Uma entrevista sobre disciplina, vocação, tecnologia e o futuro da segurança na construção
Durante mais de três décadas dedicadas à gestão de riscos em obras de grande complexidade, Manuel Tender tem vivido a construção civil por dentro: nos túneis, estaleiros, equipas e decisões que exigem rigor, disciplina e humanidade. Movido por uma curiosidade que nasceu ainda em criança – entre as pontes de Lego e túneis improvisados na área – fez da prevenção e da segurança uma missão. Ao longo do percurso, encontrou pessoas que marcaram a sua visão, desde os missionários da segurança aos que fazem da obra um lugar de aprendizagem e crescimento. Num sector onde ainda persistem resistências culturais, défices de formação e condições de trabalho desafiantes, Manuel Tender defende que a segurança não é apenas técnica e, sim, comportamento, liderança, ética e cuidado de pessoas – incluindo a saúde mental, tantas vezes esquecida nos estaleiros. O responsável acredita que a tecnologia, quando aplicada com sentido humano, tem o potencial de optimizar processos, transformar práticas e, em última instância, salvar vidas.
Security Magazine – O que o levou a enveredar pela área de gestão de riscos, especialmente em projecto de grande complexidade?
Manuel Tender – Este tipo de empreendimentos sempre me interessou bastante. Recuo até à infância e lembro-me de como as obras me fascinavam – desde as pontes construídas em Lego, para ligar dois sofás, aos túneis-escavados na área da praia. Fiz a minha carreira académica e profissional na área de gestão de riscos por diversos motivos: embora planeemos detalhadamente cada actividade, o nosso dia a dia em obra nunca é igual e estamos sempre sujeitos a desafios inesperados; a complexidade técnica, muitas vezes com condicionalismos externos como os maciços rochosos subterrâneos, a presença do rio ou mar, introduz complexos desafios geotécnicos, logísticos, ambientais, de engenharia e regulamentares; a interdisciplinaridade, que nos obriga a sair da zona de conforto e a ser apreendedores toda a vida; o engajamento com metodologias avançadas de gestão de risco; o poder fazer evoluir a cidade com novas infraestruturas; a oportunidade de aplicar a inovação tecnológica à segurança e saúde; a possibilidade de trabalhar com empresas de grande dimensão para as quais a prevenção é um tema em cima da mesa.
Qual o projecto que mais o desafiou ao longo da sua carreira de cerca de 30 anos e porquê?
Sem dúvida, o projecto do Túnel do Marão, realizado entre 2009 e 2016. O meu pai, transmontano de Mirandela, falava desde há décadas da necessidade de um túnel que ligasse o Douro Litoral a Trás-os-Montes. Talvez tenha sido a primeira vez que ouvi falar de obras e, nessa altura, fiquei fascinado com a ideia de trabalhar por baixo da terra, no meio da Serra do Marão. Foi um projecto extremamente complexo devido à sua localização, aos prazos estipulados e condicionalismos existentes. Fui uma das primeiras pessoas a integrar o projecto e uma das últimas pessoas a sair, o que também me marcou.
Como vê a evolução da cultura de segurança em obra desde o início da sua carreira até hoje?
A cultura de segurança tem evoluído, mas os desafios também. Os projectos são cada vez mais complexos, com prazos mais apertados e orçamentos mais restritos. Esta evolução é particularmente evidente nas grandes empresas – designadamente as cotadas em bolsa, para as quais qualquer acidente em obra impactar directamente o seu valor – que já adoptam uma cultura pró-activa, reconhecendo que a segurança é responsabilidade de todos e fundamental para o sucesso e sustentabilidade dos projectos, e já estabeleceram nas suas prioridades o garantir das condições de segurança e saúde necessárias aos seus próprios trabalhadores. No entanto, ainda temos um caminho muito grande a percorrer para nos aproximarmos das grandes multinacionais que cada vez mais invadem o mercado português. O problema é que, muitas vezes, estas obras de empresas multinacionais têm como principais intervenientes as PME nacionais que, embora, em grande parte, tenham alvará e cumpram os requisitos estipulados para entrada em obra, pouco ou nada têm de capacidade técnica, muito menos cultura de segurança. São empresas que não priorizam nem investem na segurança, – por exemplo, ao não fornecerem adequadamente os equipamentos de protecção individual e colectiva que são legalmente obrigatórios e gratuitos para o trabalhador. Continua igualmente a existir pouca cultura de segurança na fase de projecto. Não se pensa na segurança desde o desenho de uma nova obra – exemplo crasso é a Casa da Música, um edifício com arquitetura única, mas cuja construção envolveu riscos desnecessários.
