A Glartek é uma tecnológica portuguesa que desenvolve software de EHSQ, Ambiente, Saúde, Segurança e Qualidade, destinado a aproximar as equipas de segurança dos trabalhadores no terreno e a digitalizar processos como avaliações de risco, permissões de trabalho, inspecções e gestão de incidentes. Fundada em 2017, a empresa tem vindo a expandir a sua presença internacional e já opera na Europa, Médio Oriente e América Latina. A IA é agora uma das áreas centrais da evolução da plataforma, com a tecnologia integrada nos processos operacionais para apoiar os trabalhadores, antecipar situações de risco e transformar os dados recolhidos no terreno em informação para a prevenção. Em entrevista à Security Magazine, Bruno Duarte, CEO da empresa, fala sobre esta transformação, a estratégia de internacionalização da Glartek e os próximos passos da empresa, que prepara o lançamento da Glartek 5.0, previsto para o primeiro trimestre de 2027, bem como a entrada em novos países e sectores.
Security Magazine – Para quem ainda não conhece a Glartek, como descreveria a empresa e a missão que vos orienta?
Bruno Duarte – A Glartek é uma tecnológica portuguesa que desenvolve software de EHSQ – Ambiente, Saúde, Segurança e Qualidade – que liga as equipas de EHS aos operadores no terreno.
A missão que nos orienta é simples: garantir que, no fim de cada dia, todas as pessoas voltam a casa em segurança. Existimos para ajudar a reduzir as fatalidades e os acidentes graves na indústria e é essa a diferença que queremos fazer na vida de quem trabalha em ambientes de risco. É isso que nos move e é daí que parte tudo o que fazemos.
Como evoluiu a Glartek desde a sua fundação até aos dias de hoje?
A Glartek foi fundada em 2017, em Portugal, com uma convicção: a segurança e a qualidade só melhoram quando os dados nascem no terreno, no momento da execução. Começámos por digitalizar processos de campo com tecnologias pensadas para capacitar quem faz o trabalho – e não apenas para reportar sobre ele – e, ao longo de mais de nove anos, fomos construindo uma plataforma de EHSQ completa e nativa, com todos os módulos assentes no mesmo modelo de dados, sem resultar da soma de aquisições.
Hoje trabalhamos com várias organizações industriais e de manufactura e fomos distinguidos por prémios nacionais e internacionais, analistas e consultores. O passo mais recente desta evolução foi tornar a plataforma nativa em IA, com esta tecnologia totalmente integrada no ciclo operacional para apoiar o operador. Mas o princípio nunca mudou: a adopção no terreno é a base de tudo.
Que problemas procuram resolver junto das organizações industriais e de infraestruturas críticas?
O problema central é a desconexão entre as equipas de EHS e a linha da frente. As normas existem, os procedimentos existem, mas muitas vezes não chegam a quem está no terreno de forma utilizável, e o que não é usado não gera dados fiáveis. A partir daí encadeiam-se os problemas que conhecemos: excesso de papel em permissões de trabalho, inspecções e relatórios de incidente; uma gestão de segurança reactiva, que só vê o incidente depois de acontecer; acções correctivas que ficam abertas; auditorias que demoram semanas a preparar.
Resolvemos isto trazendo os fluxos para o dispositivo móvel, com procedimentos passo a passo e um apoio ao operador em tempo real. E damos visibilidade ao que estava invisível: muitos dos sinais que antecedem os acidentes mais graves passam despercebidos, e quem olha só para o que já aconteceu deixa escapar boa parte do risco. São os indicadores avançados recolhidos no terreno que permitem ver o risco antes de ele se tornar acidente.
Em que sectores de actividade têm registado maior procura pelas vossas soluções?
A procura concentra-se em sectores de activos intensivos, regulados e de trabalho de risco, onde a qualidade da execução no terreno tem impacto directo na segurança e na conformidade: manufactura, energia e utilities, química, papel e pasta, farmacêutica, alimentar e bebidas. São ambientes multi-instalação, com trabalho de campo exigente, onde uma permissão de trabalho mal executada ou um documento de contratado expirado têm consequências reais.
