Fundada em 1984, a Axis Communications tem introduzido diversas inovações no mercado da segurança electrónica. Em 1996 lançou a primeira câmara de rede, o que levou à passagem do analógico para a introdução do vídeo IP. Anos mais tarde, apostou no desenvolvimento do primeiro system-on-chip de vídeo de rede – o ARTPEC. 40 anos depois e com uma facturação global de 1,8 mil milhões de dólares, a empresa, com sede na Suécia, mantém-se empenhada na introdução e desenvolvimento de produtos inovadores no mercado da segurança. A Security Magazine falou com Ricardo Pereira, Portugal sales manager, da Axis sobre as tendências, inovação e novidades para este ano.
Security Magazine – Como foi o seu percurso profissional até integrar a Axis, como Portugal sales manager?
Ricardo Pereira – Iniciei o meu percurso na Axis em Setembro de 2016, depois de ter passado por um integrador de IT e pela Siemens, sempre ligado à área de soluções de segurança. A minha experiência até então estava fortemente centrada na pré-venda — desenhar soluções, escolher as tecnologias mais adequadas e alinhar tudo com as necessidades específicas de cada cliente. A vertente comercial, confesso, dizia-me pouco ou nada.
Quando o Pedro Alfaro me contacta com uma proposta para integrar a Axis, perguntei-lhe quais seriam exactamente as minhas funções. A resposta foi directa: área comercial. Respondi com alguma hesitação — “mas eu não sei vender”. E ele, com a mesma naturalidade, tranquilizou-me: “Tu não tens de vender nada. Só tens de saber explicar as soluções que temos”. Foi ainda mais claro: “Não te preocupes, trabalhamos 100% com a nossa rede de parceiros. O teu papel é mostrar o valor das nossas soluções.”
Agarrei a oportunidade. Na altura, já tinha passado cerca de um ano e meio desde que o Pedro tinha assumido o cargo de director ibérico, deixando Portugal sem presença directa. Entrei assim, com esse desafio em mãos: dar novamente presença à Axis em Portugal, com foco no desenvolvimento do canal, e sem a pressão directa da venda.
Desde então, o percurso tem sido não só desafiante como extremamente gratificante. Tenho tido a oportunidade de combinar o meu conhecimento técnico com a proximidade ao mercado, reforçando parcerias e contribuindo para o crescimento sustentado da marca em Portugal.
Nestes 10 anos sentes que houve muita diferença no mercado?
Olhando para trás, uma das maiores fontes de satisfação neste percurso é perceber o quanto crescemos desde que comecei. Desde 2016, conseguimos multiplicar quase por sete o volume de facturação, mantendo um foco claro no nosso core: a videovigilância.
É verdade que, ao longo do tempo, alargámos o portefólio com soluções complementares, como o controlo de acessos e a nossa plataforma de vídeo, mas sem nunca nos desviarmos daquilo que sempre fizemos bem. Optámos por não entrar em áreas demasiado distantes do nosso core, e acredito que isso fez toda a diferença.
O mercado também evoluiu. Hoje, há uma maior consciência sobre a importância de apostar em marcas fiáveis e soluções de confiança. Esse reconhecimento tem-nos permitido trabalhar com um leque cada vez mais diversificado de clientes. O retalho continua a ser uma área muito forte para nós, mas temos assistido a um crescimento significativo nas infra-estruturas críticas — um sector cada vez mais atento à segurança e à inovação tecnológica.
Quais são hoje os sectores com maior dinamismo?
O retalho é, sem dúvida, um sector histórico para nós e continua a ser muito relevante. Contudo, temos assistido a uma procura crescente por parte de infra-estruturas críticas e transportes, áreas cada vez mais conscientes da importância de soluções fiáveis e seguras. Curiosamente, também no segmento de edifícios – corporativos e hotelaria – temos sentido uma procura inesperadamente forte. São sectores que, no passado, decidiam sobretudo com base no custo, mas hoje valorizam cada vez mais a funcionalidade, fiabilidade e integração. Notamos um crescimento transversal, com as nossas soluções a serem procuradas de forma indiferenciada por vários sectores.
Considera que esse crescimento também é fruto de uma mudança do próprio mercado?
Sim, absolutamente. Há uma maior consciencialização sobre o papel da videovigilância e já se aceita melhor. Hoje, uma câmara é vista como um elemento de protecção e eficiência, não apenas como algo que nos está a vigiar.
Ao nível das cidades e vigilância urbana, têm desenvolvido projectos relevantes?