Quais considera ser os principais riscos emergentes nos grande projectos actuais?
Além da falta de cultura já referida, destacaria em primeiro lugar a escassez de mão de obra especializada. A saída de muitos trabalhadores portugueses para o estrangeiro durante a crise 2012-2016 e, mais recentemente, a entrada de mão de obra estrangeira para colmatar as necessidades do desproporcionado volume de obras publicas e privadas em curso e a iniciar faz com que muitos destes trabalhadores apareçam nas obras sem possuir o “saber-fazer” básico. Muitos desses trabalhadores são provenientes de países onde as condições de trabalho são deficitárias e, em Portugal, não recebem a devida formação contínua e especializada sobre os riscos associados à sua actividade. A isto acresce a barreira linguística. Tudo isto pode ter repercussões na produtividade, segurança, e qualidade do trabalho.
Outro risco emergente é a mudança das preferências vocacionais das gerações mais jovens, que se afastam do sector da construção – tradicionalmente visto como mais duro, com mais dificuldades de conciliação entre a vida profissional e pessoal do que áreas como as novas tecnologias.
Paralelamente, muitos dos trabalhadores menos jovens, com experiência relevante, emigraram durante a crise de 2012, e outros, já mais velhos, estão a reformar-se, o que significa uma perda de uma geração valiosa de “bem saber-fazer”.
É igualmente preocupante a ausência ou falta de rigor no planeamento e monitorização da segurança. Assim, surgem os “facilitismos” e as conhecidas justificações para os incumprimentos de segurança – “já faço isto há 20 anos e nunca tive um acidente”.
A pressão produtiva decorrente da necessidade de cumprimento de orçamentos (geralmente com margens reduzíssimas) ou prazo (geralmente irreal) acompanhado da necessidade de produzir uma grande e pesada quantidade de documentação técnica gera contratos de trabalho desadequados, carga de trabalho excessiva e falta equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Tudo isto contribui para práticas menos seguras (depressa e bem não há quem…).
Adicionalmente, é assumido pela sociedade que o “trabalhador da construção é um durão”, que não tem dificuldades emocionais. Esta situação leva muitos profissionais a não deixar expressarem emoções nem pedirem ajuda, muitas vezes por vergonha, aparecendo um tema que é ainda um estigma em Portugal: as questões de bem-estar e saúde mental, nomeadamente, alterações de humor, stress, ansiedade, depressão ou abuso de substâncias. Com isto, verifica-se um menor rendimento e consequente menor produtividade e maior probabilidade de ocorrência de acidentes de trabalho.
Os métodos tradicionais de formação muitas vezes não conseguem atingir os objectivos desejados devido às limitações pedagógicas significativas. Muitas acções assentam em apresentações estáticas e sem elementos de formação práticos.
Muitas vezes, os trabalhadores já presenciaram algo semelhante ao longo da semana, em diferentes estaleiros. Um trabalhador que está um dia em cada estaleiro, no final da semana foi alvo de cinco acções de acolhimento, provavelmente muito similares. Isto reduz o envolvimento dos trabalhadores, leva à falta de interesse, impedindo a retenção e recuperação de conceitos críticos de segurança. Os vídeos têm alto grau de realismo, mas não podem ser facilmente modificados e nem sempre mostram ao praticante detalhes suficientes para uma determinada etapa ou processo. Além disso, por serem conteúdos passivos, não testam verdadeiramente a compreensão do trabalhador, sendo que este deve esperar até que execute fisicamente o que lhe foi ensinado. Acrescem os projectos com cronograma intensivo, os quais têm restrições de tempo, pois a formação no local interfere nas actividades normais de construção, o que reduz a produtividade.