A digitalização das operações industriais continua a acelerar. Como tem a Glartek acompanhado esta transformação?
Acompanhamos com uma leitura muito clara de onde esteve, historicamente, o digital. Nas TI, a digitalização focou-se sobretudo em trabalhadores de secretária e de back-office; na indústria, concentrou-se muito na automação de processos. O trabalhador da linha da frente ficou, durante anos, de fora dessa transformação. O que vemos agora é uma convergência entre estes dois mundos, e uma solução moderna tem de se posicionar em ambos, ligando o back-office à realidade do terreno. É exactamente aí que a Glartek actua: ligamos as equipas de EHS e a gestão aos operadores no campo, numa plataforma móvel, intuitiva e que funciona offline. O benefício é duplo, – os operadores ganham ferramentas que os apoiam nas tarefas diárias e a organização ganha dados fiáveis, recolhidos na fonte e em tempo real.

De que forma as vossas soluções contribuem para melhorar a segurança dos trabalhadores?
Melhoramos a segurança tornando visível o que antes não era medido. Ao captar observações, quase-ocorrências e dados de risco directamente no terreno, transformamos essa informação em indicadores avançados que permitem às organizações atuar antes de os incidentes ocorrerem.
Depois há os processos de risco elevado, onde não há margem para erro. O nosso controlo de trabalho digital, com suporte a processos de gestão de isolamento, passos de assinatura obrigatórios e rastreabilidade de auditorias, resolve as falhas a que os sistemas em papel dão azo.
Considera que as empresas estão mais preparadas para investir em soluções digitais do que há alguns anos?
Sim, e a mudança é notória. Há alguns anos a segurança digital era vista sobretudo como um custo; hoje é cada vez mais entendida como um investimento com retorno mensurável.
O que mudou também foi a exigência. As organizações já não querem ciclos de implementação de 6 a 18 meses nem consultoria permanente para cada alteração. Procuram algo que entre em funcionamento depressa, que a equipa consiga gerir e que demonstre impacto num piloto antes do alargamento. É exactamente essa a conversa que temos hoje com quem nos procura.
Há algum projecto recente que considere particularmente diferenciador e que possa partilhar?
Um projecto que destacaria é o que temos com a UM6P, em Marrocos. É particularmente interessante porque, apesar de ser uma instituição académica, opera em várias áreas, agregando requisitos de contextos muito distintos: tem exigências de ambiente fabril, de laboratório farmacêutico e, ao mesmo tempo, faz a gestão de activos muito complexos, tudo fora de um enquadramento puramente universitário.
O que o torna diferenciador são as três camadas de desafio que junta: humano (cultura, língua e distância), de âmbito (a diversidade de operações a cobrir) e tecnológico (um ambiente regulado, num país com requisitos próprios). Provar que a mesma plataforma responde a esta variedade, com adoção real no terreno, diz muito sobre a flexibilidade da solução.
Que novos produtos, funcionalidades ou soluções estão a desenvolver?
O nosso foco é endereçar o EHSQ de forma completa, e é isso que orienta o desenvolvimento actual. Temos estado a trabalhar numa nova versão da plataforma centrada na facilidade de utilização e na simplificação da experiência, tornar cada fluxo mais rápido e intuitivo para quem o usa no dia a dia.
A par disso, estamos a reforçar a componente de Ambiente, com melhores capacidades de recolha, tracking e reporting de dados ambientais, reaproveitando a informação que a equipa já capta no terreno. A lógica é sempre a mesma: gerar mais valor a partir dos dados que já existem, sem acrescentar burocracia.
A inteligência artificial está a transformar rapidamente a indústria. Como está a Glartek a incorporar IA nas suas soluções?