Sim, temos projectos de grande dimensão em várias cidades, com duas abordagens bem distintas consoante: as smart cities e as safe cities. Na vertente da segurança urbana, temos um longo histórico. Começámos com o projecto do Bairro Alto em 2011 – o primeiro sistema de videovigilância urbana em Portugal –, o qual já sofreu ampliações e alterações e é para nós um marco. Destaco também o projecto de Santarém. Contamos com diversas cidades que estão em fase de desenho ou aprovação e implementação. Prevemos que 2026 seja um ano muito forte nesta área, apesar de o ritmo abrandar em contexto eleitoral.
Na vertente smart city, temos colaborado com vários municípios em soluções como smart parking, contagem de pessoas ou gestão de fluxos urbanos em eventos. A câmara torna-se um sensor com múltiplas aplicações, integrando-se de forma discreta em projectos de maior escala. É um caminho que estamos a consolidar em várias cidades.
Vão reforçar a aposta na área das infra-estruturas críticas?
Sim, essa é uma aposta clara e onde sempre apostámos. Este é um mercado onde a continuidade de serviço é crítica e onde a qualidade é valorizada acima de tudo. Um sistema não pode falhar porque uma câmara avariou ou o perímetro ficou desprotegido. Sempre foi uma vantagem competitiva nossa, e agora vemos esse critério a expandir-se a outras áreas como logística, que hoje pode ser uma infra-estrutura crítica, e aeroportos. Estes últimos, por exemplo, conjugam várias vertentes – retalho, fronteira terrestre e área crítica aérea – onde qualquer falha pode comprometer operações e gerar perdas significativas.
Considera que esse crescimento referido também se deve à equipa?
Sem dúvida. Tenho a sorte de trabalhar com uma equipa altamente experiente, sénior, coesa e conhecedora do mercado. Quando entrei, em 2016, Portugal estava sem equipa local há cerca de dois anos. Hoje somos três pessoas (eu, o Paulo Silva e o Filipe Oliveira) dedicadas ao mercado nacional, com um conhecimento profundo do ecossistema e da tecnologia IP.
Gostaria de salientar que na Axis, quando há um aumento da equipa ele acontece de forma muito pensada e sustentada. Não se contrata ninguém a quem não possamos garantir trabalho por pelo menos dez anos. Se olharmos para a nossa estrutura, temos pessoas com 30 anos de casa.
A experiência acumulada da equipa de pré-venda na Axis, a nível ibérico, ultrapassa os 120 anos. Esse know-how permite-nos responder a projectos complexos com segurança e confiança. Esta base permite-nos actuar de forma muito mais estratégica e estruturada.
Em termos de parceiros e canais de distribuição, qual tem sido a vossa aposta? A nova parceria com a EET em Portugal é um exemplo dessa aposta e reforço?
A distribuição é, para nós, o cliente número um. A Axis só vende através de distribuidores, por isso, se essa engrenagem não funcionar bem, todo o resto da cadeia fica comprometido. São eles que fazem os pedidos à fábrica, o que torna a sua performance essencial para garantir o abastecimento e a disponibilidade.
A recente parceria com a EET não surgiu para dividir o bolo, mas para fazer o bolo crescer. Esta sempre foi a nossa visão: crescer em conjunto. Todos os nossos distribuidores evoluíram connosco, e a entrada da EET reforça esta lógica. A procura tem sido elevada e, para responder de forma eficaz, precisávamos de um parceiro com estrutura, experiência no terreno e capacidade de chegar aos clientes. A EET preenche esses requisitos.
Além disso, a EET já tinha conta aberta em Espanha, o que nos ajuda na cobertura ibérica, e sendo um distribuidor dinamarquês, faz todo o sentido dentro da lógica global da Axis. Herdámos também uma equipa com conhecimento local, o que facilita ainda mais a integração. E, por fim, tem pessoas dedicadas à área de áudio, a qual é importante para nós.
Queremos que, no final de 2026, todos os nossos parceiros tenham crescido, estejam satisfeitos e ocupem a sua quota de mercado de forma sólida e sustentável.
E ao nível dos parceiros (instaladores/integradores)?
Com a entrada do Filipe Oliveira, conseguimos dedicar mais tempo e atenção aos nossos principais parceiros. O nosso crescimento não tem sido apenas em volume, mas também em qualidade de relação. Estamos próximos de quem realmente aposta connosco. O facto de estarmos divididos entre Lisboa e Porto permite-nos uma presença mais equilibrada e eficaz no território nacional.
Temos vindo a crescer também em parcerias com integradores que actuam para além da área da segurança. Muitos já nos acompanham na expansão para a transformação digital — nomeadamente o business intelligence. Este é um mercado gigantesco onde temos desenvolvido soluções com integradores com outro perfil.
Têm parcerias estratégicas de longa duração?