Persistem igualmente condições de trabalho precárias – andaimes sem guarda-corpos e escadas interiores, valas sem entivação, trabalhos em coberturas sem protecção contra quedas em altura, não uso de capacete ou botas de protecção. Todas estas situações, que ainda encontramos em qualquer curto passeio pelo meio da cidade, consubstanciam falhas regulamentares e básicas do Regulamento Geral de Segurança na Construção datado de 1958 ainda em vigor. Outro risco é a regulamentação desactualizada. O referido Regulamento ainda não foi revogado, estando assim desactualizado face ao avanço da tecnologia e restante legislação. Destaco também o excessivo foco na documentação, sendo criados procedimentos extensos, desestruturados, difíceis de compreender e, pior, não integrados no planeamento da obra, com revisões desnecessárias, podendo levar a uma burocratização da prevenção que não é útil para a minimização de riscos. Além disso, destaco a falta de tempo para captar e interpretar lições aprendidas, designadamente os erros, potenciando a ocorrência de erros/falhas similares. Estas lições geralmente ficam retidas nos registos dos projectos e memória dos seus intervenientes, o que dificulta a sua acessibilidade, partilha e divulgação.
Por fim, destaco o factor da digitalização. O sector apresenta uma baixa taxa de adopção de tecnologias digitais e existe ainda um fosso assinalável entre as grandes empresas de construção e as PME. A digitalização leva a uma mudança de paradigma nos actos de conceber, fazer e manter levando a uma natural optimização de processos. No entanto, o sector actualmente não obriga, ao contrário de outros países, à utilização de Building Information Modelling (BIM) para a execução de projecto e obra o que dificulta a sua adopção. Adicionalmente, existe uma grande resistência dos intervenientes em alterar os processos que usam há anos. A curva de aprendizagem existe, como em qualquer introdução de uma nova tecnologia, mas (como nos diz a experiência de outros países) o retorno de investimento existe num prazo não muito longo.
Como se garante uma coordenação eficaz da segurança quando há dezenas de entidades envolvidas num mesmo projecto?
Garantir essa coordenação é um desafio complexo, mas essencial para prevenir acidentes. É essencial entender que um empreendimento não tem o lado do dono de obra/fiscalização e o lado do empreiteiro, tem apenas um lado: o que persegue o objectivo final.
Vários pilares fazem parte dessa coordenação:
- A figura do dono do projecto revela-se crucial para o sucesso de todo o processo de coordenação, uma vez que estipulará o nível de segurança a atingir e os requisitos mínimos a atingir.
- Uma liderança a todos os níveis que impliquem chefiar alguém. Que não deixe dúvidas na orientação pretendida e para o grau de tolerância a aceitar no cada vez mais pertinente dilema segurança/produção. Que sirva de maestro para a orquestra de múltiplos interesses, sensibilidades e agendas. Vinculada, que aceite que não sabe tudo, que saiba pedir apoio e maximizar o potencial de cada colaborador. Que crie e motive equipes saudáveis, justas, capazes e visionárias, que trabalhem com grandes princípios éticos satisfação no trabalho. Que trate os trabalhadores de forma construtiva e como algo mais do que uma “peça descartável”.
- Uma comunicação permanente, aberta, transparente, colaborativa com uma matriz de comunicação agilizada. Colaboração, perspectiva construtiva, perceber que o empreiteiro é que tem de “fazer a omolete” e que a fiscalização e coordenação de segurança deve ajudar, não complicar. Falar-se todos os dias, ao início do dia. Dou o exemplo que, como Coordenador de Segurança e Saúde em fase de obra, a primeira tarefa que tenho é ir ao escritório do empreiteiro perguntar à equipa de gestão de segurança se está tudo bem, em que posso ajudar. Assim permite-se uma clara compreensão de cada ideia, criando laços de confiança fortes minimizando assim a probabilidade de ocorrência de conflitos.
- Um correcto balanceamento (50/50) entre planeamento e monitorização é muito importante. Não vale de nada ter um excelente planeamento e depois não se monitorizar devidamente. Do mesmo modo que não vale a pena estar sempre a monitorizar se não existir uma base de planeamento que indique o que e como se deve monitorizar.
