica e a gestão de uma complexidade humana e logística ímpar, é extremamente gratificante. As experiências no Soundstorm reforçaram o meu compromisso com a segurança e a saúde em eventos de massa e a minha paixão por integrar equipas de elite que procuram constantemente a melhoria contínua. Estou totalmente disponível e motivado para integrar projectos semelhantes no futuro, contribuindo com a minha experiência e know-how para o sucesso de operações que exigem o mais alto nível de profissionalismo e adaptabilidade.









