• Início
  • Entrevistas
  • “A primeira batalha de uma emergência pode ser uma batalha pela informação”
Entrevistas

“A primeira batalha de uma emergência pode ser uma batalha pela informação”

249

“Um sistema de emergência pode ser excelente e, ainda assim, não conseguir chegar a todos em simultâneo.” É a partir desta realidade que André Morais, Coordenador Municipal de Protecção Civil do Montijo, defende uma mudança na forma como encaramos a preparação para situações de emergência: cada cidadão deve saber o que fazer nos primeiros minutos, antes da chegada dos meios de socorro. No seu novo livro, “Guia para Sobreviver a uma Emergência”, aborda precisamente esta capacidade de agir sob pressão, sem alarmismo e com conhecimento. Em entrevista à Security Magazine, fala ainda da necessidade de testar os planos de emergência, medir a capacidade real de resposta e integrar cidadãos, empresas e entidades públicas numa estratégia de resiliência que começa muito antes de uma crise acontecer.

Security Magazine – Quais são actualmente as suas principais tarefas diárias e como chegou às actuais funções?

André Morais – Trabalho diariamente numa área em que a maior parte das pessoas só pensa quando alguma coisa corre mal, a Protecção Civil. As minhas funções na qualidade de Coordenador Municipal de Protecção Civil do Montijo passam pelo planeamento de emergência, análise e gestão do risco, preparação, prevenção, acompanhamento de ocorrências, articulação com os diferentes agentes de Protecção Civil, sensibilização da população e desenvolvimento dos instrumentos municipais necessários ao apoio à resposta. Mas há uma parte do trabalho que considero particularmente importante e que é pouco visível, tentar antecipar aquilo que ainda não aconteceu. É precisamente aí que está uma das maiores dificuldades da Protecção Civil.

É relativamente fácil justificar recursos depois de uma emergência. É muito mais difícil convencer alguém a investir tempo, dinheiro e atenção numa coisa que esperamos nunca venha a acontecer.

O meu percurso profissional foi sendo construído precisamente nesta área, através da experiência e do contacto com a realidade operacional. E quanto mais tempo trabalho em Protecção Civil, mais convencido estou de que a qualidade de uma resposta não se mede apenas pela forma como reagimos à emergência. Mede-se, sobretudo, por aquilo que conseguimos evitar, antecipar ou preparar antes dela.

O seu novo livro intitula-se Guia para Sobreviver a uma Emergência. O que o levou a escrever este manual e que falhas ou lacunas identificou na capacidade de resposta prática dos cidadãos?
O livro nasce de uma lacuna que considero evidente, ensinamos as pessoas a reconhecer o risco, mas nem sempre as ensinamos a comportar-se perante ele. Existe muita informação sobre prevenção. Existem campanhas, recomendações, planos e avisos. Mas, quando perguntamos a uma pessoa comum o que faria nos primeiros minutos de um sismo, incêndio, inundação, falha prolongada de energia ou uma situação de isolamento, percebemos rapidamente que existe uma diferença enorme entre conhecer uma recomendação e conseguir aplicá-la. Foi essa diferença que me interessou.

Não quis escrever mais um livro sobre catástrofes. Quis escrever sobre comportamento humano perante uma emergência. Porque, numa situação limite, não temos tempo para consultar um manual de 300 páginas. Temos de reconhecer o perigo, controlar a reacção emocional, tomar decisões e agir. O livro procura, por isso, traduzir conceitos de Protecção Civil para comportamentos concretos. O princípio é simples, a preparação só tem valor quando se transforma em capacidade de decisão no momento em que ela é necessária.

Numa grande emergência ou catástrofe, os meios de socorro demoram a chegar. Que acções ou comportamentos de sobrevivência considera críticos para qualquer pessoa nos primeiros minutos de um evento limite?
O primeiro comportamento é provavelmente o mais difícil: parar, observar e pensar. Parece contraditório numa emergência, mas é precisamente quando existe maior pressão para agir impulsivamente que uma decisão errada pode produzir consequências graves. É necessário identificar o perigo imediato, proteger-se, afastar-se da zona de risco quando possível, avaliar quem está connosco, prestar ajuda apenas quando isso puder ser feito em segurança e comunicar a emergência de forma adequada. Mas existe outro princípio que considero fundamental: não assumir que a ajuda vai chegar imediatamente. Isto não é uma crítica aos serviços de emergência. É uma realidade operacional.

Numa ocorrência de pequena dimensão, o sistema consegue normalmente mobilizar os recursos necessários. Numa ocorrência de grande dimensão, com múltiplos incidentes simultâneos, esses recursos são necessariamente disputados. Durante esse intervalo, a primeira linha de sobrevivência é o próprio cidadão. E aqui existe uma ideia que precisamos de normalizar, autoprotecção não significa abandonar o cidadão à sua sorte. Significa prepará-lo para sobreviver enquanto o sistema faz aquilo que tem de fazer.

