O Santuário de Fátima recebe, todos os anos, milhões de peregrinos vindos de diferentes partes do mundo. Garantir que cada visita decorra em segurança, sem perder o ambiente de recolhimento e paz que caracteriza este espaço, é um desafio diário. À frente dessa missão está André Silva, director do departamento de vigilância e gestão operacional do Santuário de Fátima, estando responsável por coordenar operações que, nas grandes peregrinações, podem envolver até 300 mil pessoas em simultâneo. Nesta entrevista à Security Magazine, fala do seu percurso profissional e das responsabilidades que hoje assume, dos principais desafios enfrentados e do papel decisivo das tecnologias e das forças de segurança na protecção de um dos mais importantes destinos religiosos do mundo.
Security Magazine – Como foi o seu percurso profissional até chegar às actuais funções?
André Silva – Como agente técnico de Arquitectura e Engenharia a minha actividade profissional foi no âmbito da construção civil, durante cerca de 10 anos. No contexto da crise económica de 2008, deixei o sector da construção e ingressei no Santuário de Fátima, como Vigilante-Sacristão. Comecei a desenvolver um grande interesse pela área da segurança e fui progredindo na função, passando a chefe de secção dos vigilantes-sacristães em 2013. No ano de 2017, assumi a coordenação de segurança da visita do Papa Francisco a Fátima e, em 2018, assumi a direcção do departamento de vigilância e gestão operacional, função que ainda ocupo.
Quais são as suas maiores responsabilidades actualmente?
O departamento de vigilância e gestão operacional tem a seu cargo as áreas da vigilância, do apoio às celebrações religiosas e do apoio funcional. Enquanto director de segurança, uma das grandes responsabilidades traduz-se na coordenação de operações do Santuário de Fátima, em articulação com entidades externas com responsabilidades no âmbito da segurança e socorro. São operações que, nas grandes peregrinações, envolvem a gestão de 200 a 300 mil pessoas no mesmo espaço, em simultâneo, sendo preciso cuidar de todos os aspectos inerentes à preparação e acompanhamento destes momentos. Esta é, sem dúvida, uma das principais responsabilidades do director de Segurança.
Além da coordenação de grandes peregrinações, durante todos os dias do ano, é necessário estar em permanente vigilância dada a enorme afluência de peregrinos e visitantes. A título de exemplo, em 2024, o Santuário de Fátima foi visitado por cerca de 6,2 milhões de peregrinos.
Às questões de segurança aliam-se as responsabilidades decorrentes do apoio às celebrações e a atenção a todos os detalhes na preparação quer das grandes peregrinações quer das celebrações diárias do Santuário.
Como está organizado o departamento/estrutura de segurança do Santuário de Fátima?
O departamento de vigilância e gestão operacional assume a coordenação das questões de segurança, sob supervisão da Reitoria do Santuário, em articulação com os diversos departamentos e serviços.
Na sua estrutura, o departamento tem uma equipa que garante o apoio administrativo e planeamento das operações, um grupo de coordenação e uma equipa, com algumas dezenas de vigilantes e sacristães, com funcionamento 24h/7dias por semana.
Quais os principais desafios de segurança que o Santuário enfrenta actualmente?
Os desafios de segurança no Santuário passam pela necessidade de uma adequação constante desta actividade ao número de visitantes e aos ritmos celebrativos. A garantia da preservação de um ambiente seguro e propício ao recolhimento e à oração são os objectivos nucleares e para os quais confluem todas as vertentes da segurança. Este desafio é tanto maior quanto maior é a afluência de visitantes e a diversidade e complexidade das celebrações e de outros eventos.
Quais os protocolos de segurança adoptados em dias de maior afluência?
Em dias de maior afluência é fundamental que haja uma boa articulação com os diversos agentes de segurança e protecção civil.
O planeamento de cada acção é feito com antecedência e em articulação com todas entidades envolvidas, que tanto podem ser locais, distritais, nacionais ou internacionais, dependendo do tipo de evento em causa.
Os protocolos de segurança são elaborados em conjunto com as entidades e coordenados pelo Santuário de Fátima, abrangendo diversas dimensões: segurança física, cibersegurança, protecção e socorro, entre outras.
Considero fundamental para o sucesso das operações a existência de um sólido planeamento e uma ágil articulação entre todas as entidades envolvidas.

Quais são os grandes desafios impostos à gestão de multidões de grandes eventos?
A dinâmica das multidões é muito complexa e requer uma análise atenta e minuciosa aos comportamentos individuais e colectivos, antes, durante e depois dos eventos. É essa análise, na qual nos empenhamos permanentemente, que permite evitar situações de perigo e garantir um ambiente seguro.
A gestão de multidões impõe, por outro lado, uma dimensão e detalhe de necessidades logísticas no acolhimento aos peregrinos que, por si só, é um grande desafio. O desafio aumenta por ocasião da vinda de Sua Santidade, atendendo aos cuidados com a própria segurança do Papa.
Outro desafio correlacionado com os anteriores, é a sincronização e articulação dos diversos intervenientes (funcionários e voluntários) para garantir as dinâmicas e a beleza das celebrações. Todos os aspectos celebrativos são trabalhados para garantir uma boa experiência ao peregrino. Um exemplo concreto é a realização de procissões ou a distribuição da sagrada comunhão que envolvem a acção de centenas de voluntários.
Qual o papel das tecnologias na segurança do Santuário? Contam com câmaras de videovigilância em todo o recinto? Existem planos para incorporar IA ou sistemas automatizados de alerta?