Sem dúvida. Somos bastante estáveis nesse aspecto. Trabalhamos com parceiros como Siemens, Prosegur, Securitas — empresas que estão connosco há mais de uma década. E, mais do que manter essas parcerias, temos crescido juntos. O que fazíamos há 10 anos e o que fazemos hoje são realidades muito diferentes.
Acreditamos em relações de longo prazo, construídas com investimento técnico e comercial de parte a parte. Há formação, compromisso e alinhamento de valores. Estamos muito satisfeitos com o caminho que temos feito juntos.
Qual é a vossa proposta de valor? O que vos distingue num mercado tão competitivo?
O mercado é competitivo, claro, mas nós abordamos os projectos como um todo. Existe ainda o mito de que a Axis é mais cara, mas desafiamos os clientes a fazerem as contas com base no custo total de propriedade (TCO), por exemplo. Muitas vezes, soluções tidas como “baratas” acabam por sair mais caras ao longo do tempo.
Hoje, sabemos que quem valoriza a funcionalidade, fiabilidade e retorno do investimento não olha apenas para o preço inicial. Temos clientes em áreas sensíveis ao preço, como cadeias de restaurantes, que nos escolhem porque percebem o valor acrescentado das nossas soluções. O barato só é barato para quem pode pagar duas vezes, como já ouvi dizer algumas vezes. O nosso foco são clientes que valorizam qualidade, segurança e fiabilidade. Se resolvemos a necessidade do cliente, o produto fica mais barato ou sem custo pois o retorno do investimento, por vezes, é imediato.
O preço continua a ditar o mercado?
O preço dita cada vez menos a decisão final das grandes empresas. Porém, há mercados onde o preço continua a ser rei e a pesar na decisão final. Acredito que os clientes estão cada vez mais informados e a valorizar os aspectos que referi.
O que está a impulsionar o mercado tecnologicamente? Que tendências identifica?
As grandes tendências são a Inteligência Artificial e a cibersegurança. É verdade que o termo IA está a ser amplamente usado — muitas vezes até como substituto para funções que já existiam, como a analítica de vídeo. Ou seja, embora a IA seja um hype, estamos atentos e a trabalhar nisso. Obviamente que a IA está a mudar muita coisa e trazer novas possibilidades e adeptos do vídeo, mas devemos estar conscientes e alertar, enquanto profissionais, que a IA não vai resolver todos os males do mundo.
Que novidades destacaria no mercado, desenvolvidas pela Axis?
A Axis sempre fez um grande investimento em inovação. Temos sido pioneiros na abordagem às analíticas na câmara — com soluções próprias e de parceiros. Actualmente, um equipamento tem muito mais capacidade de processamento do que há uns anos.
No início do ano lançámos a nova geração do nosso chipset, o ARTPEC-9, tem muito mais capacidade de processamento, deep learning, permitindo análises mais avançadas directamente no edge. Contamos com uma versão híbrida, em que podemos fazer parte do processamento no dispositivo e outra parte no servidor.
Além disso, lançámos o Axis Camera Station com Smart Search 2, uma funcionalidade de pesquisa por texto livre em cima de vídeo gravado, que permite ao operador encontrar rapidamente imagens de objectos relevantes (ex.: uma marca de carro, alguém de boné, um saco…). É uma funcionalidade on prem, no servidor, não depende da cloud, vem incluída no software e permite auxiliar uma vertente que, muitas vezes, é esquecida quando se desenha um sistema. Hoje 80% do tempo de um operador é gasto na procura de vídeo gravado. Com esta funcionalidade, essa tarefa é melhorada em termos de rapidez.
Temos apostado também em soluções como controlo de acessos, QR codes, leitores Bluetooth, novos videoporteiros com o objectivo de tornar tudo mais intuitivo.
Há uns anos falávamos sobre a aposta na área de radares. Essa continua a ser uma aposta da Axis?
Sim, os radares são uma grande aposta. Inicialmente pensados para segurança perimetral, descobrimos aplicações muito relevantes em áreas operacionais — como controlo de velocidade de veículos pesados ou empilhadores em ambientes industriais – ou seja, numa vertente de Safety. Em breve, lançaremos novos equipamentos fruto de projectos desenvolvidos em Portugal.
Portugal tem quase um papel de laboratório?
Portugal é um early adopter, ou seja, é muito receptivo a nível tecnológico, e os radares são disso exemplo.
Fizemos testes, recolhemos feedback do mercado e ajudámos a moldar um novo produto que será lançado em breve, depois do Verão, com maior alcance e novas funcionalidades. Este envolvimento é possível graças à nossa equipa local experiente e muito ouvida dentro da organização.
Que características inovadoras têm esses novos radares?