Estas medidas, combinadas com um compromisso firme de todos os envolvidos, garantem uma coordenação eficaz da segurança, mesmo em projectos complexos e multidisciplinares.
Que tecnologias têm, na sua opinião, maior potencial disruptivo na prevenção de acidentes em obra?
O aparecimento de novas tecnologias, tais como o BIM, Realidade Virtual (VR), Realidade Aumentada (RA), Internet das coisas (IoT), Teleoperação (veículos aéreos ou terrestres não tripulados), Big Data (BD), Inteligência Artificial (IA) leva a que estas ferramentas comecem a tornar-se uma nova solução, como potencial disruptivo, à crescente necessidade de optimização de processos, procedimentos, tomadas de decisão e modelos de negócios, bem como a uma mudança de paradigma na gestão de riscos no ciclo de vida do edificado. Relembre-se o estipulado nos Princípios Gerais de Prevenção que referem que deve ser atendido o estado de evolução da técnica. Isto tem todo o potencial para levar a um novo paradigma na gestão de riscos e permitir que a digitalização comece a ajudar a salvar vidas.
Quais as vantagens da tecnologia BIM?
A tecnologia BIM tem vingado sendo que a experiência de uso internacional de BIM nos explica as suas vantagens:
- Notificação mais rápida sobre os riscos que não puderam ser evitados na fase de projecto, bem como sobre as medidas preventivas e as condições correspondentes no local e área circundante;
- Melhora a capacidade de identificar, antecipar e minimizar riscos e conflitos antes do aparecimento de problemas no estaleiro de obras, facilitando a melhor identificação de perigos e riscos e permitindo a resolução imediata de problemas, economizando tempo e custos;
- A integração do planeamento de segurança e planeamento de produção, que permite aos gestores de segurança reconhecer quando, onde e por que as medidas de segurança previstas nos planos de segurança devem ser utilizadas;
- Pode aumentar a capacidade de reconhecimento de riscos dos trabalhadores, o que torna a comunicação em tempo real entre gestores de segurança e trabalhadores mais eficaz e, assim, reduz a probabilidade de acidentes;
- Corresponde a um acesso e disseminação de informações mais rápidos, com a capacidade de transpor facilmente a barreira linguística, melhorando as ações de formação e a comunicação entre os participantes, sendo os resultados facilmente utilizados para fins de formação;
- Permite uma simulação espacial e temporal do estaleiro de obras e das tarefas em andamento, otimizando o planejamento, melhorando a logística e a produtividade, permitindo uma análise mais eficiente dos problemas e potencialmente reduzindo custos e desperdícios de tempo;
- A simulação antecipada da sequência de tarefas leva à identificação antecipada de diversos cenários, com suas oportunidades e problemas, permitindo avaliação das vantagens e desvantagens de cada cenário;
- Permite a comparação entre o que está planeado e está a ser executado, por exemplo, na implementação de protecção colectiva;
- Permite uma rápida tradução das alterações de planeamento em alterações relacionadas com a segurança;
- Facilita a tarefa de inspecção dos locais de trabalho;
- Redução do tempo gasto na medição e estimativa de quantidades de semanas para minutos;
Pode partilhar connosco alguns exemplos concretos da aplicação de BIM, IoT, Gémeos Digitais na mitigação e prevenção de riscos?
A primeira área onde estas tecnologias podem ter aplicação relevante é na gestão documental. As novas tecnologias permitem a digitalização destes documentos, a uma velocidade bastante superior à que seria se fosse feito por um ser humano, agilizando a sua tramitação e interpretação. Dá-se o exemplo da IA que permite, de um modo muito mais simples, realizar a referida agregação e interpretação de dados, bem como a previsão de cenários tendo em conta o histórico de dados recolhidos.