Nenhum sistema de emergência do mundo consegue garantir resposta imediata a milhares de necessidades simultâneas.

Muita gente conhece conceitos vagos de prevenção, mas pouca gente sabe como agir no terreno sob pressão. Como é que este guia desconstrói o facilitismo e ensina a reagir com cabeça e pragmatismo?
Tentando retirar à emergência aquilo que muitas vezes tem de fantasia. Existe uma percepção confortável de que, quando acontece uma catástrofe, os profissionais chegam rapidamente, resolvem a situação e a normalidade regressa. Isso funciona relativamente bem na percepção de uma emergência convencional. Não funciona necessariamente perante uma emergência complexa ou de grande escala. Podemos ter estradas bloqueadas, comunicações interrompidas, falta de energia, milhares de pessoas a necessitar de ajuda simultaneamente e profissionais de emergência também afectados pelo próprio evento. É preciso preparar o cidadão para essa realidade sem o transformar num especialista.

Não pretendo que alguém se transforme num bombeiro ou num médico depois de ler o livro. Pretendo que saiba não piorar a situação, proteger-se, tomar decisões razoáveis e ajudar quem está consigo. A preparação não elimina o medo. Reduz a probabilidade de o medo controlar o comportamento. E isso é particularmente importante porque, numa emergência, o pânico raramente nasce apenas do perigo; nasce também da sensação de não saber o que fazer.

Como é que transformamos a população de um papel passivo para verdadeiros agentes de prevenção no dia a dia?
Temos de abandonar a ideia de que a Protecção Civil é uma coisa que acontece aos cidadãos. A população faz parte do sistema. Uma pessoa que conhece os riscos do local onde vive, que sabe como actuar perante uma emergência, que possui alguma autonomia durante as primeiras horas e que consegue ajudar familiares ou vizinhos não é apenas uma pessoa mais segura. É também um recurso para a própria comunidade. Mas isso implica alterar a forma como comunicamos. Não basta dizer “tenha um kit de emergência”, “siga as autoridades” ou “esteja preparado”.

Temos de explicar preparado para quê, para quanto tempo, com que recursos e para fazer exatamente o quê. A prevenção começa quando deixamos de falar de risco de forma abstrata e começamos a falar de comportamentos. O objectivo deve ser passar de uma população que pergunta “quem vem ajudar-me?” para uma população que primeiro pergunta “o que posso fazer com segurança enquanto a ajuda não chega?”. Essa mudança parece pequena, mas é uma mudança cultural profunda.

Como se consegue educar uma comunidade para o risco e para a prevenção sem criar pânico desnecessário, especialmente numa era de desinformação e redes sociais?
Não escondendo o risco. Uma população não fica necessariamente mais tranquila porque lhe dizemos que está tudo bem. Fica mais preparada quando compreende aquilo que pode acontecer e sabe o que pode fazer. Há uma diferença enorme entre alarmismo e preparação. O alarmismo apresenta o perigo sem capacidade de resposta. A preparação apresenta o perigo acompanhado de comportamentos concretos.

Hoje temos ainda um problema adicional, durante uma emergência, a informação circula a uma velocidade muito superior à capacidade das instituições para a validar. Uma fotografia antiga pode tornar-se “notícia” em minutos. Um rumor pode provocar deslocações desnecessárias, congestionamento das redes ou pressão adicional sobre os serviços de emergência. Por isso, a comunicação institucional tem de ser uma capacidade operacional e não apenas uma função de comunicação. A primeira batalha de uma emergência pode ser uma batalha pela informação. E essa batalha começa muito antes da ocorrência, construindo confiança nas fontes oficiais. Se a população só ouve as autoridades quando existe uma catástrofe, já chegámos tarde.

Olhando para o panorama nacional, se ocorresse hoje um evento extremo imprevisível, qual seria a maior vulnerabilidade da população: a falta de meios técnicos do sistema ou a falta de preparação do próprio cidadão?
A maior vulnerabilidade não está necessariamente numa destas duas opções isoladamente. Está na expectativa de que o sistema consiga compensar todas as vulnerabilidades individuais. Portugal tem profissionais competentes, meios e estruturas de resposta. Mas nenhum sistema de emergência do mundo consegue garantir resposta imediata a milhares de necessidades simultâneas.