As tecnologias são, cada vez mais, um elemento importante e a ter em conta na complementaridade à acção humana dos diversos agentes que contribuem para a segurança. Seja os vigilantes do Santuário, os colaboradores da empresa de segurança privada, a Guarda Nacional Republicana, os Bombeiros e outras entidades ou agentes de Protecção Civil.
O Santuário conta com diferentes tipos de sistemas, destacando: o sistema de videovigilância no recinto e imediações em que a GNR de Fátima é responsável pela monitorização, por protocolo com o Santuário; o sistema de CCTV próprio do Santuário nos seus diversos edifícios; o sistema de contagem de pessoas utilizando videovigilância, que está em fase de implementação, e que faz contagem nas Basílicas e recinto de oração e, por fim, o sistema de controlo de acessos electrónico integrado nos diversos edifícios.
Temos em curso a implementação de projectos que incorporam mecanismos de automatização de alertas e ferramentas de Inteligência Artificial, em conformidade com o quadro legal do âmbito em que se inserem.
Qual o papel das forças de segurança no apoio às operações do Santuário?
As forças de segurança têm um papel fundamental, nomeadamente a Guarda Nacional Republicana (força territorialmente competente) no apoio às operações do Santuário, assim como as entidades e agentes de Protecção Civil que nos respectivos âmbitos assumem diferentes responsabilidades. No apoio às operações no Santuário, destacam-se ainda a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, os Bombeiros de Fátima, a Autoridade de Saúde e o Município de Ourém.
O papel das forças de segurança, é essencial como agente impulsionador e garante último dos cuidados de segurança na cidade de Fátima. Nos grandes eventos, o seu papel é reforçado considerando o risco acrescido e que o próprio Estado português coloca na prevenção e na garantia dos cuidados de segurança da cidade e do país.
Devo reconhecer que existe uma óptima relação entre todas as entidades, o que tem feito de Fátima um exemplo de cooperação entre instituições públicas e privadas, que fazem um esforço diário para possibilitar o melhor acolhimento e segurança a quem visita o Santuário e a cidade de Fátima.
O Santuário colabora com outros locais religiosos ou destinos de peregrinação internacionais em matéria de segurança?
O Santuário predispõe-se sempre a colaborar e a partilhar as suas experiências com outros destinos de peregrinação, sendo requisitado, regularmente, para partilhar a sua realidade e experiências em diversos âmbitos, nomeadamente em matéria de segurança.
Na vertente da segurança, o Santuário de Fátima colabora com o Projecto Shires que tem o apoio da União Europeia, uma plataforma de partilha de realidades e experiências que envolve quatro confissões religiosas – católica, judaica, islâmica e protestante – com o objectivo de explorar oportunidades de cooperação para proteger locais de culto.
Que projectos ou medidas têm sido implementados recentemente para reforçar a segurança do espaço?
A estratégia do Santuário para reforçar a segurança tem estado assente no reforço das suas capacidades internas e no fortalecimento da cooperação com entidades externas.
Entre as diversas medidas implementadas destaco algumas das acções concretas como o reforço do efectivo de vigilância com a contratação de empresa de segurança privada que, desde 2018, veio criar um sistema complementar à acção dos Vigilantes-Sacristães do Santuário que, desde 2022, estão integrados em Licença de Autoprotecção emitida pela PSP.
Além disso, destaco o aumento gradual do investimento na implementação de sistemas de monitorização, no âmbito da videovigilância, controlo de acessos e intrusão nos seus diversos espaços, seja para uso interno do Santuário ou para utilização de entidades externas que colaborem com o Santuário.
Desde a pandemia, um reforço das equipas de voluntariado para o acolhimento, possibilitam uma maior proximidade com as necessidades dos peregrinos e visitantes. De uma forma regular, destaco a colaboração do corpo próprio de voluntários do Santuário, os voluntários da Associação de Servitas de Nossa Senhora de Fátima, o Corpo Nacional de Escutas e a Fraternidade Nuno Alvares – Escuteiros Adultos, sendo que pontualmente contamos com a colaboração de outros voluntários como a Ordem de Malta ou outros grupos.
Recentemente, criámos uma matriz única de identificação de espaços, na cidade de Fátima, e estamos a trabalhar na implementação de um folheto de informação sobre cuidados de segurança a observar pelos peregrinos e visitantes, em diversas línguas, com a colaboração da Guarda Nacional Republicana, a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, a Autoridade de Saúde e o Município de Ourém.
Por último, destaco o cuidado do Santuário em integrar as questões da segurança na componente da concessão, construção, preservação e manutenção do seu edificado, como: as basílicas, o recinto de oração, as casas de retiros, as unidades comerciais, os espaços museológicos, o centro Pastoral Paulo VI, os espaços na aldeia de Aljustrel e Valinhos, entre outros.
A atmosfera de paz que se sente no Santuário de Fátima é constantemente referida por peregrinos e visitantes. Para ela concorrem muitos factores, como a harmonia da construção, a beleza das celebrações, o cuidado com os espaços. Porém, essa “sensação de paz” que os peregrinos reconhecem experimentar no Santuário encontra explicação também nas opões de vigilância e de segurança que têm sido tomadas. Por um lado, conseguem o difícil equilíbrio de serem discretas e eficazes. Por outro, ao não se exibirem pela força e pela intimidação, são coerentes com a mensagem de paz que está na origem deste Santuário.