Não posso revelar muito, mas as melhorias têm a ver com alcance, arquitectura e área de cobertura. Sempre pensado numa óptica de redução de custos de instalação e manutenção.
A cibersegurança tem sido fortemente destacada pela Axis. Que investimentos têm feito na área da cibersegurança?
A cibersegurança sempre foi um pilar na Axis — mesmo antes de se tornar um tema de mercado. Temos uma política de zero trust, em que cada dispositivo deve garantir a sua própria segurança.
Levamos este tema muito a sério. Os nossos clientes não podem correr riscos de paragens de serviço ou ataques como ransomware. Investimos fortemente na prevenção — desde o securiy by design até ao desenvolvimento contínuo de firmware e programas como bug bounty, que premiam hackers éticos por descobrirem vulnerabilidades.
Acreditamos que a segurança não se resume a cumprir normas. Os standards definem mínimos, mas vamos além disso. Mais do que um stardard, normas e certificados, o importante é garantir que o produto garante cibersegurança. Esta é a nossa forma de estar. Garantimos ferramentas de actualização simples para os operadores, promovemos transparência total e entregamos soluções que asseguram resiliência e continuidade de serviço. Além disso, temos ferramentas que garantem que todos os dispositivos estão actualizados até à última versão de firmware.
No caso da NIS 2, considero que esta não é a má da fita, mas sim algo que devemos olhar como uma ferramenta que nos ajudará a ter maior nível de ciberesiliência aos ciberataques e garantir continuidade do negócio.
Como vê o mercado português?
O mercado português está mais maduro e conhecedor do que procura e necessita. A percepção sobre as câmaras mudou — deixaram de ser vistas como instrumentos de vigilância para serem entendidas como ferramentas de protecção e a aumentarem o sentimento de segurança. A Lei de Protecção de Dados gerou impacto e receio inicial, mas hoje o mercado está mais informado e consciente.
Acredito que o mercado continuará a crescer, embora a um ritmo mais moderado, e que as câmaras serão cada vez mais inteligentes e optimizadas. No caso das cidades, acredito que todas terão os seus sistemas de videovigilância urbana a trabalhar com e os seus sistemas de smart city. Gostaria que existissem mais sinergias, de forma que uma câmara fosse utilizada para mais do que uma funcionalidade. Apostamos numa visão em que uma câmara faz mais do que apenas gravar — contribui para a mobilidade, segurança, gestão urbana e outras funcionalidades.
Quais os planos têm para Portugal? Vai haver expansão da equipa ou escritório próprio?
Do ponto de vista da expansão da equipa, acreditamos e é provável que sim. O crescimento do negócio e das oportunidades de futuro dá-nos bons indicadores que será necessário mais um recurso. Além disso, a entrada em novas áreas, como a transformação digital, está a gerar um volume de trabalho superior para o qual estamos dimensionados. É provável que venhamos a reforçar a equipa.
Quanto ao espaço físico próprio, temos o nosso Experience Center em Madrid, que serve Portugal de forma eficiente — fica a apenas 50 minutos de Lisboa ou 45 do Porto de avião. Tem funcionado muito bem para receber clientes e parceiros. Só faria sentido ter um espaço próprio em Portugal se isso viesse acompanhado de um aumento efectivo da equipa e novas necessidades operacionais. Para já, não sinto essa necessidade.
Lembrando o percurso que fizeram com o IP, considera que em termos de futuro tecnológico existirá alguma coisa disruptiva?
Sim, a Axis adaptou o codec de compressão utilizados em plataformas de streaming para o mercado de videovigilância. Estamos a ser pioneiros em adaptar uma tecnologia madura para optimizar o streaming para as plataformas cloud, que é onde se prevê o maior crescimento do mercado nos próximos anos.
Há clientes que já não querem gravação local — querem tudo na cloud. Para isso, são necessários algoritmos mais leves, que reduzem o espaço necessário, aumentam a eficiência e mantêm o desempenho elevado e um tratamento descentralizado. Isso permite analíticas mais avançadas e menor peso na transmissão.
A Axis prepara-se sempre com antecedência. Os nossos ciclos de desenvolvimento de um novo produto são de dois anos, com uma forte visão de futuro. Temos orgulho em pensar a médio e longo prazo — não apenas em seguir tendências, mas em construir tecnologia com impacto real.
Tenho um orgulho enorme de trabalhar na Axis pois tem esta visão. Estamos no mercado a fazer coisas, com os nossos valores, apostamos muito em parcerias, temos a nossa equipa local e tentamos fazer o melhor todos os dias para cumprir os nossos objectivos. Gosto de sentir que estamos a contribuir para a obra feita e a fazer parte da solução.