No tocante à identificação de riscos, as novas tecnologias, pela sua elevada capacidade de processamento de informação (incluindo a vertente tridimensional) e uma abordagem mais estruturada, permitem melhorar a capacidade de identificação, avaliação e mitigação de riscos (habitualmente baseada na experiência pessoa e com uso de desenhos bidimensionais), condicionalismos e constrangimentos antecipadamente à execução dos trabalhos ou em tempo real aquando de monitorização. Outra das vantagens será a possibilidade de, designadamente com RV e RA, testar antecipadamente vários cenários (técnicos, temporais ou financeiros) quer em termos de planeamento de trabalhos e identificação de riscos, quer em termos de medidas preventivas. Esta capacidade melhorará o planeamento de tarefas, bem como o planeamento de alocação de recursos para cada tarefa, minimizando a necessidade de improvisação ou soluções de última hora.
A robótica e os sensores também terão um papel importante, pois permitem a detecção de riscos, por exemplo, em zonas humanas não facilmente acessíveis. No caso da IA, existe ainda a potencialidade de prever riscos ocupacionais, utilizando como fonte, por exemplo, os dados obtidos na identificação automática e armazenamento de registos anteriores de comportamento inseguro ou áreas com maior risco.
Em relação à área de formação, verifica-se que as novas tecnologias têm a potencialidade de ultrapassar as limitações habituais. Isto acontece porque, por exemplo, com RV ou RA, os formandos experimentam, de um modo mais acessível e de lembrança duradoura, rápida e repetidamente cenários diferentes e ilimitados que antes eram impossíveis, perigosos, difíceis ou caros de replicar. Assim, será possível melhorar a transmissão de informação e comunicação entre todos os actores. Saliente-se que uma tendência que está a crescer significativamente a nível mundial é o uso de motores de jogos lúdicos 3D para a “gamificação” da formação dado que permite, a um baixo custo e apresentando maiores taxas de retenção, recriar operações num ambiente virtual podendo incluir avatares como agentes pedagógicos.
Outras das potencialidades que as novas tecnologias apresentam está relacionada com a inspecção e monitorização de locais de trabalho que com esta nova abordagem, adquirem o potencial de melhorar significativamente a capacidade de identificar e monitorizar tarefas, trabalhadores e equipamentos, de maneira rápida e compreensível e com menor risco de erro humano na análise e interpretação de dados. Isto pode ser obtido através de sensores (ou câmaras) embebidos nos Equipamentos de Protecção Individual, numa estrutura, ou num equipamento (como um drone ou um robot), com capacidade de se conectar à Internet em tempo real e proceder a armazenamento de dados em sistemas centrais. Os dados recolhidos nessa monitorização podem ser relativos a informações sobre vários parâmetros importantes tais como: condições ambientais (níveis de ruído, calor, vibração, qualidade do ar, condição das ferramentas elétricas e equipamentos no local, condições estruturais de andaimes); condição de um trabalhador (identificar em que local está; alertas quanto à proximidade de equipamentos perigosos ou entrada em áreas não autorizadas, como perímetros de segurança, bordas ou aberturas desprotegidas; postura dos trabalhadores designadamente rotação / orientação corporal – por exemplo, no caso de ocorrer uma queda em altura – e sinais vitais fisiológicos reais para que os primeiros sinais de problemas de segurança decorrentes de problemas de saúde ou acidentes possam ser detectados e corrigido). Essa informação capturada pelos sensores poderá adicionalmente ser interpretada com base em IA tendo, por exemplo, como objectivo a previsão de dados tais como a trajectória que determinado trabalhador tendencialmente irá tomar.
A utilização de novas tecnologias pode também propiciar situações mais seguras ao utilizar robots para a execução de determinadas tarefas, solução que oferece claras vantagens de segurança quando comparada à operação física in loco, em ambientes perigosos e nocivos (por exemplo, calor extremo ou presença de gases perigosos) ou em tarefas com risco acrescido (por exemplo, demolições). Outra das áreas onde potencialmente se pode utilizar as novas tecnologias é no planeamento de emergência dado que o permitem optimizar, designadamente em termos de simulação de rotas de evacuação e procedimentos de resposta a emergências bem como de fornecer cenários virtuais de situações de emergência.