Quando a escala da ocorrência ultrapassa a capacidade disponível, aparece inevitavelmente uma janela de vulnerabilidade. E é aí que a preparação da população deixa de ser um conceito teórico. Temos de ser intelectualmente honestos sobre isto, um sistema de emergência pode ser excelente e, ainda assim, não conseguir chegar a todos em simultâneo. O problema começa quando construímos uma sociedade em que o cidadão não está preparado para esse intervalo. Por isso, mais do que perguntar se faltam meios ao sistema ou preparação ao cidadão, eu perguntaria: quanto tempo consegue uma comunidade funcionar autonomamente antes de necessitar de intervenção externa? Essa é uma pergunta muito mais relevante quando falamos de resiliência.

A população espera que o Estado ou os bombeiros cheguem em minutos. Como se confronta o cidadão com o seu dever de autoprotecção?
Explicando-lhe a realidade sem paternalismo. Os bombeiros não conseguem estar em dez locais ao mesmo tempo. Os meios médicos também não. A polícia também não. E os municípios não conseguem materializar recursos que simplesmente não existem. Numa emergência de grande dimensão, alguém vai esperar. A questão é saber se essa espera encontra uma população completamente dependente da resposta externa ou uma população capaz de se proteger, organizar e resistir durante esse período.

O cidadão tem direitos, mas também tem responsabilidades. E uma dessas responsabilidades é preparar-se razoavelmente para proteger a própria vida, a sua família e, dentro das suas capacidades, quem estiver à sua volta. Isto não diminui a responsabilidade do Estado. Pelo contrário, quanto mais autónomo for o cidadão durante os primeiros momentos, mais capacidade terá o sistema profissional para concentrar recursos onde a intervenção especializada é verdadeiramente indispensável. Autoprotecção não é desresponsabilização do Estado. É racionalização da resposta colectiva.

Como é que se mede a eficácia real de uma estratégia de Protecção Civil Municipal sem esperar que ocorra uma catástrofe para a testar?
Testando-a. Parece óbvio, mas ainda existe uma cultura excessivamente centrada na produção de documentos. Podemos medir tempos de activação, disponibilidade de recursos, capacidade de comunicação, actualização de contactos, conhecimento das responsabilidades, tempos de mobilização, articulação entre entidades, capacidade logística e comportamento da população. Mas esses indicadores só ganham verdadeiro significado quando são submetidos a exercícios. E há uma distinção importante, um exercício não deve servir apenas para demonstrar que tudo funciona. Deve servir para descobrir aquilo que não funciona. Se terminamos um exercício sem identificar problemas, provavelmente o exercício não foi suficientemente exigente. A verdadeira eficácia de uma estratégia municipal mede-se pela capacidade de aprender antes da emergência real.

Preocupa-me uma Protecção Civil que utilize tecnologia sofisticada sem possuir pessoas suficientemente preparadas para questionar aquilo que a tecnologia lhes diz.

Muitos Planos Municipais de Emergência estão formalmente aprovados e “no papel”, mas nunca foram testados em simulações reais com a população. Qual é o valor real de um plano que nunca foi colocado à prova no terreno?
Tem valor jurídico e enquanto instrumento de planeamento. Mas não podemos confundir existência com operacionalidade. Um plano pode estar tecnicamente muito bem elaborado e falhar quando confrontado com a realidade. Porque a realidade introduz aquilo que nenhum documento consegue reproduzir completamente, pressão, incerteza, falhas de comunicação, indisponibilidade de recursos, alterações meteorológicas, comportamento humano, decisões simultâneas e acontecimentos que não estavam previstos. Por isso, considero que um plano que nunca foi exercitado é uma hipótese operacional, não uma capacidade operacional demonstrada. E defendo uma evolução da cultura de exercícios.

Precisamos de simulacros, mas também de exercícios de comando, exercícios funcionais, testes de comunicações, ativações parciais e cenários inesperados. Não devemos testar apenas se o plano funciona quando todos sabem antecipadamente o que vai acontecer. Devemos testar o que acontece quando o plano começa a falhar. É aí que descobrimos se temos realmente capacidade de resposta.

Com o surgimento da Inteligência Artificial na previsão de catástrofes e gestão de emergências, onde é que a decisão humana e a experiência de terreno continuam a ser insubstituíveis?
A Inteligência Artificial será uma ferramenta extraordinariamente poderosa para a Protecção Civil. Pode processar volumes de informação que nenhum ser humano conseguiria analisar em tempo útil, identificar padrões, apoiar modelos preditivos, cruzar dados e ajudar a antecipar determinados cenários. Mas existe uma diferença fundamental entre processar informação e compreender uma situação operacional. Uma emergência não é apenas um conjunto de dados. É uma realidade dinâmica, onde existem pessoas, emoções, recursos limitados, constrangimentos físicos, decisões contraditórias e informação incompleta.