A Glartek é nativa em IA, mas a diferença mais importante é onde essa IA actua. A maioria das plataformas aplica IA no back-office, ajudando a gerar relatórios e na pesquisa e gestão de informação. Na Glartek, a IA funciona como uma camada extra de inteligência ao operar no ponto de execução: ajuda a guiar o operador em tempo real, pré-preenche a investigação de incidentes, prevê situações de risco e ajuda a fechar acções.
Este agente de inteligência artificial acompanha toda a rotina operacional, não sendo apenas uma camada de análise posterior. É essa a nossa aposta: colocar a IA ao lado de quem faz o trabalho, e não apenas ao serviço do relatório.
Existem áreas onde acredita que a IA terá um impacto particularmente significativo nos próximos anos?
A IA terá o impacto mais significativo nas áreas em que conseguir libertar as pessoas de trabalho repetitivo e ajudá-las a tomar melhores decisões. Vejo exemplos muito práticos: automatizar tarefas administrativas que hoje consomem tempo ao operador e ao gestor de EHS; prever situações de risco antes de se tornarem incidente; e apoiar a pessoa no momento, guiando-a e respondendo às suas dúvidas.
O resultado prático é simplificar o trabalho e reduzir custos, menos tempo em papelada, menos incidentes e decisões assentes em dados reais. Mas a nossa convicção mantém-se: a IA deve actuar no ponto de execução, ao lado do operador, e não apenas no back-office a gerar relatórios ou a processar informação.
Como imagina a fábrica ou a operação industrial daqui a cinco ou dez anos?
Imagino uma operação em que a prevenção deixa de ser reactiva. O operador continua a ser o profissional central, mas passa a estar acompanhado por um companheiro digital que lhe dá o procedimento certo no momento certo, valida documentos, responde a perguntas e regista dados sem fricção. A informação flui do terreno para a gestão em tempo real, e a organização consegue ver os sinais de risco antes de eles se transformarem em incidente.
Não acredito numa fábrica sem pessoas; acredito numa fábrica onde as pessoas estão melhor apoiadas e onde as decisões de segurança e qualidade assentam em dados reais recolhidos na fonte.
Em que áreas estão a concentrar o vosso investimento em investigação e desenvolvimento?
Concentramos boa parte do investimento em I&D em parcerias com o meio académico e científico, com destaque para projectos com o INESC-TEC. São projectos inovadores na intersecção entre segurança, qualidade e inteligência artificial, que nos permitem levar à plataforma capacidades que de outra forma demorariam muito mais a amadurecer.
Uma linha importante é a integração com o mundo físico: a utilização de sensores externos e de outros equipamentos para captar dados do terreno de forma automática e enriquecer a informação disponível. É I&D orientado a um objectivo concreto – antecipar o risco e apoiar melhor quem está no campo.
A internacionalização é uma prioridade estratégica?
É, sem dúvida, uma prioridade. Já operamos na Europa, no Médio Oriente e na América Latina, e a plataforma está disponível em vários idiomas. Mas fazemo-lo com um modelo que consideramos diferenciador: uma rede de parceiros locais certificados, capazes de acompanhar todo o ciclo do cliente, desde o levantamento inicial e a implementação até ao apoio continuado, na língua local e com conhecimento do contexto regulatório de cada país.
Para uma organização fora da Europa, isto significa não depender de uma equipa remota a falar uma língua estrangeira. Combina a profundidade de uma plataforma de EHSQ dedicada com a proximidade de uma equipa local.
O que podemos esperar da Glartek no futuro próximo? Existem novidades previstas para os próximos meses que possam antecipar?
Nos próximos meses vamos continuar a expandir: novas indústrias e casos de uso, mais parceiros locais certificados e a entrada em novos países, dando seguimento à nossa estratégia de internacionalização.
A grande novidade é o lançamento do Glartek 5.0, previsto para o primeiro trimestre de 2027. Será um marco importante nesta evolução e, nas próximas semanas, teremos mais para partilhar.