As novas tecnologias podem ser usadas na investigação de acidentes de trabalho dado permitirem, através de cenários, virtuais ou modelados, recriar a sequência de eventos que levaram ao acidente e ilustrar as falhas encontradas. Adicionalmente, os sistemas baseados em IA podem extrair automaticamente, a baixo custo, atributos (por exemplo, tipo de incidente ou parte do corpo afetada) de relatórios anteriores de acidentes de trabalho e a partir dessa informação prever os cenários mais prováveis de ocorrência de futuros acidentes de trabalho.
As novas tecnologias poderão levar assim a uma mudança de paradigma da prevenção de riscos profissionais com potencial para prevenir acidentes e incidentes de trabalho ou doenças profissionais. É difícil fazer previsões sobre quais tecnologias terão um maior nível de desenvolvimento ou impacto nos próximos anos, mas a digitalização dos locais de trabalho é, de facto, uma realidade incontornável.
Como equilibra o seu entusiasmo com novas tecnologias com as limitações reais dos estaleiros e equipas no terreno?
Tenho muito interesse em novas tecnologias e acredito no seu potencial para melhorar a eficiência, segurança e sustentabilidade na construção civil. A integração das novas tecnologias nos processos de construção representa uma transformação profunda em relação aos métodos tradicionais, exigindo que as equipes se adaptem a novas formas de trabalho. Esta mudança enfrenta resistências comportamentais e culturais, uma vez que as pessoas podem ser relutantes em adoptar práticas inovadoras, especialmente quando os benefícios não são imediatos. Muitas vezes é o próprio dono de obra que não coloca o BIM como obrigatório. E isso é a atual principal limitação da implementação de novas tecnologias.
Adicionalmente, cada estaleiro tem a sua realidade própria — seja em termos de recursos, formação das equipas ou cultura organizacional. Por isso, procuro sempre fazer uma análise crítica e meticulosa antes de propor qualquer implementação. É preciso imperar o bom senso, o envolvimento da liderança. Em resumo, mantenho-me entusiasmado com a inovação, mas com os pés bem assentes no cão. Acredito que a tecnologia deve servir as pessoas — e não o contrário.
Como vê o papel actual e futuro dos coordenadores de segurança em projetos? Quais são os principais desafios?
O papel dos coordenadores de segurança e saúde em fase de projecto (CSP) e em fase de obra (CSO) torna-se cada vez mais estratégico e premente. A sua relevância aumenta à medida que crescem as exigências legais, sociais e técnicas associadas à prevenção. No entanto, ainda não existe um perfil de competências definido para estes profissionais.
Um coordenador é uma mais-valia, mas mais do que aplicar normas, espera-se que influencie comportamentos e promovam uma cultura de segurança proativa e participativa. Quanto ao CSP, este deve participar desde as fases preliminares do projecto, ajudando a evitar soluções construtivas de risco. E, de modo que seja possível maximizar a sua eficácia e influenciar procedimento, deve ser envolvido o mais precocemente possível. E isto é difícil dado que o envolvimento do CSP em faces precoces pode obrigar a alterações de projeto que muitas vezes não são bem-vindas. Vejo também o CSO como uma peça fulcral, ao mais alto nível, no planeamento e monitorização da obra.
Diversos desafios se colocam ao CSP e CSO, tal como a falta de reconhecimento do seu papel estratégico. Muitas vezes são vistos apenas como exigência legal, e não como parte integrante do sucesso do projeto. Isto leva a que sintam dificuldades na implementação do que propõem. Um dos desafios mais importantes é valorizar a segurança comportamental em favor da técnica, fazendo uma abordagem o mais individualizada possível, tendo em conta as características de cada um, maximizando o seu grau de colaboração e, assim, potenciando a sua motivação e abertura a novas ideias e regras.
Os CSP e CSO no futuro próximo, por exemplo, devem preparar-se para gerir contextos como a saúde mental ou novas oportunidades como a construção modular, o trabalho colaborativo remoto, e a automação na obra.
Que mudanças gostaria de ver implementadas nas políticas de segurança em Portugal?