A Inteligência Artificial pode dizer-nos que determinado cenário tem elevada probabilidade. Não significa que consiga, sozinha, decidir qual é a melhor resposta naquele contexto concreto. A experiência de terreno continuará a ser fundamental porque permite interpretar aquilo que os modelos não conseguem captar completamente. Vejo a IA como uma ferramenta de amplificação da capacidade humana.

Não me preocupa uma Protecção Civil com mais tecnologia. Preocupa-me uma Protecção Civil que utilize tecnologia sofisticada sem possuir pessoas suficientemente preparadas para questionar aquilo que a tecnologia lhes diz. Quanto mais poderosa for a ferramenta, maior tem de ser a qualidade do decisor.

Que modelo prático e obrigatório defende para integrar a autoprotecção nas rotinas das empresas e dos estabelecimentos de ensino?
Defendo uma mudança de paradigma, sair do cumprimento documental e entrar numa lógica de competência demonstrada. Uma empresa ou uma escola não está preparada porque possui um plano. Está preparada quando as pessoas sabem o que fazer. Isso implica formação, exercícios regulares e avaliação.

Uma pessoa deve saber como evacuar, onde se dirigir, como comunicar uma emergência, como actuar perante um incêndio, como prestar uma primeira assistência dentro das suas capacidades e como reagir perante uma interrupção prolongada de serviços essenciais. Mas não devemos fazer exercícios apenas para cumprir calendário. Devemos testar pessoas em condições suficientemente próximas da realidade para perceber onde falham. E aqui existe uma oportunidade particularmente importante nas escolas, se conseguirmos formar uma criança para determinados comportamentos de autoprotecção, estamos simultaneamente a formar uma família. A criança leva o conhecimento para casa e, muitas vezes, obriga os adultos a discutir assuntos que nunca tinham discutido. A cultura de segurança constrói-se por repetição. Não por decreto.

Se pudesse exigir uma única mudança imediata na legislação ou na forma como a Protecção Civil é gerida em Portugal, qual seria?
Primeiro regulamentar os Serviços Municipais de Protecção Civil, pois é deverás preocupante a heterogeneidade existente e com isso impreparação. Outra regra simples, sempre que possível, a preparação teria de ser demonstrada e não apenas declarada. Temos demasiadas situações em que confundimos conformidade administrativa com capacidade efectiva. Um documento pode estar correcto. Uma estrutura pode estar formalmente constituída. Um plano pode estar aprovado. Mas a pergunta fundamental é outra, se a emergência acontecesse amanhã, isto funcionaria? É essa pergunta que deveria estar no centro da avaliação. Não significa abandonar a componente documental ou legal. Significa reconhecer que os documentos são meios e não fins.

Gostaria de ver uma Protecção Civil cada vez mais orientada para resultados mensuráveis, capacidade de mobilização, tempos de resposta, interoperabilidade, comunicações, formação, exercícios, correção de falhas e preparação das comunidades. No final, a sociedade não é protegida pela existência de um plano. É protegida pela capacidade de executar esse plano quando tudo começa a correr mal.

Sendo a Security Magazine uma publicação dirigida aos profissionais de segurança corporativa, como é que o sector privado se pode integrar melhor com a Protecção Civil municipal segundo a sua visão?
O sector privado tem recursos que são fundamentais para a resiliência de um território e, em muitos casos, possui conhecimento que o sector público não tem. Vejamos o Montijo que já tem protocolos de cooperação com várias entidades privadas na área da logística, suporte operacional e capacidade de convergir meios e recursos. Infra-estruturas, equipamentos, recursos humanos, redes logísticas, sistemas de comunicação, capacidade de armazenamento, transporte e conhecimento especializado podem assumir uma importância enorme durante uma emergência. O problema é que, muitas vezes, só nos lembramos desse potencial quando a emergência já começou. A integração tem de acontecer antes.

Os municípios devem conhecer melhor as capacidades existentes no território e as empresas devem compreender melhor os riscos a que estão expostas e a forma como podem articular-se com as estruturas municipais. E há aqui uma mudança conceptual que considero importante. O sector privado não deve ser visto apenas como alguém a quem se impõem obrigações de segurança. Deve ser visto como parte integrante da capacidade de resiliência territorial. Uma empresa resiliente protege os seus trabalhadores, mantém serviços essenciais, reduz impactos económicos e pode contribuir para a recuperação da comunidade. Por isso, a relação entre Proteção Civil municipal e sector privado deve deixar de ser predominantemente administrativa e passar a ser também operacional. No fundo, a pergunta que devemos fazer não é apenas, “O que é que a Proteção Civil pode fazer pelas empresas?” é também, “Que capacidade é que as empresas podem colocar ao serviço da resiliência da comunidade quando o território é afetado?” é nessa reciprocidade que vejo o verdadeiro potencial da cooperação entre o sector público e o sector privado.

    Notícias relacionadas