Cibersegurança e InfoSec

Vira o disco e toca o mesmo – Versão Defesa Europeia

3 de Junho, 20264 Mins Read
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Por Bruno Castro – Fundador & CEO da VisionWare. Especialista em Cibersegurança e Análise Forense

A Europa gosta da expressão ‘autonomia estratégica’. Soa bem em discursos, relatórios, cimeiras. Tem aquele ar de projeto histórico, quase inevitável, contudo, quando se passa da teoria para a prática, da intenção para a compra, a realidade é bem mais desconfortável e a dependência estrutural dos Estados Unidos continua lá, intacta.
Por um lado, há quem defenda que a Europa precisa de reduzir dependências críticas; não apenas por orgulho político, mas antes por pragmatismo. Cadeias de abastecimento militar, sistemas de comando, satélites, inteligência, cloud, software de defesa – tudo isto é poder operacional. E poder operacional, em contexto de guerra ou dissuasão, não pode estar totalmente fora do controlo europeu.
Nesta leitura, apostar em capacidades próprias, mesmo em áreas como a inteligência artificial militar ou sistemas integrados de combate, não é “desafiar” os Estados Unidos. É somente corrigir um desequilíbrio estrutural que se foi acumulando ao longo de décadas de subinvestimento europeu na defesa, e que, como bem sabemos, foi a própria Europa a voltar a incentivar o mesmo investimento em defesa.
No entanto, existe uma leitura alternativa que vê esse caminho com maior cautela. Para esta visão, o problema não é a dependência em si, mas antes o custo de a reduzir demasiado depressa. A interoperabilidade dentro da NATO continua a ser o pilar da segurança europeia. Os Estados Unidos não são apenas um fornecedor tecnológico, são sim, a última garantia de dissuasão militar no velho continente europeu. Criar sistemas paralelos, demasiado autónomos ou tecnologicamente divergentes, pode gerar fricções operacionais e políticas, difíceis de gerir.
Adicionalmente, existe ainda uma questão industrial e económica: a Europa não parte do mesmo ponto. A fragmentação entre países, empresas e prioridades nacionais significa que, duplicar capacidades americanas pode ser caro, lento e ineficiente, especialmente, num contexto em que a urgência da guerra na Ucrânia voltou a colocar pressão sobre stocks, munições e produção em massa.
O caso recente da Leonardo (multinacional italiana de alta tecnologia especializada em aeroespacial, defesa e segurança) com a saída de Roberto Cingolani, um CEO que apostava numa visão de defesa mais inovadora e menos tradicional, ilustra bem esta tensão. Mais concretamente, no projeto proposto pela empresa – Michelangelo Dome -, é um exemplo dessa aposta em defesa menos tradicional e mais competitiva: um sistema integrado de defesa baseado em inteligência artificial, concebido para responder a ameaças contemporâneas como drones, mísseis hipersónicos e cenários de guerra híbrida.
Ainda assim, trata-se de uma aposta que levanta questões legítimas dentro do próprio enquadramento europeu, nomeadamente, sobre os limites éticos e políticos da crescente automatização da guerra e da tomada de decisão em sistemas defensivos cada vez mais dependentes de IA, e este é um ponto admiravelmente legítimo.
No entanto, parece que, na verdade, o ponto mais sensível levantado por vários estados foi o de, até que ponto o desenvolvimento de soluções deste tipo pode ser interpretado como concorrência direta a sistemas já consolidados no ecossistema ocidental, em particular, soluções americanas como o sistema Patriot.
Portanto, qualquer projeto europeu verdadeiramente ambicioso esbarra no mesmo dilema: se for demasiado avançado, arrisca competir com o ecossistema americano dentro da NATO, se for demasiado cauteloso, não muda nada.
A Europa não sabe ainda se quer ser protagonista ou apenas uma parceira qualificada dentro de um sistema que não controla: quer autonomia, mas ainda não decidiu o preço que está disposta a pagar por ela. E enquanto essa decisão não for clara, continuará neste meio-termo: demasiado dependente para ser livre, demasiado cautelosa para ser líder.

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