Importa dizer que é essencial que todas as instituições (empresas, escolas e universidades, associações, etc) unam esforços para que a política de segurança possa ser alterada. Existem algumas mudanças de base a realizar para tal ser atingido: introduzir a temática no ensino desde o básico até ao superior aproximando a teoria da prática e tornando a área mais atractiva para os jovens; reforçar meios de formação do saber fazer; rever os prazos e os orçamentos das obras tendo em conta a falta de mão-de-obra e a necessidade de reservar dinheiro para investir em segurança; criar melhores contratos, garantir suficiente formação aos trabalhadores, reforçar o rigor com que se planeia, dirige ou fiscaliza, dar espaço para que as lições aprendidas de cada projecto possam ser recolhidas, interpretadas e disseminadas, criar guias de boas práticas, assumir a saúde mental tem de ser discutida.
Como prevê o papel da IA na gestão de riscos e segurança no sector da construção nos próximos cinco a 10 anos?
Nos próximos 5 a 10 anos, a IA deverá transformar profundamente a gestão de riscos, afirmando-se como uma plataforma estratégica para automatizar o processo de gestão de risco designadamente através de: identificação e monitorização de riscos em tempo real; análise preditiva; replicação de activos físicos (obras, estruturas) em ambiente virtual, alimentados por dados em tempo real. Isso permitirá simular cenários de risco e testar estratégias de mitigação com segurança maximizando assim a qualidade das decisões tomadas
Que conselhos daria a um jovem que ambiciona trabalhar nesta área?
Fazer o que verdadeiramente gosta, o que o faz vibrar. Investir numa formação sólida e continua, ser um aluno durante toda a vida, ter paciência e humildade, trabalhar o networking. Fazer tudo para dormir sempre tranquilo, sem consciência pesada, e cientes que, dentro da ética e deontologia, tudo de necessário fizeram para que não ocorressem acidentes ou incidentes.
O que ainda o apaixona todos os dias no trabalho que faz?
Gosto do stress (q.b) das obras, o aprender e ensinar continuamente, o testar soluções novas.
Manuel Tender tem mais de 30 anos ao serviço da segurança e gestão de riscos na construção. Construiu uma carreira singular, marcada pela combinação rara entre experiência de terreno, liderança em grandes empreendimentos, actividade académica e investigação orientada para a inovação tecnológica. Do início em obra, ainda nos anos 90, passando por projectos emblemáticos como a Expo’98, o Túnel do Marão, a expansão do Metro do Porto e megaprojetos internacionais, percorreu praticamente todas as funções do sector: desde site supervisor a gestor de projecto, coordenador de segurança, investigador, professor e, mais recentemente, Global Risk Manager na AFAPLAN. Hoje, divide o trabalho entre a coordenação de segurança em obras de grande complexidade, a investigação científica e ensino em instituições como FEUP, ISLA e ISEP, e o desenvolvimento de soluções digitais inovadoras no âmbito do projecto Digital4OSH — sempre com a mesma missão: otimizar processos, melhorar comportamentos, elevar padrões e, acima de tudo, salvar vidas.
Reconhecido pela capacidade de unir prática e ciência, tecnologia e humanidade, Manuel Tender é parte activa da transformação do sector, defendendo uma cultura de segurança mais madura, mais disciplinada e mais consciente dos riscos emergentes – desde as lacunas na formação e a falta de mão de obra qualificada até aos desafios da saúde mental e da digitalização.
O Digital4OSH – Digital to Save Lives é um projecto de investigação, inovação e desenvolvimento tecnológico dedicado à melhoria da Segurança, Saúde e Bem-Estar no sector da construção através da aplicação de tecnologias digitais avançadas. O seu objectivo central é transformar a forma como a prevenção de riscos é planeada, monitorizada e comunicada, utilizando ferramentas digitais que permitem maior rigor, rapidez e eficácia na tomada de decisão.
Integra um consórcio multidisciplinar que reúne instituições académicas, empresas e centros de investigação — incluindo o ISLA Gaia, Loughborough University, ISEP, Glasgow Caledonian University, Universidade do Minho, FEUP, Xispoli e BIMMS — permitindo cruzar conhecimento científico, experiência prática em obra e desenvolvimento tecnológico.









